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Semente antibullying

| 08/06/2014 | 00:05

A Companhia Teatral Educativa apresentou no mês de maio, no Teatro Polytheama, uma peça com o título desta crônica.
Com excelente elenco, o drama foi se desenvolvendo, ora como proposta pedagógica, ora como tema para reflexão.

O autor do livro Semente Antibullying  é Nelson Albissu; a adaptação para teatro é da atriz jundiaiense Persília Mattenhauer.
O enredo descreve os apuros vividos por um rapaz, recém-chegado do interior do estado, para estudar em colégio frequentado por jovens de famílias ricas da capital.

O jovem foi contemplado com uma bolsa de estudos e se destaca pela atenção às aulas e boas notas. Os novos colegas começam de uma forma velada a perseguirem o “caipira”. Quando podem, fazem-lhe agressões físicas e verbais, sempre negando essas ações perante a diretora.

Paralelamente, aparece a vida familiar do “chefe” das agressões. Tem família desestruturada, embora rica e poderosa. O rapaz tem o mimo exagerado da mãe, mulher da alta sociedade; e sente a ausência do pai, empresário bem sucedido. O autor mostrou a necessidade que o rapaz tinha de  sobressair e de parecer forte perante os colegas.

O espetáculo apresentou a angústia vivida pela vítima e a ansiedade do agressor, na ânsia de se tornar admirado e valorizado.
Os atores foram aplaudidos de pé. Pena que na plateia havia poucas pessoas! Esperamos que a companhia teatral leve a peça às escolas para que alunos e professores reflitam sobre o assunto e comecem a enxergar o bullying nas ações camufladas e dissimuladas.

Acabo de ler o livro “A filha que o rei não quis”, de Walter Brunelli. Descreve a trajetória da menina Sandra, filha renegada pelo Pelé. Ela conta que sofreu perseguição por parte de uma colega, quando esta soube quem era seu pai. Deboches que a feriram emocionalmente e deixaram-lhe marcas indeléveis.
O que os agressores, verbais ou físicos, ganham ao menosprezar os outros? Autoafirmação? O prazer de destruir?

A revista Veja, do mês de maio, trouxe uma reportagem sobre Mike Tyson. Hoje, o ex-pugilista está muito diferente, conseguindo analisar porque se tornou tão agressivo. Conta que em sua infância pobre no bairro Brownsville, em Nova York, sofreu  bullying.

“Isso ajuda a explicar o tipo de pessoa agressiva que me tornei, eu queria garantir que nunca mais aquilo se repetiria”, disse ele.
Bullying é um termo da língua inglesa – bully, valentão – e se refere às atitudes agressivas verbais ou físicas, com o objetivo de intimidar o outro. Pode ser direto, mais comum entre os homens; indireto, mais comum entre as mulheres, crianças e jovens. Pode ocorrer em qualquer ambiente em que as pessoas interajam e possam suscitar inveja.

Geralmente, quando há testemunha, esta silencia para não se tornar o próximo alvo do valentão(ona). Prefere fingir que não percebeu.
A peça “Semente Antibullying” da Companhia Teatral Educativa é esclarecedora e muito importante; deveria ser vista por muitos para maior reflexão sobre o assunto. Talvez possamos evitar jovens agressivos, como Mike Tyson, ou pessoas que morreram prematuramente, como a Sandra Arantes do Nascimento. Ao terminar este artigo, tive a notícia de que, no dia 24 de maio, uma jovem que trabalhava em firma de Jundiaí e residia em Francisco Morato pôs fim à vida, enforcando-se.

No vídeo que gravou, deixou clara a ideia que sofria bullying.
Não estaremos sendo omissos, deixando passar ações dissimuladas, achando que são só brincadeiras?

JÚLIA FERNANDES HEIMANN é poetisa e escritora. Pertence às entidades literárias de Jundiaí.  Autora de oito livros.


Link original: https://www.jj.com.br/estilo/semente-antibullying/
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