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Da sapatilha à pele: bailarinos pretos lutam por um espaço no palco

Movimento internacional quer mostrar que uma menina negra pode ser a primeira-bailarina de qualquer Cia. de balé tradicional


Tiago Queiroz
TQ SÃO PAULO 29.11.2018 CAPITU / FEMINISMO / FOCAS ESPECIAL EXCLUSIVO EMBARGADO Matéria sobre bailarinas negras e os obstáculos de ser uma profissional de uma dança estilizada. Ensaio do Ballet Paraisópolis. FOTO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
Crédito: Tiago Queiroz

Um jovem de 14 anos, negro, nascido em Niterói, município do Rio de Janeiro, que encontrou em Ana Botafogo, a primeira-bailarina do Teatro Municipal do RJ, a certeza do que queria para seu futuro profissional.

Antes de aperfeiçoar seu ‘andeor’ e treinar sua técnica, condições básicas para um bom bailarino, Fábio Mariano precisava do aval da mãe, uma empregada doméstica e do pai, um vendedor de cortina – atualmente, aposentados. “Quando eu percebi que eles não só me autorizaram, como me deram apoio, todo o resto perdeu a importância. A mim só restou, fechar os olhos, colocar as sapatilhas e sair dançando”, declara.

Mas entre um ‘adágio’ e um ´fouette´, Fábio Mariano acabou reprovado em algumas audições. Em comum, todas as companhias de dança que baixaram as cortinas para o jovem preto da zona sul do Rio tinham no comando diretores tradicionais. “Foi então que, um amigo, mais ‘escuro’ do que eu, disse que estava abandonando a dança, pois não achava justo ser preterido entre outros candidatos por ser preto. Naquele momento, meus olhos se abriram para uma realidade que, talvez, eu nem quisesse enxergar”, lamenta.

Mariano é um ponto fora da curva ou um ‘gran jetê’ que fez brilhar os olhos de algumas bancas examinadoras o levando a compor a Cia. Jovem de Ballet do Rio de Janeiro e a Escola de Dança do Teatro Municipal do Rio, a primeira a ser criada no Brasil.

Mas nem sempre é assim. Independente do talento, da vocação, das habilidades físicas, uma bailarina não pode sonhar com o mais alto posto da maior companhia de dança clássica do seu país por causa da sua pele preta. Qual é o nome disso?

Muitas vezes camuflados por outras denominações, a ausência de bailarinas negras nos altos postos das grandes companhias de dança nada mais é do que racismo, preconceito, discriminação.

Há pouco mais de um ano, The New York Times fez uma pesquisa sobre companhias dos cinco continentes e constatou não existir uma única primeira-bailarina preta nas grandes companhias ao redor do mundo.

“Muitas vezes, após ter sido reprovado em uma audição, embora tivesse ficado feliz pelo êxito de um colega dançarino, não o considerava tecnicamente inferior a ele. Hoje, tenho a certeza de que ele foi preterido por ser preto”, lamenta.

Para Mariano, não há justificativa para este cenário que perdura, pois todas podem ser facilmente refutadas. “Não importa quantas barreiras serão transportadas para um menino preto tornar-se bailarino clássico profissional. Ainda que chegue ao topo, alguém sempre lhe dirá, ainda que indiretamente, para você tentar o balé moderno ou contemporâneo”, relata.

O jovem que saiu de Niterói com o sonho de se tornar bailarino clássico teve disciplina, persistência e foco. O resultado o levou aos Estados Unidos, onde fixou residência há quatro anos e atua como profissional na Collage Dance Collective, no Memphis.

Aos bailarinos pretos que repetem os ‘pliês’ e ‘developês’ à exaustão em busca da perfeição, Mariano lembra que o racismo está lá escondido na cochia ainda. “Nunca será o primeiro caso, nem o último, mas eu costumo dizer que torna o bailarino mais forte e que, em um futuro, não tão distante, teremos mais exemplos de pretos despontando na dança clássica”, afirma.

Blacks in Ballet
A luta por mais espaço no balé clássico fez crescer em Mariano o desejo de enegrecer o universo deste estilo de dança. Ou melhor, tornar visível uma potência preta de bailarinos negros já presentes.

O Blacks in Ballet (BIB) inaugura esse ideal como uma primeira plataforma de luta antirracista para os pretos que dançam balé clássico pelo Brasil e mundo afora. Idealizado em março deste ano, o BIB é um projeto fundado por três bailarinos brasileiros negros e hoje já soma mais de 8.000 seguidores na conta no Instagram.

Além de Fábio Mariano, Ruan Galdino, solista sênior do Joburg Ballet, em Joanesburgo (África do Sul) e Ingrid Silva, primeira-bailarina do Dance Theatre of Harlem, em Nova Iorque (EUA); tiveram a ideia da plataforma movida pelo sentimento de perceber um buraco onde seria necessário desmitificar a ideia da presença de negros no balé.

“Uma das minhas principais inquietações no mundo do balé como negro é o fato de que a presença de corpos negros em companhias no mundo ainda é muito pequena. Comparado à quantidade de bailarinos profissionais existentes. É como se eles existissem e eles não são contratados”.

A plataforma vem crescendo bastante nas redes sociais durante esses meses, principalmente no Instagram.

Juntos, Mariano e os outros co-fundadores alimentam o perfil com conteúdo sobre a trajetória de diversos bailarinos pretos que marcaram história no balé ao redor do mundo. Além disso, há um grupo no whatsapp com mais de 40 bailarinos que dançam profissionalmente no Brasil e em companhias de balé afora.

“Um dos principais objetivos têm sido uma plataforma que educa porque é uma educação antirracista para quebrar os paradigmas e os tabus de um corpo negro no balé. Então, educa e mostra as pessoas que o corpo negro também é belo para fazer balé”, acrescenta Mariano.

Ainda há um longo caminho para o racismo acabar. Para isso, é necessário um trabalho conjunto, de educação e de reconhecimento de privilégios que não deveriam existir. O protagonismo desse espetáculo sempre será das pessoas negras, mas a responsabilidade é de todos. Para que nunca mais uma menina negra ouça que não pode ser primeira-bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro pelo simples fato de ser quem é.


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