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Futebol de amputados é recomeço do caminho do sucesso na vida real

THIAGO BATISTA | 01/12/2019 | 08:02

Nem tudo está acabado quando a pessoa sofre um grave acidente e fica com uma sequela que carregará para o resto da vida. Pode ser o recomeço, a chance para abrir novas portas. Para Marcel Rodrigo Martins e Erick Gomes, o prazer de jogar futebol não parou nem mesmo sem uma das pernas. Eles estão provando que podem ser vencedores no futebol de amputados. Foram recentemente terceiros colocados no Campeonato Brasileiro e ficaram em quarto no Campeonato Paulista, em ambos atuando pela Ponte Preta, de Campinas.

Marcel Rodrigo sofreu um acidente de moto na avenida União dos Ferroviários, em 2008. Desde 2014 joga futebol de amputados, o que dá prazer. “A gente acha que acabou tudo, só que é uma nova adaptação e levo uma vida normal hoje”, conta.

Seu companheiro de equipe é Erick Gomes, de 30 anos. E-jogador do futebol amador com destaque pelo Jamaica, sofreu acidente doméstico em 2010 que acabou custando amputar a perna. E foi o futebol que conseguiu resgatar a sua felicidade. “No começo fiquei desanimado, pois achei que não seria mais jogador, mas conheci o projeto da Ponte e minha auto-estima foi lá em cima”, declara.

A história de vida de Marcel é de pura superação. Ele quase perdeu a sua vida no acidente, e a sua teimosia em ter as duas pernas quase foi fatal. “Um socorrista passava no local quando fazia cooper e estancou minha hemorragia. Se esperasse o resgate, teria morrido”, lembra. “No hospital não queria amputar a perna, fiquei internado por 17 dias e sofri três paradas cardíacas. Na terceira, levei choque por um minuto para ser reanimado e aí amputaram a minha perna. Dois dias depois, ganhei alta”, completa.

O acidente de Erick foi na sua própria casa, quando quebrou uma porta de vidro, e estilhaços foram na artéria da sua perna direita – que teve que ser amputada após três dias.

E era justamente o membro em que fazia a maioria das jogadas no futebol. “Aqui tive que me adaptar totalmente. Demorei seis meses para me acostumar”, conta o jogador, que lembra do seu primeiro treino. “Achei que iria morrer, pois é puxado. Dói os braços e os ombros e você tem que aprender a correr de muleta”, explica.

Seu companheiro de equipe conta as dificuldades que um principiante sofre. “Tem que ter força no braços, pois você corre com a muleta e você tem que ter o hábito de não colocar o objeto na bola, se não é falta, além de não chutar a muleta”, lembra Marcel, hoje com 37 anos.

Participante por Jundiaí dos Jogos Regionais e Jogos Abertos, pelo Poema, o mais velho da dupla conheceu a modalidade através da indicação de Marcos Bonequini (e-goleiro do São Paulo), que conhecia grandes nomes do esporte. Desde então, não largou mais. “A gente pega todos que gostam de jogar e coloca no carro. Se o veículo é de cinco lugares, vai sete”, conta bem-humorado.

Marcel e Erick jogam na Ponte Preta ao lado de outros dois atletas de Jundiaí: Felipe Vilão e Kleber Ramos. E tem toda estrutura da equipe campineira para praticar a modalidade. Algumas vezes a torcida pede até para eles jogarem no time principal. “A gente é convidado em alguns jogos deles e damos volta no campo. Teve um dia que os torcedores falaram para colocar a gente no lugar dos profissionais, que eles chamavam de perna de pau”, diverte-se Marcel.

O auge de todo jogador é chegar à seleção brasileira, algo que Erick já conseguir por três vezes. “Espero dar continuidade na seleção, ter mais convocações e representar o Brasil em outros torneios como Copa das Confederações e Copa América”.

O sonho de Marcel é que acabe o preconceito com os amputados que querem praticar futebol em Jundiaí e liderar um projeto na cidade. “A gente pede para treinar em um campo de futebol society por uma hora e não cedem porque acham que a muleta vai estragar o gramado. Se tivesse apoio, a gente queria montar algo”, declara.


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