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Dar a luz e a si

O nascimento normal e humanizado é a exceção que algumas mães fazem questão de dar ao filho


Lela Beltrão
Kalu Gonçalves oferecendo o afeto à mãe no momento da amamentação, pós-parto, gesto que faz a diferença
Crédito: Lela Beltrão

Dores. Dores mais fortes. Força. Cansaço. Força até o limite. Choro. Amor. Maternidade. É uma sequência simples, mas que foi mistificada ao longo do tempo e tornou-se temida. Resultado: essa sequência foi cortada ao meio, com um bisturi.

Neste meio cirúrgico, a humanização quer transbordar e sair da curva. Por isso vem ganhando destaque, para que a mulher viva, com amor, o início da experiência de ser mãe. Como pontua a doula e fotógrafa Kalu Gonçalves, que já trabalhou em mais de 760 partos, “a humanização não é só o parto natural em casa, é o cuidado, mesmo se precisar de um fórceps ou uma cesárea. Às vezes é necessário fazer uma cesárea, a tecnologia existe para salvar vidas e a ciência deve sempre ser considerada como base, mas, se for necessária uma intervenção, que seja com respeito à mulher”.

Este conhecimento é fundamental para a escolha das mulheres, mas não raramente é adquirido por conta. Foi o que aconteceu com a própria Kalu. “Engravidei em 2006 e, na época, a humanização do parto estava muito incipiente. A gente tinha grupos on-line de discussão sobre parto e entendi que a fisiologia do parto era desconhecida por várias pessoas. Nesses grupos, estudando, passei a entender que a fisiologia do parto era desrespeitada.”

“Busquei alternativas para o parto humanizado, mas meu médico não ia fazer o parto como eu queria. No processo, eu descobri que eu nem podia querer nada. Estudando o parto e as relações do feminino e do feminismo, percebi que não tinha opções disponíveis, percebi que não conhecia ninguém, entre amigas e família, que teve um parto normal”, conta ela.

Depois de um parto domiciliar normal e tranquilo, que durou 40 minutos, a doula decidiu ajudar outras mulheres a humanizar este momento, assim como ocorreu com ela. “Vi fatores predominantes para um parto natural e entendi que a gente podia resgatar esse processo. A recepção que a gente dá para o bebê é fria, mecânica. Queria que meu filho tivesse outra recepção.”

Para ela, a assistência carinhosa à mãe e ao bebê faz toda a diferença. “As necessidades, tanto da mãe quanto do bebê, são simples, mas o sistema não oferece isso. Decidi oferecer o que eu tive para outras mulheres. As necessidades delas são as mesmas que eu tive, de uma escuta, um abraço. Comecei a ser doula quando meu filho tinha três anos.”

Kalu explica que o parto humanizado, no entanto, não é um retorno ao que as mulheres tinham há décadas, quando davam a luz em casa, com a ajuda de parteiras. “Não é voltar, não é um retorno, até porque, quando as mulheres tinham bebês em casa, elas não tinham opção. O parto em casa, com uma parteira, era a única opção. Essa morte materna e neonatal fez com que a cesárea fosse evidenciada, mas, mesmo que a mãe tenha hoje o filho em casa, é preciso ter uma equipe multidisciplinar e respeitar evidências científicas.”

A doula diz ainda que, “fazer cesárea desnecessariamente, fora do trabalho de parto, virou uma facilidade médica”, adotada muitas vezes por planos de saúde. Por isso, ela alerta sobre o ganho infundado na indústria do nascimento. “Acho que aumentou a quantidade de mulheres dispostas a viver a experiência do parto humanizado, mas também tem equipes e médicos que se vendem como praticantes do parto humanizado e que não fazem nada de humanizado.”

FUGIR DA NORMALIZAÇÃO
O parto cesárea acabou tornando-se algo normal e não exceção. Tido por muitos e muitas como a evolução do parto, por ser mais seguro para a mãe e o bebê, além de poupar as mulheres do desespero da dor cruel que dura horas e de uma possível laceração vaginal, na verdade não é tão mágico assim.

