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Maternidade na adolescência: O universo da maternidade sob a perspectiva da luta e do amor


Arquivo Pessoal
Thaís Mara
Crédito: Arquivo Pessoal

A maternidade é um dos tabus mais antigos e que persistem até os dias de hoje. Falar do processo de uma gestação, desde a concepção até o nascimento, é uma tarefa difícil, ainda mais quando não é dada voz às protagonistas dessa vivência: as mães.

É a caso da assistente social Eliete Nicácio, de 43 anos. Eliete vivenciou sua primeira gestação aos 15 anos, quando ainda estava na escola. Ela mantinha um relacionamento às escondidas com seu namorado, dois anos mais velho e que conheceu na escola. Ela conta que após terem tido a primeira relação sexual não teve um bom pressentimento e decidiu fazer um teste de gravidez. O resultado veio como já esperado: positivo. Neste momento Eliete e o namorado entraram em pânico e sem a menor ideia do que fazer.

Decidiram então contar as famílias sobre a gravidez. Nesta época, Eliete morava com uma tia e foi impedida de seguir com os estudos por cerca de um mês. Seu namorado pôde continuar a frequentar a escola normalmente. “Por que nada na vida dele muda? Ele vai continuar estudando, fazendo suas coisas, seguindo sua rotina”, comenta Eliete inconformada com a forma com que as famílias lidaram com a situação.

Passado esse tempo, a assistente social retornou para a escola, onde recebeu o apoio dos professores e equipe gestora, mas por outro lado ficou distante de amigos. “Eu perdi uma boa parte dos meus amigos.

Muitas das minhas amigas chegaram a contar que as suas mães não queriam que elas andassem comigo porque eu estava grávida, como se isso fosse algo contagioso”, relata Eliete.

Os pais de seu namorado logo providenciaram seu casamento pouco antes de sua filha nascer. Eliete se mudou para a casa dos sogros. Foi a partir dessa mudança que começou a enfrentar suas dificuldades e entender como funciona o universo da maternidade. “Surgem muitas pressões externas de situações que você não queria e não planejava. Além de cuidar de você mesma, você agora é responsável por outra vida.

O seu corpo está se transformando, você tem medo do parto, de sentir dor, da criança nascer algum ‘defeito’ porque a culpa vai ser sua, por você ter comido alguma coisa, ou ter deixado de comer, por ter tomado algum remédio, por ter parado de estudar”, explica Eliete.

Se sentia bombardeada por todos os lados e a todo momento ouvia que a culpa de tudo aquilo estar acontecendo era sua por não ter tomado os devidos cuidados e que o ‘golpe da barriga’ não deu tão certo como ela esperava.

As cobranças atribuídas à uma mulher grávida surgirão independente da idade dela, no entanto elas virão acompanhas de uma violência duplicada na adolescência. “Acredito que hoje uma adolescente grávida é muito mais cobrada do que na minha época em razão da ‘abertura’ que a mídia oferece e o maior acesso à informação. Eu tenho a impressão de que a adolescente hoje se sente muito mais sozinha do que eu me senti. A sociedade evoluiu tecnologicamente, porém moralmente, em respeito a empatia ao próximo, percebo que retrocedemos.”

PAUSA NO REMÉDIO
Aos 22 anos, Thaís Mara Batista Oliveira vivenciou uma gestação ainda jovem. Há um ano a jovem decidiu para com o uso do anticoncepcional que costumava usar. Durante essa pausa, tanto Thaís quanto seu marido, Emerson da Silva Santos, se sentiram aflitos, mas com consciência dos riscos que corriam com uma gravidez não planejada. Após algum tempo a notícia chegou: Thaís fez o teste de gravidez e o resultado deu positivo. Tanto ela quanto o marido estavam desacreditados com o resultado dos exames, no entanto se sentiram contentes e ansiosos e logo de cara aceitaram a ideia de um novo integrante na família.

Começaram então os preparativos para acolher Heloísa, filha do casal que atualmente tem um ano e quatro meses. “Após a descoberta, começamos a preparar tudo que seria necessário para receber o bebê, principalmente por não ter sido algo planejado. Pensamos em dar o melhor possível para ele”, explica Thaís sobre como foi o processo.

