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Portugal naturaliza brasileiros para Olimpíada e colhe resultados

FOLHAPRESS | 14/09/2019 | 16:44

Nascida no Rio de Janeiro e ex-atleta dos clubes Flamengo e Pinheiros, a judoca Bárbara Timo, 28, acaba de ser vice-campeã mundial. O melhor resultado de sua carreira não contou como medalha do Brasil, mas sim de Portugal, país que a carioca passou a defender neste ano.

Após processo que durou cerca de três meses, ela e outra judoca brasileira, a gaúcha Rochele Nunes, 30, foram contratadas pelo Benfica em agosto de 2018. Estimulada pelo clube, a naturalização da dupla saiu antes do fim do ano.

A Confederação Brasileira de Judô não se opôs e deu aval para a mudança de nacionalidade sem exigir que elas passassem pela quarentena de dois anos afastadas de competições, prevista pela federação internacional nesses casos.

No Brasil, Bárbara tinha como principal concorrente nos 70 kg Maria Portela, que foi aos Jogos de Londres-2012 e do Rio-2016. Para Rochele, a disputa pela vaga em Tóquio-2020 seria ainda mais acirrada, já que o país tem Maria Suelen Altheman e Beatriz Souza no top 10 da sua categoria, acima de 78 kg.

A naturalização atendia ao desejo das atletas de aumentar suas chances de participar de uma Olimpíada, já que Portugal não tinha competidoras com ranking nesses pesos, e mostrou-se boa opção para os europeus. Somadas todas as edições dos Jogos Olímpicos, os portugueses conquistaram 24 medalhas. No Rio, a única atleta a subir ao pódio foi a judoca Telma Monteiro.

Já no último Mundial de judô, disputado no Japão até 1º de setembro, Portugal fez a sua melhor campanha da história, com as medalhas de Bárbara e de Jorge Fonseca, atleta nascido em São Tomé e Príncipe, que venceu nos 100 kg.

Dos 18 integrantes da delegação nacional, 9 nasceram fora de Portugal. Outros dois brasileiros, Rodrigo Lopes e Carlos Luz, além de atletas naturais de Cabo Verde, Moldávia, Geórgia e Cuba compuseram o diverso time português.

Bárbara, que conquistou a medalha de prata no Mundial mesmo com lesões na costela e no cotovelo, teve um primeiro sinal positivo em fevereiro, quando foi medalhista de bronze no prestigiado Grand Slam de Paris. No mês seguinte, ela levou o ouro no Grand Prix de Tbilisi.

“Minha primeira sensação foi de que ‘ufa, não sou maluca’. Não mudamos só por mudar, fizemos isso por um sonho e mostramos que podemos fazer acontecer”, afirma à reportagem. Na Europa, a judoca consegue viajar para várias competições de nível mundial com mais frequência do que fazia quando estava no Brasil.

A adaptação, porém, também foi marcada por incertezas. Como tiveram que abrir mão das receitas do Bolsa Atleta e do soldo que recebiam da Marinha, ela e a amiga Rochele, que moram juntas em Lisboa, passaram meses negando convites para passeios.

“Dizíamos que estávamos cansadas, mas a verdade é que não tínhamos dinheiro mesmo. Foi muito intenso, mas sempre que sofreu a gente riu muito também. Dizíamos que aquele era o tempo dos humilhados, mas que chegaria o dos exaltados”, ela se diverte ao lembrar.

Perceber que as iniciais no quimono mudaram de “BRA” para “POR” também não foi algo que ocorreu da noite para o dia e precisou ser trabalhado com ajuda psicológica.

“Eu ficava ansiosa e não conseguia dormir, aí fui entendendo que era porque não me sentia em casa. Até que mudei o chip e disse ‘sim, agora sou portuguesa’. Eu precisava disso”, afirma.

Para Rochele, que foi ao pódio em três competições internacionais neste ano, o clique ocorreu ao passar as festas do fim de 2018 no Brasil. “Foi quando me senti deslocada e percebi que não morava mais lá mesmo. Toda adaptação é difícil, mas com certeza eu repetiria uma mudança assim.”

Bárbara conta que elas também precisaram enfrentar a resistência de alguns portugueses sobre o tema: “Como estão vindo muitos brasileiros para cá, percebemos pessoas mais desconfiadas e fechadas. Tivemos atletas também que eram descaradamente contra, mas depois ficou mais tranquilo. A seleção é multicultural e traduz o que é Portugal”.

O ginasta Petrix Barbosa, 27, também se naturalizou português em 2018. Ele não fazia parte da seleção brasileira neste ciclo olímpico. Em 2018, foi um dos atletas que acusaram o ex-técnico Fernando de Carvalho Lopes de abusos, em denúncias reveladas pela TV Globo.

Casos de mudança de nacionalidade de esportistas são comuns. Na Olimpíada do Rio, por exemplo, o país-sede teve 23 representantes nascidos fora do Brasil.

Procurado, o comitê olímpico português disse que os casos de Bárbara, Rochele e Petrix não fazem parte de uma estratégia nacional. Segundo a entidade, esses processos respeitaram as leis locais e se deram por vontade dos atletas e de seus clubes.

“Sendo o Comitê Olímpico de Portugal um mero participante acidental, que ocorre apenas se for chamado pelo clube ou federação, e cuja participação se limita à redação de um ofício/carta/parecer de conforto para melhor instrução do processo”, diz a nota enviada à reportagem.

O diretor de esportes do Comitê Olímpico do Brasil, Jorge Bichara, observa tendência maior de naturalização nos últimos anos causada por diferentes fatores: aumento geral na imigração para a Europa que se reflete no esporte; facilidade de utilização de jovens atletas de ex-colônias; estratégia para desenvolver modalidades com talentos já formados. Ele coloca Portugal neste último exemplo.

“Algumas nações estão oferecendo condições de transferência vantajosas. Dessa forma, conseguem formar um grupo mais diversificado e com potencial de resultados”, afirma o dirigente.

Outro episódio recente no país europeu foi o do cubano Pedro Pablo Pichardo, 26, um dos melhores atletas do mundo no salto triplo. O processo dele, concluído no fim de 2017, provocou rusga com um concorrente renomado.

Campeão olímpico por Portugal na mesma prova em 2008, Nelson Évora, 35, nascido na Costa do Marfim e naturalizado português aos 18 anos, disse que todos têm o direito de mudar de nacionalidade, mas que o caso de Pichardo foi atropelado e feito apenas para atender aos interesses do Benfica.

Évora defendeu o clube até 2016 e hoje está no seu rival de Lisboa, o Sporting. “Cheguei a Portugal com 6 anos. Com 10 foi pedido meu processo de naturalização e só com 18 é que consegui”, ele afirmou em entrevista no início do ano.

“Por isso, [o caso] deixou-me um pouco indignado. Não só pelas madrugadas que perdi, mas também pelas pessoas que estão aqui há muitos anos a lutar pela nacionalidade e não conseguem”, completou.

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