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Olhando o céu


ENTREVISTAO MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE
Crédito: Reprodução/Internet

Penso na prática da maternidade como algo realmente divino, quando a pessoa tem a consciência de que ser mãe é ir além para embalar, cuidar e educar sua criança. Foi minha experiência de filha.

Há uma mistura de sentimentos: a mãe que foi nossa – de meu irmão e minha -, a mãe que não fui, mas não me impede de, em alguns momentos, experimentar a maternagem, logicamente muito aquém de uma mãe biológica. As mães que se ultrapassam pelos cuidados com seus filhos, até mesmo quando se encontram em presídios. As mães que não temem as trevas, indo ao encontro de seu rebento para salvá-lo. As mães que assumem, em plenitude, os filhos que não eram seus e os revestem de ternura. As mães que choram doloridas para sempre ao terem um filho que partiu antes.

Lamento pelas mães que não assumiram seus filhos e, até idosos, procurarão, no vazio de suas entranhas, as cantigas de ninar a que teriam direito.

Ao escrever sobre as defensoras incontestáveis de suas crias, recordei-me de um poema de Isabel Vieira de Serpa e Paiva, transcrito em 16/11/1965, no meu álbum de recordações – presente de nossos pais nos meus dez anos -, por minha inesquecível amiga Sarita Rodrigues de Nunes Leal -, com o título de “Duas Estrelas”:

“Minha mãezinha: hoje é que me atrevo/ A mandar-lhe esta carta. Você vê:
Já estou na escola, já sei ler, escrevo/ Quero saber notícias de você.

Em casa tudo é diferente agora/ Ninguém se atreve a levantar a voz/ E papai vive trabalhando fora, / E a mulher loura que conosco mora, / Tem para mim um ar quase feroz.

Tenho-lhe medo. Sinto-me isolada/ Numa noite você me respondeu/ Apontando no céu iluminado/ Duas estrelas junto lado a lado:/ ‘A menor é você... a outra sou eu’.

Assim cresci Você se foi embora, / Foi dormindo... E eu chorei nem sei o porquê.

E à noite, olhando o céu: ‘Nossa Senhora!’ / Minha mamãe lá está... mas eu agora.../ ‘Mamãe! Como eu preciso de você!’”

Lamento pelos filhos que perderam suas mães assim que chegaram ao mundo ou ainda na infância. A partida de uma mãe, no entanto, é sempre dorida. Não importa a idade. Deus me concedeu a graça de conviver com a minha por sessenta e seis anos e meio, mas mesmo assim, embora com a certeza de que ela está com Deus, em inúmeros momentos, meu coração diz: “Mamãe! Como eu preciso de você!”

No mesmo álbum de recordações, ela escreveu em 05/05/1964: “Aos olhos cheios de afeto/ da mãe, que a viu pequenina/ seja qual for sua idade/ tu serás sempre uma menina”.

Com ela se foi a minha possibilidade de, mesmo idosa, ser vista como menina.

Gratidão a Nossa Senhora que, a pedido de seu Filho na Cruz, aceitou ser mãe da humanidade.

Aplausos a todas as mães e preces pelas que partiram!

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista


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