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Pierre Cardin construiu o futuro com a moda

Estilista francês reflete sobre a fuga do facismo e sobre a carreira


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Modelos vestem os óculos espaciais criados pelo estilista Pierre Cardin na década de 1960
Crédito: Divulgação

Pierre Cardin, de 98 anos, é o estilista francês que primeiro democratizou a moda fina e desenvolveu seu nome como marca. Um documentário sobre sua vida, “House of Cardin”, será lançado em breve.
O soldado alemão olhou para os meus documentos. Depois olhou para mim e de novo para os documentos. Ele ordenou que eu subisse em um caminhão preto. Passei 24 horas sentado lá, chorando. Estava morrendo de medo.

Foi em junho de 1940, pouco depois da invasão alemã à França. Tinha 17 anos e viajava a Paris para procurar trabalho como alfaiate. Em um posto de controle alemão, o soldado achou que meus documentos eram falsificados.

No dia seguinte eles me soltaram. Corri tanto, ao sair de lá, que quase voei. Depois daquela experiência, eu só tinha uma ambição —fazer sucesso.

Nasci em San Biagio di Callalta, na Itália, cerca de meia hora ao norte de Veneza. Meu nome italiano de batismo era Pietro Cardin, pronunciado “Cardin” e não “Cardã”, e fui o último de nove filhos.

Antes da Primeira Guerra Mundial, meus pais eram proprietários de terras prósperas. Eram comerciantes de vinho e tinham vinhedos e armazéns de gelo que forneciam gelo às pessoas da aldeia.

A guerra foi traumática e prejudicou os negócios. Depois veio o fascismo, no começo da década de 1920. Meus pais não queriam nos criar lá.

Em 1924, eu tinha dois anos e meio, nos mudamos para a
França, para escapar. Primeiro moramos em Firminy, cerca de uma hora a sudoeste de Lyon. Quando eu tinha sete anos, nos mudamos para Saint Étienne, uma cidade maior a 20 minutos de distância.

Lá, alugamos uma casa isolada, com um jardim e um pomar nos fundos. Meu pai não conseguia encontrar emprego e tinha de usar o dinheiro que trouxemos da Itália para alimentar a família.

O que mais me lembro sobre nossa casa eram as frutas que cresciam do lado de fora. Quando respiro fundo, ainda consigo me lembrar do cheiro das macieiras e pereiras.

Poucos anos depois, fiz muita amizade com uma menina da minha idade, chamada Janine, que morava lá perto. Um dia, desenhei uma coleção de vestidos para suas bonecas, e os costurei com o material branco usado em roupas de balé. Meu pai não ficou feliz com minha nova paixão. Dizia que fazer vestidos não era trabalho para meninos.

Meus pais eram pessoas já mais velhas. Minha mãe tinha 46 anos, e meu pai, 58, quando nasci. Eles me deram uma boa educação, mas em geral não interferiam muito comigo, e pude fazer o que queria.

Fui criado com bons modos, mas era solitário. Passava boa parte do meu tempo criando modelos. Além da moda, eu amava arquitetura e teatro, que permitem que você seja sentimental. Na moda, isso não é possível.

Aos 17 anos, comecei a fazer um curso noturno de contabilidade, em vez de ir aos bailes locais. Depois me mudei para Vichy, onde me tornei cortador numa alfaiataria e aprendiz da Manby, uma alfaiataria masculina.

Depois do risco de morte que enfrentei no posto de vigilância alemão, comecei a trabalhar como contador para a Cruz Vermelha, em Vichy.

Um dia, depois da libertação da França, em 1944, eu estava num café com uma amiga que também trabalhava para a Cruz Vermelha. Eu disse a ela que queria trabalhar em Paris, na Paquin, a mais importante casa de alta costura da França até então. Minha amiga conhecia o senhor Waltener, que era próximo de todos no mundo da moda. Ele me apresentou a Paquin, e fui contratado como costureiro.

Na Paquin, conheci o diretor de cinema Jean Cocteau e o estilista Christian Bérard e os ajudei com os figurinos e as máscaras para o filme “A Bela e a Fera”, de 1946.

No ano seguinte, me transferi para a casa de Christian Dior, onde me tornei o primeiro empregado, e o ajudei a desenvolver o agora famoso New Look, em 1947. Eram modelos que celebravam a feminilidade elegante.

Em 1950, abri meu ateliê de moda e apresentei minha primeira coleção em 1954. Dior me mandou 144 rosas. Fiz meu primeiro desfile de moda masculina em 1960. A moda masculina era tão nova que tive de recorrer às universidades de Paris para encontrar estudantes dispostos a trabalhar como modelos.

Hoje vivo em Paris, em uma casa de quatro andares perto do Élysée. É uma boa vida.

Como no dia em que desci do caminhão alemão, estou correndo desde então. Mesmo agora, não olho para trás.


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