Estudos já comprovaram as perdas ocasionadas pela cesariana, que vão desde a imunidade mais frágil dos bebês até a assimilação recente feita entre o tamanho - cada vez maior - de bebês e este tipo de parto.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma taxa considerada razoável é que cerca de 15% dos partos sejam cesáreas. Mas, no Brasil, este tipo parto é o queridinho absoluto na maioria das maternidades. Cerca de 55% de todos os partos realizados no país são cesarianas. Segundo do mundo, o Brasil fica atrás apenas da República Dominicana, que realiza cesáreas em 58% das gestantes.

Ginecologista e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí, Juan Carlos Menacho Melgar explica que a questão é estrutural. “No Brasil, culturalmente o parto normal é associado à dor incontrolável e ao medo de maus desfechos perinatais, ou seja, complicações com o bebê no momento do trabalho de parto e do nascimento. É importante salientar que, neste ponto, a participação das equipes que realizam a assistência pré-natal é fundamental na orientação e esclarecimentos das dúvidas.”

Para o médico, a cesárea salva vidas e previne traumas. “Sofrimento fetal por diversos motivos, doenças maternas que não permitam o trabalho de parto, bebês em posição inadequada, placenta que se localiza na parte inferior do útero e falhas no processo de dilatação seriam os principais motivos de indicação de cesáreas.”

Mas há cesáreas realizadas por medo. “Existe, sim, um número elevado de cesáreas que não têm uma indicação precisa, mas não considero isto uma tradição. Muitas vezes, acontecem pelo próprio desejo materno. Isto atualmente é amparado pela lei, mesmo que a paciente tenha todas as condições de ter um parto normal.”

Melgar defende o parto normal como o mais adequado. “O parto normal sempre será considerado a melhor via de resolução da gestação, desde que as condições materna e fetal assim o permitam. O parto cesárea é atualmente um procedimento seguro, porém tem que ter a sua indicação precisa e absoluta.”

A CORAGEM
Mesmo com a tendência contrária, há mulheres que defendam o parto normal e o procedimento da cesárea apenas se a mãe ou o bebê tiverem riscos à saúde, sem o medo da dor. Com 41 anos, a jornalista Thais Itaqui optou pelo parto normal, definido como “sensação indescritível” por ela.

“Meu primeiro filho, o Léo, que nasceu em 2011, eu tentei o parto normal, fiquei 13h em trabalho de parto e acabei fazendo a cesárea porque não tinha dilatação, mas brinco que foi cesárea e normal, por causa do trabalho”, conta.

Thais fala que, ao engravidar de novo, 10 anos depois, precisou se preparar física e psicologicamente. “Tive mais conhecimento e fiz fisioterapia pélvica durante quase toda a gestação para ter o parto normal. Também trabalhei muito a mente, porque hoje as pessoas condicionam o parto normal a algo diferente.”

“Para ter um parto normal, a gente precisa estudar, se preparar contra o que foi ensinado. A gente precisa de um preparo de corpo e mente, mas mais por causa da sociedade, porque a gente foi condicionada a ter medo do parto normal. Até minha mãe, que fez duas cesáreas, comigo e com o meu irmão, ficava sempre me questionando se eu não ia fazer cesárea, que o normal era arriscado”, relata.

Mas, mesmo com a pressão, a jornalista bateu o pé, deu a luz ao João em parto normal, e não se arrepende de nada. “A bolsa do João estourou no dia 22 de fevereiro, às 16h da tarde. Eu tinha ao meu lado uma enfermeira obstetra que fez um trabalho quase igual ao de uma doula, fez massagem, usou óleos essenciais. Fiquei em casa até o dia seguinte, mas precisei ir à maternidade tomar antibiótico. Quando cheguei lá, aplicaram ocitocina e minhas contrações aumentaram.”

“O parto natural não é o parto normal, no natural, você não toma anestesia, analgésico, nada, mas eu tomei analgésico às 20h30. Eu pedi, porque já estava cansada. Ele nasceu à 1h da madrugada do dia 24, depois de 33h de trabalho de parto. Na quinta força que fiz, ele nasceu, e foi incrível. Sempre quis essa experiência.”

“Foram muitas horas de trabalho de parto, mas o João ficou muito bem neste tempo, foi monitorado o tempo todo. Tive no fim a ajuda do analgésico, mas precisei mesmo. A analgesia relaxa o útero e não sei se teria ficado mais tempo se não tivesse tomado, mas não me arrependo, só não queria passar por uma cirurgia como aconteceu com o meu primeiro filho”, conta Thais sobre o primeiro parto, no qual, além de ter uma recuperação mais longa, não pôde dar o afeto imediato.

