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Vulnerabilidade: a exposição que inspira a coragem

Entender as emoções que paralisam as ações, enfrentar, com coragem, os desafios, sem medo dos erros e fracassos, são atitudes de quem reconhece a fragilidade de todo ser humano


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Vulnerabilidade
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“A arte de perder não é nenhum mistério; tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério.” O poema da poetisa americana Elizabeth Bishop é apenas o resultado de sua vida atribulada, em que viu a mãe sendo levada a um sanatório ainda muito pequena e encontrou, no Brasil, um dos grandes amores de sua vida, a arquiteta e paisagista Lota de Macedo Soares. Em “Flores Raras”, romance sobre sua passagem pelo continente, a dor de quem deixa um país para trás, mas recomeça sempre, reconhecendo sua vulnerabilidade e fragilidade, enquanto Lota, a corajosa e invencível, autora do Aterro do Flamengo e de obras extraordinárias, não encontrou o espaço em sua alma para as pequenas derrotas cotidianas e teve um fim trágico.
Vulnerabilidade é aquilo que se sente em momentos de incerteza, risco e exposição. O grande problema por trás dessa sensação, segundo a autora, professora e pesquisadora da Universidade de Houston, Brené Brown, é quando se tenta evitá-la.
A tentativa de evitar situações que podem provocar o sentimento de vulnerabilidade cria barreiras emocionais, que impedem que o indivíduo passe por novas experiências e adquira autoconhecimento ao vivenciar as fases difíceis da vida. Cibele Querino, de 25 anos, se afastou um tempo do trabalho porque a pandemia a deixou muito vulnerável. “Me senti extremamente vulnerável na pandemia. Fiquei um tempo afastada do trabalho, pois forneço atendimento psicológico e nunca tinha feito isso de maneira on-line”, afirma.
Nesta positividade tóxica em que o mundo se insere, com pessoas sempre bem-sucedidas, fotos incríveis de Instagram, com corpos e vidas perfeitas, poucos abordam sentimentos como a tristeza, o cansaço e a raiva. Segundo a psicóloga Dalila Belo, esse é o ponto em que a negação em torno da vulnerabilidade cria forma, já que é mais fácil evitar certas situações do que se sentir vulnerável e sensível perante a elas. “É importante que as pessoas se rendam aos seus sonhos e suas vontades sem medo de fracassar e se sentir vulnerável. Incluo também que é importante entender que o fracasso e o cansaço também podem fazer parte do processo para alcançar o sucesso”, afirma.
Viver a vida não significa ter controle de todas as situações, assim como se sentir cansado, triste e vulnerável não significa viver mal. “Acreditar que é capaz é importante, mas entender que é natural se sentir triste e inseguro significa olhar para si”, explica a psicóloga.
Desmistificar que a vulnerabilidade não é sinônimo de fraqueza é a missão por trás dos estudos de Brené Brown, já que, para ela, o tema significa coragem. Impor a obrigação de se viver como um super-herói, perfeito e imbatível impede que se tenha coragem de tomar atitudes e aceitar todos os riscos sem garantias. “Passar por esse momento pandêmico em que me abri para algo novo e incerto no trabalho me provou que eu tenho capacidade de inovar e me adaptar. Se sentir vulnerável e encarar o desafio fez muito bem para minha autoestima profissional, entendi que vivenciar momentos ruins faz parte”, afirma Cibele.
Segundo a psicóloga Dalila, mascarar as vontades e reprimir os desejos de alcançar um objetivo devido ao medo da vulnerabilidade durante o processo é um grande erro. “Se eu mascaro a todo momento aquilo que sou de verdade, como eu vivo? Se eu evito tudo aquilo que deveria ser sentido, como eu me permito? Não saber lidar com a vulnerabilidade é a real perda, a perda de vivências. Além disso, também afeta a saúde mental, que pode se fragilizar mais ainda quando a pessoa for exposta a uma situação em que ela não estava preparada”, afirma.
Somente ao vivenciar a vulnerabilidade é que se aprende a lidar com ela. Saber se permitir, viver os riscos e entender que nem sempre é possível dar conta de tudo é o primeiro passo para a coragem. “Acredito que as dificuldades fazem com que possamos criar saídas e soluções para os problemas, mas além disso também traz conhecimento sobre nossas próprias barreiras e medos. Nesse momento de vulnerabilidade podemos escolher entre paralisar ou seguir em frente para superá-lo”, afirma Cibele.


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