Thaís comenta que a vivência da maternidade é algo que agregou ensinamentos e novas descobertas, como se a cada dia ela aprendesse algo novo com sua filha. A introdução alimentar, os primeiros passos, o nascimento dos dentes, o primeiro machucado, as primeiras palavras, são exemplos que a jovem conta e que a deixaram muito emocionada com as experiências. Ela também aponta alguns obstáculos que enfrentou no caminho. “Acho que as maiores dificuldades foram no início porque eu nunca tinha vivenciado aquilo, uma gestação. Ter alguém dependendo de mim para tudo me deixou com medo de não conseguir dar conta. A exaustão de não dormir direito, o medo dela ficar doente, conta.

Segundo Thaís, a própria gestação também influenciou na saúde do seu corpo e mente, como as constantes quedas de pressão que sentia, junto aos desmaios, algo que a incomodava muito, mas que aos poucos foi diminuindo. Ao descrever essa situação, a jovem aponta o quão é fundamental buscar apoio psicológico em um momento como esse, onde os hormônios estão ‘à flor da pele’.

“Entendi que tudo aquilo fazia parte do processo, então tentei enfrentar do jeito mais leve possível”, afirma Thaís com o alívio de quem, apesar dos altos e baixos, conseguiu se organizar, dentro de seus limites e condições, e proporcionar a sua filha as melhores experiências.

Para além dos obstáculos relacionados ao processo da gravidez, existem os externos, a maneira como a sociedade enxerga e qualifica uma mãe. Thaís conta algumas situações que já passou com a filha em espaços públicos e o quanto os olhares de julgamentos alheios precisam de mais empatia. “Certa vez, quando fui fazer o enxoval da Helo, passei muito mal e sentei em uma loja para descansar. Algumas mulheres passaram por mim e disseram ‘Nossa! Que pena, né? Mas também, é tão novinha, coitada’. Como se passar mal na gravidez tivesse haver com a idade”, lembra Thaís.

Outra situação descrita por Thaís é a amamentação em público. “Já cheguei a amamentar minha filha em público, ela estava chorando. Percebi vários olhares tortos, como se fosse algo de outro mundo”, conta Thaís.

MOMENTOS ÚNICOS
Para Thaís Mara, independentes da idade, ser mãe é o melhor dos mundos. “Quando criança eu tinha a visão de que ser mãe é proteção, acolhimento, é lar. Essa visão não mudou muito quando engravidei, apenas descobri que ser mãe é muito mais do que proteger. Mãe também se estressa, chora, grita, precisa de colo e ser ouvida. Ser mãe para mim é ser um pouquinho disso tudo. Depois que me tornei mãe descobri que sentimos um amor que não cabe dentro da gente, faríamos tudo por nossos filhos. Ser mãe é algo incrível e agradeço a Deus todos os dias por ter me dado a oportunidade de ser uma”.

Thaís tranqüiliza as mães sobre a descoberta da gravidez. “Você é mais forte do que pensa, apesar dos medos e incertezas a gente sempre vai saber o que é melhor para os nossos filhos e que apesar dos julgamentos somos muito mais do que aquilo que dizem”.

Questionada sobre a possibilidade de voltar ao passado e fazer tudo diferente, Eliete Nicácio responde: “Minha filha se tornou a minha melhor amiga desde o momento que nasceu. Eu acompanhei e continuo acompanhando cada passo dela. Eu não voltaria atrás para mudar nada. Ela valeu a pena, por tudo que passei. Quando um filho nasce, nasce uma mãe.”

Eliete diz que não daria um conselho para um mãe que recém descobriu uma gravidez mas sim um colo e voz para ela. “Para uma sociedade acolher uma mãe adolescente ela precisa antes de tudo acolher uma mulher. Enquanto nós mulheres estivermos na posição de produto, de servidoras, esse olhar de julgamento não vai mudar, o acolhimento não vai existir”, encerra Eliete.

Apesar de todos os obstáculos e imprevistos colocados em sua vida, a assistente social conseguiu concluir os estudos e atualmente tem cinco filhos, uma de suas maiores conquistas.


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