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Bruxas contemporâneas querem superar '500 anos de propaganda negativa'


Karime Xavier/Folhapres
A bruxa, maquiadora e modelo Ádria Dasi, 38, não costuma falar sobre suas crenças às pessoas
Crédito: Karime Xavier/Folhapres

A bruxa está solta. "Estão por toda parte", diz a maquiadora e modelo Ádria Dasi, 38, que se inclui nesse pacote.

A imagem da bruxa, contudo, continua presa a estereótipos e preconceitos que, séculos atrás, levaram milhares de mulheres à fogueira da Santa Inquisição. Se essa letalidade hiperbólica não existe mais, persistem no século 21 relatos de turbas assassinando mulheres associadas à bruxaria.

Teve a jovem de 20 anos que, em 2013, foi despida, encharcada com petróleo e queimada viva numa pilha de pneus incendiados em Papua Nova-Guiné. No ano seguinte, uma paulista de 33 anos virou alvo de uma multidão enfurecida após um site espalhar a fake news da "mulher que está raptando crianças para realizar magia negra". Fabiane Maria de Jesus, a "Bruxa do Guarujá", foi confundida com essa sequestradora que nunca sequer existiu.

Mulheres como Ádria, Marília, Tânia, Evani e Marcia querem fazer deste domingo (31) de Dia das Bruxas um espantalho para a intolerância que até hoje esbarra com violência de gênero -ainda que homens tenham sido condenados no passado, mulheres eram a imensa maioria das vítimas da Igreja Católica.

O "Malles Maleficarum", manual de caça às bruxas escrito no século 15 por um monge dominicano, descrevia o apetite sexual insaciável de mulheres que transavam com demônios. Assim seriam "capazes de desencadear todos os males, especialmente a impotência masculina, a impossibilidade de livrar-se de paixões desordenadas, abortos, oferendas de crianças a Satanás, estrago das colheitas, doenças nos animais etc", diz o livro-bússola dos inquisidores.

Para parte dessas feiticeiras contemporâneas, bruxaria é religião -a neopagã wicca. Outras veem como filosofia de vida. Não que os intolerantes façam essa distinção.

Ádria trabalha numa empresa evangélica, e já sabe: "Para eles, é pacto com o demo". Não sai revelando por aí esse lado seu. Por cautela. "A maioria das pessoas com quem convivo são católicas ou evangélicas, algumas espíritas. Todas repudiam."

No passado, mesmo mulheres que nunca se enxergaram na feitiçaria estavam a perigo, afirma a maquiadora. "Uma jornalista com o poder de transmitir uma informação e causar revoluções seria considerada bruxa, por ter o dom do conhecimento."

A má impressão que em tempos medievais fazia mulheres arderem ecoa até hoje, e Hollywood tem seu dedo nisso. "'Branca de Neve', 'Convenção das Bruxas', [filmes assim] sempre usam a bruxa como maligna."

Como em qualquer crença, os mal-intencionados existem, claro. Mas o que Evani Carrasco, 63, vê ao seu redor é gente que se deixa levar pelo lema "fazer o bem sem olhar a quem".

Com o título de grã-sacerdotista, ela se iniciou na prática por dica de uma pombagira, entidade da umbanda representada por uma mulher de aura sedutora. Evani chegou à religião afrobrasileira como "uma branca universitária magrinha" e logo percebeu o impulso em abraçar fés simultâneas, conta.

A intolerância externa lhe é evidente há décadas, mas ultimamente ela tem notado "uma certa resistência" no próprio círculo wiccano, que parte sobretudo de mulheres mais velhas.

"A wicca é muito modinha. Muita jovenzinha está mais para conto de fadas, Harry Potter, esse lado mais lúdico. Tem até vampiro", diz. "A bruxaria que a gente faz é mais espiritual mesmo, focada na realidade."

Neta e bisneta de ciganos, Tânia Gori, 50, aprendeu desde pequena artes como a leitura de tarô. "Só não sabia que o nome disso era bruxaria."

