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Ex-seleção abandona o boxe por falta de dinheiro e abre salão na periferia

FOLHAPRESS | 12/08/2019 | 14:02

Jorge Preto, 32, vai todos os dias à academia no bairro do Sapopemba, zona leste de São Paulo, para treinar boxe. Não precisava. Ele não tem nenhuma luta marcada e nem perspectiva de tê-la.

“Eu continuo praticando todos os dias por amor também. Sou atleta, nasci para isso”, afirma.
Boxeador com 46 lutas no currículo entre a carreira amadora e profissional, vencedor de cinturões na categoria médio, super médio e meio pesado, ele tem de enfrentar a oposição da família para insistir no boxe. A mulher Elaine e os filhos Wagner e Heloísa preferem que ele se dedique ao salão de cabeleireiros que abriu neste ano.

“Usei todo o dinheiro que economizei com as lutas. Eu fiz curso quando percebi a dificuldade que estava no boxe profissional”, explica enquanto posa para a Folha vestido de boxeador em frente ao salão.

Com um projeto social de boxe para crianças na região de Sapopemba, o Saproboxe, Jorge Preto tenta fazer com que o dia tenha mais do que as 24 horas normais. Cuida do salão, dá aulas em academias, pensa na Saproboxe e treina. Ainda tem a esperança de que apareça um combate no horizonte.

É realidade diferente das vividas por atletas que se destacaram nos últimos anos no país, como Robson Conceição e os irmãos Yamaguchi e Esquiva Falcão. Todos treinam nos Estados Unidos e contam com patrocínio. É o que falta para Preto e ele confessa ser a realidade da maioria esmagadora dos que tentam a modalidade no Brasil.

“Eu queria viver de boxe. Sei do meu nível. Sei que sou um grande pugilista, já briguei por vaga em seleção brasileira. Viajei pelo Brasil todo. Eu deixei de ser amador e me tornei profissional porque pensei que seria o melhor na questão financeira. Mas ficou muito pior. Quando era amador recebia Bolsa Atleta [programa do governo federal]”, lembra, com arrependimento na voz.

Sua última luta aconteceu em setembro do ano passado, quando foi chamado para enfrentar o boliviano Bismarck Taborga. O rival era ranqueado, o brasileiro, não. A ideia era que ele servisse quase como sparring em uma luta que valeria cinturão de desafio pela Associação Nacional de Boxe. Jorge Preto venceu por nocaute no 2º round.

A esperança era a de que a vitória abrisse portas e o tornasse mais atrativo para possíveis patrocinadores. Isso não aconteceu. Foi neste momento que a ideia de inverter a ordem e fazer do salão de cabeleireiro a prioridade tomou forma. A família o apoiou, mas o próprio boxeador não se entusiasmou com a ideia. Como as contas não paravam de chegar, teve de abraçá-la.

“O atleta que não é campeão de uma organização de alto calibre, como o Conselho Mundial de Boxe, encontra dificuldade. Sigo treinando, mas sem apoio nenhum. Fica difícil eu me dedicar 100% ao boxe. Os patrocinadores querem gente que esteja com grandes treinadores e grandes equipes. Eu infelizmente não sou mais este atleta para o boxe. Eles sempre me convidam para eventos achando que eu vou ser saco de pancadas e isso não é mais minha realidade. Mantenho-me bem preparado e bem treinado e nas minhas últimas lutas eu tenho vencido todas”, ressalta.

A ligação com o boxe tem mais chances de continuar por meio da Saproboxe, que já levou pugilistas para participar de competições oficiais da Federação Paulista de Boxe. É uma maneira de, segundo Jorge, tirar adolescentes do caminho do tráfico de drogas. Acontece ainda, de vez em quando, de receber contatos de promotores para que suba ao ringue. Algo que ele deseja. Mas não diante dos valores oferecidos.

“Querem pagar R$ 700 ou R$ 800 de bolsa. Não dá. Eu tenho de pagar o meu treinamento, minha alimentação, os suplementos e ainda deste valor que oferecem, o boxeador não fica com 100%. Não tem condições”, disse, pontuando que esta é a realidade da maioria dos lutadores envolvidos no esporte.

Jorge Preto deixou o amadorismo, perdeu dinheiro como profissional e hoje se tornou autônomo, ajudado nos treinos pelo pai Vagner Pereira, também ex-atleta.

O que é mais comum hoje em dia é algum cliente se sentar na cadeira do salão do ainda pugilista, na zona leste da capital paulista, e perguntar quando será sua próxima luta. Algo que não agrada à família. Jorge Preto gostaria de dar uma resposta, mas não tem como.

“Quando estava só com o boxe, eu sobrevivia, mas aos trancos e barrancos. Chegou uma hora que não dava mais. Ainda tenho esperança que apareça um patrocinador ou um bom convite. Por isso que treino todos os dias e me mantenho em forma. À espera dessa oportunidade”, finaliza.

FOLHA UOL

 


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