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Por que esquecemos?

| 18/05/2014 | 00:05

Certamente cada leitor que me acompanha neste momento já experimentou em diferentes situações da vida o fenômeno do esquecimento. A experiência de esquecer traz sempre um estranhamento, um não entendimento da situação. Não importa o que nos fugiu da memória: um nome próprio, um endereço, um objeto, um compromisso… A sensação será sempre a de que algo falhou, de que perdemos o controle.

Quando alguns destes esquecimentos nos intrigam com muita intensidade, costumamos travar uma briga com nossa memória, mas na maioria das vezes o que acontece é que outros nomes ou palavras acabam surgindo em nossa mente e acabamos desistindo da busca. Mas qual o interesse da psicanálise em algo tão simples e comum na vida das pessoas?

Em 1905, Freud escreveu um trabalho onde tratou justamente destes aspectos rotineiros que ocorrem na vida de todo e qualquer ser humano. Este texto tem como título “A Psicopatologia da Vida Cotidiana” e nele Freud descreve várias das situações simples e comuns a todos nós, afirmando que através delas podemos ter acesso e um maior entendimento de nossa vida mental.

A partir daí, esses fenômenos passaram a receber a atenção de todos os psicanalistas, pois passaram a ser vistos como uma forma de comunicação de nosso inconsciente. Daí a sensação de estranhamento que experimentamos quando tentamos entender um esquecimento a partir da razão, do consciente. Muitas vezes, quando esquecemos, ficamos com a sensação de que fizemos algo errado, de que falhamos e, dependendo do que ou de quem esquecemos, experimentamos um sentimento terrível de culpa. Neste momento o leitor poderá se surpreender e dizer:

“Mas por que nosso inconsciente se manifestaria de uma maneira que nos causa incômodo, nos faz sofrer, ou mesmo nos traz prejuízos?” Pensemos então nas várias vezes em que muitos de nós esquecemos um compromisso e, após dar-nos conta da situação, concluímos: “Acho que no fundo eu realmente não queria ir mesmo!” Esta situação que aparentemente parecia trazer algum prejuízo resultou estar a serviço de um desejo que não pôde se manifestar de outra forma que não fosse pelo esquecimento.

Assim, em uma investigação mais atenta poderemos localizar a causa do esquecimento e geralmente chegaremos aos temas mais remotos e íntimos da vida de uma pessoa. Esta é também a explicação para o esquecimento dos fatos de nossa infância. A amnésia infantil, que recobre os primeiros anos de vida e que também é tratada como algo comum, resultado da imaturidade da vida mental da criança, é, na verdade, o resultado da intensidade das experiências e vivências deste período.

E é por isso que quando investigadas em um trabalho de análise podemos verificar que se trata de experiências que deixaram traços profundos e que seguem influenciando o sujeito em seu presente e seu futuro. Portanto, o esquecer e o recordar não são funções do aparelho mental que acessamos com um “click”, pois não temos aí o controle que julgávamos ter.

Um “simples” esquecimento, assim como uma troca de palavras na escrita ou na fala, ou mesmo um sonho, terá sempre um “algo a mais”, um outro sentido, o qual muitas vezes só poderá ser descoberto e entendido em um trabalho de investigação dentro de um tratamento psicanalítico.

EDILAINE BRONZERI PUGLIESE. Membro fundador do TRIEP – Trabalhos de Investigação e Estudos em Psicanálise (www.triep.com.br). Contato:secretaria@triep.com.br.


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