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Mães estão em um eterno aprendizado com seus filhos

| 14/05/2014 | 15:31

A missão de ser mãe quase sempre começa com alguns meses de muito enjoo, seguido de anseios incontroláveis por comidas estranhas, aumento de peso, dores na coluna, o aprimoramento da arte de arrumar travesseiros preenchendo espaços entre o volume da barriga e o resto da cama. Em seguida, desafios como decifrar choros, remediar desde resfriados que demoram a passar ao coração partido com a tristeza causada pela morte do bichinho de estimação do ´pequerrucho´.

De repente, sem perceber, cresce o desejo de sacrificar a vida para poupar a do filho. Ao mesmo tempo, deseja-se viver mais, não apenas para realizar seus próprios sonhos, mas para ver a criança realizar os dela. Não demora e começa outra fase, complicada de forma diferente: ouvir o filho falar da primeira namorada, da primeira decepção e quase morrer de apreensão na primeira vez que ele se aventurar ao volante de um carro.

Isso não é nada quando se passa a noite acordada, imaginando mil coisas, até ouvir o barulho da chave abrindo a porta e os passos do jovem ecoando – são e salvo – dentro do lar. Até que, finalmente, o resultado de tantas tentativas – frustradas ou não – de dar a melhor orientação, de se desafiar ao desapego e confiar na educação dada ao longo de uma vida, os filhos conquistam a independência e, saindo ou não de casa, já não precisam mais das mães, que passam a assumir um novo papel: o confidente e amiga.

Cada fase de “ser mãe” é feita de descobertas, não apenas dos filhos, mas especialmente de si mesma. Afinal, ser mãe não é apenas ensinar, direcionar, sofrer e se alegrar com cada conquista de cada filho, mas também descobrir que em toda etapa dessa missão o aprendizado é interminável.

Mãe de coração
Quando a mulher, desde a época das bonecas, sonha em ser mãe em algum momento da vida, é sinal que brotará dali uma mãe e tanto. Foi assim com a gerente comercial, Priscila Vanalli Fleury Charmillot. De um sonho, muito bem planejado – tanto que Priscila esperou 34 anos, sete depois de casada -, veio ao mundo Giovanna.

“Aconteceu na hora certa, quando ganhei independência financeira e maturidade”, diz ela. Fatores que contribuíram para que, ao lado do marido, enfrentasse a cardiopatia (doença cardíaca congênita) que acometeu a pequena Giovanna quando tinha apenas 45 dias de vida e a fez passar por uma cirurgia. “Foi uma fase muito complicada da minha vida, que conseguimos superar com muita fé e oração.”

E muita coragem, pois Priscila decidiu engravidar novamente: Isabela, com seis meses hoje, veio ao mundo com saúde plena. “Encarei minha segunda gestação sem pensar muito. Até porque, independentemente da situação, se você pensar, não será mãe nunca”, brinca. Hoje, Priscila sabe definir o que é ser mãe. “É uma sensação plena, em que os nossos valores mudam. Afinal, os filhos são a perfeição que Deus coloca em nossa vida”, descreve.

E nessa fase, em que suas meninas ainda são muito pequenas, com toda a vida pela frente, Priscila compreende que mãe é continente, presença, calor, toque, sorriso, ritmo acolhedor, música e leite bom… É plantar a semente e acreditar nela. “É olhar para o bebê e saber que ali vive um vencedor e tratá-lo como tal. É oferecer junto com cada gota de leite a convicção de que aquele é um ser humano maravilhoso”, descreve, com seu olhar vigilante e transbordante de amor.

“Somos como a sombra de uma árvore protetora, oferecendo muitos estímulos, liberdade, limite com firmeza e amor, sorrisos, palavras doces, carinho e colinho quente depois de cada jornada.”

Mãe companheira
Da dependência na infância para o estímulo intelectual e profissional que está por vir, o papel da mãe cabe bem no antigo jargão adaptado de um anti-inflamatório: “Não basta ser mãe tem que participar”. A comerciante e dona de casa Virgínia Storani Pirana, 42 anos, mãe de dois adolescentes, Caio Vinícius Pirana, 15 anos, e Guilherme Pirana, 12, sabe disso. 

“A adolescência é uma fase complicada, em que tudo é novidade. Se não houver diálogo, eles vão se orientar pelos colegas, que podem ajudá-los ou atrapalhá-los”, acredita a mãe dos meninos – que por vontade própria escolheram levar o futebol a sério e ganharam, inevitavelmente, uma torcedora mais que convicta. “Torço mesmo, comemoro quando eles vencem uma partida, sofro quando perdem”, diz a mãe coruja, mas atenta, pois não dispensa as boas notas na escola.

Virgínia admite que ser mãe de adolescente exige um certo jogo de cintura. “Acima de tudo é preciso compreender e aprender a ouvir. Assim, você ganha a confiança e eles passam até a sentir necessidade de dividir as coisas com você”, ensina a mãe, que também assume a em sua rotina o compromisso de levar e buscar os garotos a todos os lugares que precisam e querem ir, incluindo as baladas.

“Faço questão de estar por perto e eles não se importam”, conta. Enquanto o futuro vai se desenhando,  Virgínia promete fazer coro nas numeradas no estádio Doutor Jayme Cintra e na arquibancada do Clube Nacional, onde treinam Caio e Guilherme, respectivamente.

Mãe desnecessária
A boa mãe é aquela que vai se tornando desnecessária com o passar do tempo. Fácil falar… Difícil é admitir ter chegado a hora de reprimir de vez o impulso natural materno de querer colocar a cria embaixo da asa, protegida de todos os erros, tristezas e perigos – uma batalha interna hercúlea que a administradora de empresas, Maria Angélica Dutra, 53 anos, enfrenta ao assistir as filhas chegarem à fase adulta.

Alexia Dutra Squizel, 21 anos, e Fabiana Dutra Squizel, 24, ainda moram com Angélica, mas por já terem conseguido conquistar independência financeira, já não carecem mais daquela supermãe que tudo providencia. “Penso que se eu fiz o meu trabalho direito, tenho que me tornar desnecessária”, admite. Angélica acredita que a cada fase da vida, mães vão cortando e refazendo o cordão umbilical. A cada nova fase, uma nova perda e um novo ganho para os dois lados: mãe e filho.

“Até porque o amor é um processo de libertação permanente e esse vínculo não para de se transformar ao longo da vida, até o dia em que os filhos se tornam adultos, constituem a própria família e recomeçam o ciclo”, diz. “O que nossos filhos precisam é ter certeza de que estamos lá, firmes, na concordância e na divergência, no sucesso ou no fracasso, com peito aberto para o aconchego, o abraço apertado, o conforto nas horas difíceis”, completa.

Afinal, mãe generosa cria filhos para serem livres – essa é a principal missão. E ainda assim as mães continuam a distribuir amor e perpetuar aprendizados. Já não ensinam tanto quanto aprendem com os seus filhos. “O amor e carinho sempre serão necessários, especialmente quando se depararem com novas descobertas e angústias. Por isso, nos tornamos ainda mais amigas.”


Link original: https://www.jj.com.br/estilo/maes-estao-em-um-eterno-aprendizado-com-seus-filhos/
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