“O João mamou 15 minutos depois de nascer, o pai dele cortou o cordão umbilical e ele ficou no meu colo. Isso não aconteceu com o meu primeiro filho, que eu não peguei depois de nascer. É terrível o bebê nascer e ver a mãe meio distante, depois ele vai para o mundo médico, dão banho, fazem um monte de coisas com ele e só depois ele volta para a mãe. Me senti superpoderosa de ter conquistado pelo João todo esse processo. Acho que o primeiro ato de amor da mãe é querer que o filho nasça naturalmente, pensar de cara na cesárea só considera a dor da mulher”, fala Thais sobre o momento de conexão pós-parto.

Professora de educação física, Aline Salustiano, de 35 anos, também decidiu que teria um parto normal com o segundo filho, Miguel, depois de uma cesariana para dar a luz à primeira filha. “Fui bailarina por muitos anos e precisei operar a coluna, tenho uma prótese na região lombar. Quando engravidei pela primeira vez, minha ginecologista pediu que eu procurasse o médico que fez a minha cirurgia da coluna, passei com ele e ele recomendou a cesárea.”

“Quando engravidei de novo, fui buscar informações e profissionais para o parto normal. No início eu não tinha contratado equipe, ia ser atendida pela equipe de plantão do hospital. Mas fui atrás de profissionais para fazer o parto e deu tudo certo, faltando cerca de um mês para o nascimento do Miguel.” Nessa busca, ela também conheceu a Kalu, que foi sua doula na gestação.

“Dia 5 de abril, a minha bolsa estourou às 6h da manhã. Avisei a equipe, a enfermeira veio me avaliar e viu que estava bem no início do trabalho de parto. A Kalu chegou por volta das 16h e a gente ficaria em casa mais um pouco, mas, com 18h de bolsa rompida, tem que ir para o hospital tomar medicação”, lembra.

Mesmo com o monitoramento constante do bebê, após 14h do rompimento da bolsa, Aline e a equipe decidiram ir ao hospital “Chegamos lá por volta das 20h e viram que estava tudo bem com o bebê. Umas 23h, precisei fazer o exame para monitorar as contrações e a frequência cardíaca do bebê. As contrações diminuíram, mas eu não podia voltar para casa por causa da bolsa rompida, então tomei hormônio para estimular as contrações.”

“Por volta das 3h50, tomei a anestesia porque minha coluna começou a doer. A Kalu me deu um remédio homeopático e eu dormi até as 5h30. Acordei com bastante dor e a enfermeira veio me avaliar. Eu já estava com dilatação total e contrações ritmadas. Por volta das 6h comecei a fazer força expulsiva, mas com a anestesia era difícil fazer força no lugar certo”, relata ela, que, mesmo com a dificuldade para empurrar o bebê, optou por mais uma dose de anestesia devido à dor nas costas.

“A médica me explicou que seria mais difícil para fazer força, mas eu tomei a anestesia. Por volta das 7h30, com a ajuda da Kalu e do meu marido fazendo força e me ajudando a empurrar, consegui. Ao todo, foram 28h desde o rompimento da bolsa e 17h de trabalho de parto. Acho que as pessoas dizem que são 17h de sofrimento e dor, mas não foi todo esse sofrimento e acho que a experiência, para a mulher, é uma conquista, é um empoderamento por conseguir fazer o que você se preparou durante nove meses para fazer”, conta.

Aline também compara o parto em que fez cesariana ao parto normal. O segundo, para ela, tem muitos mais benefícios, tanto para a mãe quanto para o bebê. “Eu estava ciente de que, por causa da minha coluna, eu poderia precisar de cesárea, mas não seria como foi com a minha primeira filha, que eu não tive escolha.”

“Com a minha primeira filha foi tudo muito rápido, logo depois do parto, tiraram ela de perto de mim. Com o meu filho, não. Ele veio direto para o meu colo, ficou 1h comigo. Com ela, eu sofri dois meses para amamentar, ele mama superbem desde o início. Depois da cesárea também precisei de ajuda durante uns 15, 20 dias para fazer tudo. Depois do parto normal, no dia seguinte eu já conseguia lavar o meu cabelo”, diz ela sobre os benefícios que vão além da conquista.


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