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No resgate do arquétipo feminino, a ligação às deusas-mães

Mitos femininos estão por todo o planeta Terra e seus legados podem trazer novas reflexões à sociedade moderna


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Pachamama
Crédito: Divulgação

Conversar sobre a maternidade sem resgatar o arquétipo feminino nas religiões cristãs e não-cristãs é como é deixar as mulheres, seus medos e anseios sem a proteção divina. A verdade é que as deusas sempre estiveram conectadas ao poder da fertilidade e da fecundidade e, por isso, estavam tão presentes em nossas ancestrais. Mas qual o reflexo dos mitos na vida moderna? Parece que irrelevante, mas são eles que podem nos ajudar na reflexão de conflitos que estão até hoje presentes em nosso dia a dia.

Como afirma o escritor de Deusas: Os Mistérios do Divino Feminino, Joseph Campbell, quando os ritos deixam de ser apreciados pela sociedade, esta adoece.

A primeira aparição que se tem notícias sobre a relação com as deusas, segundo os arqueólogos, foi em Çatal Huyuk, na Turquia, há dez mil anos. A estatueta mostra uma mulher sentada num trono, ladeada por duas panteras, em cujas cabeças ela coloca as mãos, sugere ao mesmo tempo a imagem da mãe e da senhora da natureza e representa um achado arqueológico no qual se aponta que a primeira adoração foi para um arquétipo feminino.

Para o homem neolítico, que caçava e se dedicava a agricultura, há 5 mil anos, a reverência às deusas era intensa, já que era ela que provia a fertilidade, a fecundidade nos campos e a abundância. Bem mais tarde começa a aparecer a divindade masculina, nunca, entretanto, separada da deusa. O arquétipo pai-mãe foi utilizado como a grande força propulsora do universo, a grande emanação do tantra.

Para a psicóloga junguiana e autora do livro “O Legado das Deusas”, Cris Balieiro, no início o Deus era a mãe. “O arquétipo está intrinsicamente ligado à mãe-natureza, pelo corpo que gera, amamenta e sangra, de acordo com as fases da lua. A terra fértil está associada à fecundidade feminina.”

Segundo Cris, o mito da fertilidade e fecundidade da deusa-mãe pode ser encontrado em diversas regiões do planeta. “Temos Maria Slava, no leste europeu, que, segundo a lenda, não permitia que a terra fosse escavada enquanto a mãe (a própria terra) estivesse grávida. Encontramos este mesmo arquétipo na África, no Peru, com Pachamama, e em vários locais. Estes mitos poderosos e femininos trazem outro aspecto, em que o ser humano não é superior às plantas e animais.” A autora afirma ainda que, além das deusas-mãe, havia as deusas-lua, que não eram mães, mas cuidavam dos recém-nascidos, como Ártemis, na Grécia, protetora do parto, da virgindade e das meninas. Os maias também tinham sua referência na proteção ao parto, com a deusa Ixchel, cultuada até hoje na Isla Mujeres, no México.

Para os índios tupis-guaranis, Jaci é a representação da protetora das crianças. No budismo, a emanação feminina de Buda, Tara Verde, é a grande conselheira e compassiva mãe. Ela pode destruir os inimigos com um bater de suas mãos e, pela sua couraça, somente a bondade perpassa. É a divindade conselheira de grandes sábios e lamas.

Cris afirma que, com a chegada do cristianismo e o patriarcado, muito do mito se deslocou para Virgem Maria. É através de Sua adoração que os elementos femininos continuam sendo adorados como a protetora feminina e sua representatividade é intensa para os povos latinos. “Reconheço na sua simbologia e adoração dos fiéis vários elementos das deusas antigas, representados pelo arquétipo de proteção a seus filhos, de intercessão.”

Boas, mas nem tanto
A psicanalista Ana Cláudia Fossen lembra, entretanto, que as deusas mitológicas eram providas, algumas vezes, de ódio e não tinham essa aura de santificação ocidental. “A grande deusa era criadora e, ao mesmo tempo, destruidora.”

O mito feminino cristão, entretanto, está muito centrado na figura de Maria, que é perfeita, sem falhas e que oferece seu próprio filho a Deus. Com o arquétipo feminino concentrado nessa pureza, as mulheres comuns são levadas à culpa. “Existe um exagero, em nossa sociedade, da santificação do papel da mãe, o que provoca a culpa materna. É preciso separar o papel da maternidade e do feminino, pois existe criatividade na mulher, mesmo que não exista o materno, lembrando que essa função de maternagem pode ser exercida por outras pessoas.”

Maternas ou não, a simbologia dos mitos ainda preservados, como Pachamama, nos relembram da nossa conexão com o planeta Terra. Afinal, a Terra é um substantivo feminino.


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