Jornal de Jundiaí | https://www.jj.com.br

Submissão

| 29/06/2014 | 00:00

Carrego em mim uma ânsia de clarear situações e caminhos das pessoas que se encontram em dificuldade. Isso não vem de agora. Dos 13 aos 15 anos, fui voluntária em orfanato. Ajudava as meninas nos deveres escolares. Acreditava que, se superassem os limites para a leitura e a escrita e decifrassem os problemas, conquistariam o mundo.

A política para o menor, na época, diferenciava-se. Criadas em grupo, as normas de obediência eram rígidas, prevenindo-se “convulsões”.  Diversas delas – não todas -, quando adotadas, serviam de babás ou domésticas, mão-de-obra barata para a família que as levava.

A comunidade aplaudia o ato meritório de tirar uma menor da orfandade, contudo, nas entranhas do acontecimento, a menina prosseguia em atmosfera cinza, oprimida pelos afazeres do lar. Poderia até dormir no quarto da filha de idade semelhante à sua, porém, ao amanhecer, se colocava o colchão atrás da porta, para não interferir no local.

Muitas, na despedida da entidade, aos 18 anos, e as em fuga das casas das “famílias beneméritas” – cansadas de servidão -, enroscaram-se nas malhas do comércio do sexo. Reencontrei-as nas ruas escuras, cheirando álcool e sedentas de respeito, um respeito que não aprenderam a se dar.


Link original: https://www.jj.com.br/estilo/submissao/
Desenvolvido por CIJUN