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A arte, instrumento de visibilidade social

O espaço de expressão se dá a partir da ideia de que não existe revolução sem autoestima, ou seja, não podemos mudar essa realidade tangenciada pelo racismo se o negro não é visto ou representado


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Em suas inúmeras modalidades, a arte tem sido um meio de manifestação política e social para o movimento negro. Melodias que desmistificam as religiões africanas, pinturas que denunciam a hiperssexualização da mulher negra ou mesmo produções literárias que trazem à tona a temática racista que por séculos ficou velada nas entrelinhas.

Mas seria a arte um instrumento de visibilidade ou um espaço de expressão? Ambos! É o que afirma o psicólogo Luiz Henrique Lourenço Santos das Dores. “Pensando no racismo, temos a arte como um instrumento de visibilidade por pautar assuntos que não são discutidos, como intolerância religiosa e outros assuntos que devem ser abordados. Afinal, o que caracteriza o racismo é o quanto ele NÃO é dito. Já o espaço de expressão se dá a partir da ideia de que não existe revolução sem autoestima, ou seja, não podemos mudar essa realidade tangenciada pelo racismo se o negro não é visto ou representado, compreende?” reflete, ressaltando que o racismo é uma violência que cada pessoa vive de uma maneira subjetiva e que isso pode ser representado de diversas formas quando falamos de arte.

No início de sua carreira, a cantora Marina Afarez, de 25 anos, diz que se sente representada pela mídia, mas que nem sempre foi assim. “Hoje eu me vejo em artistas como Anelis Assunção, Solange, Kerry James Marshall, Rai Dama e outros nomes, mas há 10 ou 15 anos, não era assim. Isso só foi possível devido à mudança significativa na produção de conteúdo que circula pelas redes sociais e outros meios de comunicação de forma geral, uma vez que o acesso à tecnologia por pessoas pretas que partilham de trajetórias parecidas com a nossa, ou falam sobre assuntos em comum se tornou mais frequente nas redes sociais”, compartilha.

Para ela, a arte também é sinônimo de comprometimento com a própria identidade. “No contexto da negritude diaspórica, precisamos compreender que fomos usurpados e, por isso, não somos um povo originalmente ocidental. Isso significa que fomos forçados violentamente a abandonar tudo que diz respeito a nossa identidade, e com ela, nossos saberes, histórias e linguagens”, explica, valendo-se de que as tradições do passado acabam refletindo na produção contemporânea.

“Temos o Jongo, que mescla dança, música e improvisação. No entanto, essa linguagem artística não se resume ao bel-prazer de dançar, a arte da diáspora sempre teve a função de comunicar, de proteger e perpetuar saberes que não poderiam ser ditos livremente por conta da censura violenta de senhores brancos e seus capatazes. Eu uso a arte como veículo daquilo que quero comunicar e perpetuar igualmente, a música é minha linguagem de preservação histórica e aquilombamento”, reitera.

Maria Lúcia da Silva, fundadora do Instituto Amma Psique e Negritude, organização não governamental dedicada ao enfrentamento político e psíquico do racismo, explica que, mais do que gerar representatividade, a arte é um meio de abordar possíveis elaborações de memórias evocadas. “Penso que o fazer artístico é importante para todas as pessoas, possivelmente para ativistas dos Movimentos Negros e grupos excluídos, podemos pensar que a arte engajada como um grande instrumento mobilizador de sentimentos, emoções e memórias”, pontua.

Quem compartilha desse pensamento é o cantor Biel Lima, de 33 anos, que vê a arte como uma ferramenta essencial para a luta contra a opressão. “A denúncia através da arte geralmente é carregada de uma leveza muito necessária, afinal encarar a realidade muitas vezes é algo pesado para nós. Neste contexto, a arte se torna um dos principais meios de acalanto, representatividade e disseminação de informação. Vejo isso na minha própria prática artística como cantor e produtor cultural”, compartilha.

Lima aborda ainda a dificuldade em quebrar os padrões da cultura de massa a qual muitos acabam se submetendo. “Infelizmente existe uma boa parcela da população artística independente que cria suas obras com base no que a indústria mainstream está produzindo e, muitas vezes, é um produto hiperssexualizado e vazio de relevância no que diz respeito a impacto transformador para muitas questões sociais. Eu acredito que a arte tem o papel importante de transformar, e eu me sinto como um agente dessa transformação sendo um artista preto e gay”, reforça, valendo-se da importância da arte para outros movimentos sociais, como o feminismo e a comunidade LGBTQIA+.


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