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Cris Guerra desmistifica a mulher de 50

Corpo de 15, vitalidade em dia, como chegar aos 50 e ter espírito para agregar sabedoria e luta por espaço?


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Cris Guerra
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Aos 50, a gente pode tudo? Pode, mas será que queremos? Com maturidade, resiliência, paciência e visão como um todo, a mulher de 50 vem para conquistar e se estabelecer em um local que já é dela, mas que nem o mercado consumidor descobriu nem mesmo os homens. Nesta entrevista exclusiva à Hype, a publicitária e escritora Cris Guerra fala como é ter 50 anos, ser linda, assumir os grisalhos e ainda trabalhar para que as mulheres tenham seu espaço, em qualquer fase da vida. Sai a competição e entra a sororidade para a longa jornada!

Há um estigma cultural no Brasil, em que a mulher aos 50 anos se torna invisível, apesar da sua renda maior, independência. Por que ainda sofremos com isso?

Não sou nenhuma teórica do assunto, sou uma observadora, procuro traduzir a experiência humana. Mas acho que isso tem a ver, antes e mais nada, com a cultura machista na qual ainda vivemos há séculos.

Para você, que veio do mundo da moda, (até hoje não conseguimos comprar roupas na pós-menopausa rss no Brasil) quando a indústria vai olhar por nós?

Acho que já passou da hora de a moda olhar para essa mulher. Se não o fizer, estará insistindo num equívoco e perdendo mais mercado. O mercado de moda tem sofrido muito nos últimos tempos, tem sido muito questionado em vários aspectos. Olhar para as mulheres maduras pode ser uma das estratégias de mudança.

Na questão da saúde, é pior. Além da mamografia exigida, poucos se interessam pela sexualidade na terceira idade. De repente, aos 50, deixamos de ter libido?

Qual o processo para desmistificar esta necessidade? Acho que as mulheres de 50 não compõem um bloco homogêneo. Continuamos sendo indivíduos únicos, com nossas características particulares. Muitas de nós têm vida sexual ativa, muitas não. Importar-se com a libido é uma escolha de cada uma de nós e uma busca pessoal – do ponto de vista da saúde mesmo. Sinceramente eu não sei o que precisa ser feito para desmitificar isso. Talvez a melhor coisa a fazer seja… sexo! Mas pra isso precisa ter tesão e vontade. Para algumas pessoas o sexo deixa de ser importante e esse também é um direito, concorda? É algo muito íntimo e particular. Eu não acredito que isso precise ser uma bandeira. Acho que essa desmitificação virá, em decorrência das anteriores. Talvez o mais importante seja cuidar para derrubar o mito da beleza sempre associada à juventude. As mulheres que estão assumindo seus grisalhos estão dando um passo nessa direção, mostrando que é possível ser bonita, sexy e gostosa com o cabelo branco, tanto quanto um homem fica mais “charmoso” nessa fase. Eu me sinto feliz por estar ajudando a puxar essa fila. Mas não pra instaurar outro padrão, e sim porque acho bonito mesmo. E pronto.

Aos 50, cabeça de 15, como você diz, podemos tudo, não é mesmo? Como é envelhecer acolhendo a menina num corpo que funciona, mas pode doer rsss...

Eu acho que aos 50 a gente pode muita coisa, mas não pode mais muitas outras. O segredo é compreender que o mais importante é o espírito jovem, ou talvez a gente deva dizer “espírito cheio de vida”. Eu prefiro trocar a palavra juventude por vitalidade. Envelhecer não significa se tornar incapaz, mas, sejamos honestos, também não é continuar podendo fazer tudo. O tempo nos traz muitas vantagens, no sentido do amadurecimento (o que não é óbvio nem obrigatório, e sim uma conquista de cada um), uma certa serenidade, um humor mais apurado, aquela calma que só a vivência traz. A gente passa a fazer escolhas mais apuradas, porque o tempo se torna mais escasso e temos consciência disso. O corpo dói, mas a gente ri disso. A gente vai para o pilates e fica de cabeça pra baixo e acha divertido. A gente passa a levar a vida menos a sério, no melhor sentido da expressão.

Qual o tamanho do mercado para a mulher de 50?

O mercado composto de mulheres 50 + é enorme e cresce mais a cada dia. O mercado de trabalho para a mulher de 50 é reduzido, por preconceito, mas vai precisar mudar, justamente porque a pirâmide etária está mudando. E porque a mulher de 50 hoje está se transformando, começando uma segunda vida adulta, e não saindo de cena. Ela é resiliente, curiosa, interessada e, portanto, perfeitamente adequada ao conceito de Life Long Learning. Pouco preparada será a empresa que não perceber isso.

As mulheres estão mais corajosas ao admitir sua idade, ao garantir seu espaço de luta (vide Luiza Trajano brigando por seu lugar no conselho de administração), mas o que falta ainda? Aqui lembro que as jovens estão engajadas em lutas feministas, em igualdade no trabalho, em casa. Mas, à mulher de 50 que luta cabe?

Não sei o que falta. Prefiro ver o que temos conquistado, e é muito. Talvez o que falte mesmo seja o diálogo entre homens e mulheres, essa conjunção dos dois lados (que nem deveriam ser lados, e sim uma coisa só). Eu acho que a luta da mulher de 50 é, sim, uma luta feminista, e que bom que estejamos nela hoje, em nome das mulheres que terão 50 amanhã. A visão estigmatizada da mulher de 50 é consequência de uma sociedade machista. São as mesmas lutas, a diferença talvez seja só o tom. A mulher de 50 já aprendeu que seu maior poder não está na agressividade, e sim na inteligência, na sua visão do todo, na sua capacidade de cuidar e ser empática, na sua forma de se comunicar e, principalmente, na sabedoria da sororidade. Na maturidade, fica mais fácil perceber que não precisamos ser iguais aos homens para ter força. Que sequer precisamos ser fortes e autossuficientes para ter força. A gente já sabe pedir ajuda, por exemplo – essa capacidade gregária das mulheres é tão fortalecedora, e talvez seja ela mesmo que deixa os homens em pânico. Esse caminho feminino não tem volta. Tentaram por muitos anos nos jogar umas contra as outras. Isso não vai colar mais.


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