Hype

O resgate da autoestima por meio da representatividade

Com bonecas negras confeccionadas artesanalmente, empresárias buscam formar crianças e adultos sem racismo


Divulgação
Jaciana Melquiades criou o projeto "Era uma vez o Mundo"
Crédito: Divulgação

Fazer de um sonho de criança um negócio próprio está no imaginário de muitas pessoas, mas quando isto significa transformar a magia em um ideal maior, para transformar vidas, o negócio fica mais lucrativo ainda. Duas histórias, duas realidades, três personagens que merecem ser contadas e compartilhadas.

Os questionamentos da empresária Jaciana Melquiades, de 36 anos, quando criança era porque não havia bonecas parecidas com ela. Negras, de cabelos enrolados, com tranças, ou até com roupas diferentes. Questionamentos que perpetuaram até a adolescência quando decidiu criar sua própria boneca. Nascia ali um projeto que mudaria a vida de muitas outras crianças.

O sonho deu tão certo que agora ela é referência quando o assunto é representatividade. “Os bonecos e bonecas negras criam uma referência, um espelho positivo para a criança. Se vir representado na sociedade é fundamental para todas as crianças, mas os brinquedos ainda ajudam a gente a aprender a se relacionar com o outro”, comenta Jaciana, mestre em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

As bonecas de pano, ainda confeccionadas artesanalmente, se tornaram mais que uma forma de referência. Hoje, elas são o ganho-pão de muitas famílias. A maioria, aliás, de comunidades do Rio de Janeiro, em especial mulheres negras e trans, que há muito tempo estão fora do mercado de trabalho. “Todo nosso processo é artesanal, mas já conseguimos ampliar a fabricação por conta do modelo de negócios que desenvolvemos. As voluntárias se especializaram em partes da boneca e o processo de finalização acontece em nosso atelier”, comenta ao lembrar que as pessoas encontraram uma colocação no mercado.

Primeiros passos
As primeiras criações dos bonecos e das bonecas negras, dentro do projeto ‘Era uma vez o Mundo’, começou em 2013. A receptividade por parte de crianças e adultos foi tamanha que hoje, mesmo que ainda de forma artesanal, se tornou uma linha de produção. A capacidade de produção passou de 100 peças mensais para mil e, mesmo ganhando visibilidade em outros estados, não fez com que o grupo perdesse a essência. “Meu foco são as lojas educativas que valorizam a história dos produtos. O mais importante é continuar integrando o brinquedo para a construção da cidadania”, diz Jaciana.

O ‘Era uma vez o Mundo’ é visto como uma empresa de impacto social ancorado em três pilares. O primeiro é na venda de brinquedos representativos, bonecas e livros de pano. O segundo na educação com oficinas de formação para professores e criança da educação infantil e fundamental. E, por último, as palestras com conteúdos sobre questões raciais.

“O perfil de nosso público é de pessoas conectadas com a discussão antirracista. Pessoas negras e brancas, pensando na formação de crianças para um futuro sem racismo. As bonecas, por exemplo, são personalizadas. Temos a Dandara, que pode ter roupas escolhidas pelas pessoas ou uma linha personalizável, que em breve estará no site, mas que segue completamente as definições do cliente, desde tom de pele, roupa e cabelo”, comenta ela ao lembrar que a Dandara é a representatividade física de seu sonho.

Em mais prateleiras
Apesar do esforço de Jaciana e de tantas outras Ongs ou movimentos para que o negro seja inserido na sociedade com mais representatividade, a realidade está longe do ideal. Um levantamento de 2018 realizado pela ‘Cadê nossa boneca?’, campanha da Ong Avante sobre padrões estéticos e representatividade na infância, mostrou que os modelos de bonecas negras representam apenas 7% do total. Dos 762 tipos analisados, 53 eram negras.

E foi justamente pensando nesta diferença e na falta de opções no mercado que mãe e filha resolveram arregaçar as mangas e começar a ‘costurar’ bonecas negras. Há pouco mais de três meses, Maria Menezes se juntou à mãe, Elazimar Menezes, e juntas e criaram a Abayomi Menezes.

Maria conta que elas sempre tiveram o sonho de abrir um negócio voltado para a representatividade negra e a quarentena imposta pela pandemia do coronavírus antecipou a realização desse sonho. Foi um misto de desejo e de necessidade. Ela explica que apalavra abayomi tem origem iorubá, e costuma ser uma boneca negra, significado aquele que traz felicidade ou alegria. O nome serve para meninos e meninas, indistintamente.

“Sou cantora de samba do Grupo Arruda há 10 anos e praticamente 100% da minha renda vem dos shows presenciais. Minha mãe é bibliotecária, mas sempre foi apaixonada por artesanato. Numa forma de reinvenção e aproveitamento da disponibilidade de tempo, resolvemos pôr em prática o nosso negócio. O nome tem a ver com a história do significado da palavra Abayomi e o Menezes por ser o nosso sobrenome”, conta ao justificar no nome da grife de bonecas.

Desde o início dos trabalhos, pelo menos 70 bonecas já foram vendidas no Rio de Janeiro e em outros estados do Brasil. Encomendas também começaram a chegar da Angola e da Noruega. “Por enquanto somos só nós duas, mas a demanda está crescendo e a ideia é prepararmos mais mulheres para trabalharem conosco. O nosso objetivo é somar forças junto a outros empreendedores negros que entendem a importância da representatividade negra no processo da construção da autoestima da criança por meio dos brinquedos”, antecipa.

O processo de confecção das bonecas e dos bonecos leva de 20 a 30 dias. As medidas, assim como o tipo de cabelo e a cor da roupa é feita pelo cliente, assim fica mais evidente a representatividade. “Nós não nomeamos as bonecas, deixamos nossos clientes à vontade para escolherem os nomes. Estamos muito felizes e satisfeitas com o resultado do nosso trabalho porque é a realização de um sonho que, por meio das bonecas, costuramos uma mensagem de amor, afeto e negritude”, diz Maria Menezes.

A Ong Avante mantém uma página no Facebook justamente para reunir profissionais do país que confeccionam bonecas. É uma maneira de divulgar as ‘bonequeiras’ para fortalecer e dar mais visibilidade ao trabalho delas.

O projeto Cadê nossa boneca? é uma iniciativa da ONG Avante e não está ligado a nenhuma empresa do segmento de brinquedos e não tem fins lucrativos. A Avante – Educação e Mobilização Social é uma associação que tem por missão contribuir para a formação do cidadão, pela educação e o desenvolvimento de tecnologias de intervenção social, visando a garantia dos direitos sociais básicos da criança e do adolescente.

Onde encontrar
Abayomi Menezes: Instagram
ONG Avante: Facebook
Era uma vez o mundo: Site


Notícias relevantes: