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Sobre a amizade

| 15/06/2014 | 00:05

“O amigo é um outro si mesmo e nos proporciona o que nós não podemos obter de nós mesmos.” (Ética, Aristóteles).

Com tal asserção, se recorrermos ao texto aristotélico, perceberemos que Aristóteles afirma a amizade como uma virtude e a define com base na reciprocidade, no respeito e na confiança. Por não ser um fenômeno recente, a amizade já se configurou e se manifestou de diferentes formas.

Desde a antiguidade, ela podia ser definida como um laço que unia as virtudes entre duas pessoas, mas também havia amizades fundadas em interesses ou na possibilidade de algum usufruto, o que Aristóteles chamava de “amizades políticas”.

Em nossos dias temos amizades “estendidas, amizades virtuais”: falamos em grupos de “amigos” em comunidades virtuais que compartilham um mesmo gosto, uma mesma reivindicação, um mesmo desgosto… Há aqueles que “seguimos” em seu dia-a-dia e em suas opiniões, a um click, e deles também nos dizemos amigos. Há amigos de amigos que também são acrescentados, ou melhor, adicionados à lista de amigos nas páginas pessoais.

Quanto mais amigos, melhor! E para cada um, isto vai se estabelecer como um indicativo: o mais popular, o mais querido, o mais articulado… Enfim, há uma infinidade de maneiras de se vincular e chamar de amigo. São novas definições, mas fato é que a amizade sempre representou e representa uma necessidade humana de estar com o outro.

Freud pensou também sobre este tema e analisou suas amizades e inimizades em períodos que considerava significativos. Para ele, “um amigo íntimo e um inimigo odiado sempre foram requisitos necessários de sua vida emocional”.  E em outro momento, acrescentou que, tanto o amigo íntimo quanto o inimigo odiado se reuniam na mesma pessoa…

O que é este sentimento que, por um motivo ou outro, aproxima as pessoas e as faz se tornarem amigas? A amizade é um substituto do amor.  Se no amor “prometemos ao outro aquilo que não possuímos e dele esperamos o que ele não possui” (J. Lacan), na amizade, amamos o amigo pelo que ele é, e não pelo que ele não tem, e exigindo que nos ofereça…

Desse modo, o laço de amizade se faz de uma presença possível, e não de uma expectativa de preenchimento. Nesse sentido, o que há na amizade é sua exigência de reciprocidade, de correspondência. Danièle Brun (psicanalista) comenta que esta exigência de reciprocidade em relação à amizade é o que a diferencia do amor.

Afinal, podemos amar sem sermos amados, mas “não há como ser amigo de alguém que se recusa a sê-lo”. A amizade também exige investimento no outro e é uma exigência da vida psíquica.  Fora do círculo familiar, vamos buscar outros vínculos, estabelecer relações em que se possam partilhar problemas e, em alguns momentos, até mesmo a solidão; vamos fazer outras escolhas, inventar um mundo novo, apesar dos percalços, traições e decepções que elas possam acarretar.

A exigência de reciprocidade na amizade é, em outras palavras, uma tentativa de, ilusoriamente, nos garantir de que o amor investido não estará de novo perdido ou que, pelo menos, possa ser reencontrado/reinvestido, num outro laço, num novo amigo. Assim, a amizade é um vínculo complexo e sofisticado, e é própria de seres humanos com capacidade de empatia e personalidade equilibrada.

Os psicopatas, os perversos, os insuficientemente maduros não sabem sustentar uma amizade verdadeira. Ou seja, amigo, mas amigo mesmo, tem a ver com qualidade e nada a ver com quantidade.

LEILA CRISTINA DOS SANTOS VERATTI é psicóloga (06/67927), psicanalista pelo TRIEP e membro do TRIEP – Trabalhos de Investigação e Estudos em Psicanálise. Contato: secretaria@triep.com.br ou (11)4521-6075.


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