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O sentimento Maternal


Alexandre Martins
Alexandre Martin
Crédito: Alexandre Martins

Dentre as diferentes faces que a mulher pode assumir na vida, sem dúvida, a do seu potencial de criação é a que mais intrigou a humanidade desde os tempos pré-históricos e ainda permanece chamando a atenção.

Ainda do período Neolítico, com a sociedade humana basicamente coletora e oportunista para prover a sua subsistência, os pedidos de prosperidade e abundância eram direcionados não a deuses (masculinos) mas à deusas (feminino, representantes do poder feminino) que eram frequentemente representadas em ídolos com formas femininas grávidas.

Mesmo nos períodos em que se seguem, quando domesticadas algumas plantas para a obtenção de alimentos, a fertilidade da natureza era diretamente equiparada à fertilidade humana, através da figura das deusas das colheitas. Deuses masculinos somente tomaram à frente depois, com o surgimento uma cultura mais guerreira e de conquista nos diferentes povos.

Esta fertilidade é possível por ser sustentada por todo um aparato fisiológico, que é objeto de estudo da área médica desde seus áureos tempos e que hoje se traduz pelos conhecimentos de hormônios, glândulas que regem os ciclos menstruais, mas também encontra o seu suporte no corpo energético, mais sutil.

Por ter a felicidade de escrever para esta revista há alguns anos, o funcionamento desta contrapartida energética é algo que já explanei neste mesmo espaço algumas vezes e que certamente causa fascínio tanto quanto suas bases físicas e materiais.

Quero neste ano, trazer um aspecto que é energético também, mais sutil que o anterior… o sentimento maternal.

Cabe primeiro diferenciar emoção de sentimento. Do ponto de vista da neurociência, a emoção é algo bem visceral, surge de uma parte do nosso sistema nervoso que é muito relacionada com órgãos e vísceras, ou seja, é parte da maquinaria energética básica do ser humano.

Essas emoções básicas são a raiva, tristeza, alegria, nojo, desprezo… São reações comuns a todos os seres humanos e naturais tal como a conformação de dois olhos, uma boca e duas orelhas… não tem nada de errado em sentir emoções, estranho seria não tê-las. Elas têm a função de preparar o indivíduo para certos quadros que ele terá que enfrentar na vida, de uma maneira global.

Já os sentimentos são as interpretações da nossa mente consciente sobre as emoções. Seria como se o nosso ego, a nossa personalidade principal, sentisse e emitisse uma opinião sobre a emoção mais básica.

A emoção é algo visceral, mais próprio da nossa espécie. O sentimento depende um pouco da nossa cultura, experiências anteriores, já é algo mais humanizado, racionalizado.

Um dos sentimentos mais complexos que eu tive a felicidade de testemunhar, muitas vezes desde o momento em que ele surge, é aquele que se inicia quando a mãe vê o rosto do seu filho pela primeira vez.

As emoções que ocorrem neste momento são muitas! Parece que o medo e a insegurança que permearam o processo de gestação e a alegria da vinda desse novo ser ao mundo se misturam como tintas em uma paleta de pintura, formando uma cor totalmente nova!

Ainda que a mulher saiba que é um indivíduo independente, ele ao mesmo tempo é, e sempre será, um pedaço dela mesmo, gestado por meses.

Nós, médicos, temos um monte de teorias que envolvem hormônios com nomes complexos, como ocitocina e dopamina, para explicar o que acontece naquele primeiro olhar. Toda a teoria, no entanto, fica irrelevante quando vemos o primeiro sorriso brotar no rosto maternal, quando põe os olhos pela primeira vez no seu filho.

Tenho certeza de que nesses segundos, construções energéticas entre dois indivíduos são feitas e eles, ainda que separados corporalmente daquele momento em diante, ficarão unidos energeticamente por toda vida. Essa ligação é muito intensa até o fim da primeira infância, aos sete anos, ficando então progressivamente leve e tênue, ao longo dos anos, mas sem dúvida, persistente até o fim da vida dos dois.

Para quem já sentiu este sentimento se estruturar, depois desse turbilhão de emoções, entende o que eu estou falando. Deve saber também que é indescritível a sensação de se descobrir, subitamente, mãe para o resto da vida.

Para essas privilegiadas, desejo os meus parabéns no mês em que vocês se fazem representar. Forte abraço a todas as mães.

Dr. Alexandre Martin é médico formado pela Unicamp e especialista em Acupuntura e Osteopatia


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