Aprendeu e, 25 anos atrás, fundou a Casa da Bruxa, no ABC Paulista. "Lógico que vão existir alguns termos [pejorativos]. Foram 500 anos de propaganda negativa, com pessoas falando que eram mulheres horrendas, do mal."

Tânia diz rebater assim quem encrenca com ela: "Visualizo que a pessoa está me dando um presente que não aceitei. Se não aceitei o presente, não levo pra casa, não levo pra mim".

Se lhe chamarem de bruxa para ofender, ela veste a carapuça com prazer. E é no Halloween que os sentidos afloram, de acordo com a bruxa de Santo André.

Um dia, segundo ela, em que a energia de um mundo invisível se faz presente, e sentimos com mais força "a presença de fadas, os gnomos e os duendes". Tânia tem receitas para realizar desejos, como o bolo dos duendes, que leva canela e maçã, e o ponche da harmonia, mix de vinhos branco e do porto com frutas.

O importante é "viver em paz com qualquer forma de vida existente no planeta", diz Marcia Sanção, 56, que se apresenta como alta sacerdotisa wicca do Templo de Bruxas.

Ela entrou em contato com o que define como Antiga Religião 30 anos atrás. "Conheci minha mestra através de uma propaganda num jornal que peguei numa feira mística", conta.

Passou na frente do evento, "com uma cantora cantando músicas tipo da Enya na entrada", a caminho de um compromisso profissional. "Quando vi a placa, já amava tudo isso. Tinha lido muitos livros de tarô e me sentia uma bruxinha, sem saber que na verdade ser bruxa era muito mais do que o nome."

Consiste também em participar de rituais. Um dos mais populares é o mastro de beltrane, enfeitado com fitas coloridas que se entrelaçam a um bastão com coroa de flores no topo. "Ele representa o falo do Deus, que irá fertilizar nossos pedidos. Enrolamos [o mastro com as fitas] dançando em círculos", diz Marcia.

Neste domingo, as bruxas do hemisfério sul celebrarão justamente o Beltane, "quando honramos a união da Deusa e do Deus num período fértil", afirma. As datas mudam em relação ao norte, onde no 31 de outubro acontece o Halloween. Acredita-se que, na data, o limiar entre os mundos de vivos e mortos se afina a ponto de antepassados poderem fazer uma visitinha.

No Brasil, o Halloween de fato é em maio. "Fazemos nossas abóboras para colocar na nossa porta do lado de fora, pois sabemos que nesta noite o véu entre o mundo espiritual está levantado", diz Marcia.

Em 2016, Geraldo Alckmin (PSDB), então governador de São Paulo, sancionou uma lei para instituir o Dia Estadual dos Wiccanianos, Cultuadores do Sagrado Feminino, Pagãos e Praticantes das Artes Mágicas. Foi uma vitória e tanto para bruxas e bruxos.

"Na nossa religião, a gente entende que pior do que morrer é você ser esquecido", afirma Marília de Abreu, 61, uma advogada de formação que desde 1998 atende por alta sacerdotisa da Wicca Cia das Bruxas. "E isso traz um valor interessante, como diretriz ética e moral, porque você vai ter que fazer algo relevante para ser lembrado."

Mais ou menos como "Viva - A Vida É uma Festa", compara. Na animação da Pixar, os mortos que não são lembrados pelos vivos evaporam de qualquer plano espiritual.

Bruxaria é também um nicho de mercado. A sacerdotisa Evani, por exemplo, lançou uma linha de produtos, a Alma da Floresta. São itens como o Brumas do Deserto, um "spray áurico que nos transmite desejo e auto-estima".

Ou o hotel-fazenda Morada dos Deuses, em Paraiubuna (SP), que sob o mote "loucura é achar a gente normal" promete uma hospedagem para quem busca "evolução interior". Alguns nomes de suítes: Harry Potter ("seu convite pra Hogwarts chegou"), Celta ("seja um guerreiro celta") e Espacial ("ao infinito e além").

"Hoje continuamos sendo ameaça, mas não é mais cabível o termo bruxa [de forma depreciativa]", diz Ádria, a que esconde de muitos a filosofia que leva pra vida. "A sociedade começou a raciocinar mais. Um tiquinho mais."


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