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Pais de padres: benção que vem de berço

Ser pai de padre requer compromisso e comprometimento


Arquivo pessoal
Padre Elias e Marcos
Crédito: Arquivo pessoal

Atender a um chamado traz alegrias e responsabilidades para todo cristão, em especial quando este chamado chega dentro de casa. Assim tem sido para os pais que receberam a notícia de que os filhos cumprirão a missão de se tornarem padres. Os genitores destes sacerdotes relatam, de forma emocionada, sobre a satisfação, medos e frio na barriga de entregar seus filhos para a vida religiosa. Mais do que bênção, o ‘sim’ que reflete em toda a família.

Aos 70 anos, o professor aposentado Orestes Aloísio Santos Romano, pai do padre Daniel Bevilacqua Santos Romano, de 35, vigário na paróquia São Pedro, em Jordanésia (Cajamar), relata que a criação dos cinco filhos sempre passou pelo processo de transmitir a fé cristã. “Eu e minha esposa Mônica procuramos levar os filhos a viver uma coerência entre fé e vida no seu cotidiano. Claro que muitas vezes isso não aconteceu na prática. O Daniel, assim como toda a família, faz parte do Caminho Neocatecumenal, na Paróquia nossa Senhora do Desterro e, por meio desse itinerário de educação na fé, somos sempre iluminados e ajudados na vivência cristã e no discernimento”, afirma.

O pai conta que desde pequenos os filhos viram a possibilidade de seguir a vocação presbiterial. Aguardava-se apenas um ‘chamado’ que ajudaria a discernir qual o caminho que iriam seguir em sua vocação: o do sacerdócio ou do matrimônio. “Lembro que nas brincadeiras de meus filhos sempre aparecia a ‘figura’ de um padre ou tinha uma celebração religiosa. Com o passar do tempo, outras oportunidades voltadas para o sacerdócio apareceriam no cotidiano do Daniel. Ele fez acompanhamento vocacional, fez uma experiência missionária em Palmas (Tocantins), porém, penso que uma das mais significativas tenha sido a participação na Jornada Mundial da Juventude, em 2002, em Toronto no Canadá, onde há um chamado vocacional para homens entrarem no seminário e mulheres nos conventos. Nessa ocasião, o Daniel experimentou um chamado vocacional e se apresentou, pela primeira vez, para ir ao seminário”, relata.

Apesar de já fazer algum tempo, o pai comenta sobre a reação ao descobrir que o filho queria ser padre. “Eu perguntei se era isso mesmo que ele queria. Claro que houve uma preocupação, uma vez que atender um chamado do Senhor é uma graça, mas vem acompanhada de alegrias e sofrimentos”, revela.

Para Orestes, o sentimento de não poder ter um neto do padre Daniel não foi de tristeza. “Neste caso específico, tenho outros quatro filhos casados, tenho três noras, um genro e 13 netos”.
Romano enxerga a paternidade como um dom de Deus. “Iluminado pela fé cristã somos levados a desejar ter atitudes de colaboradores de Deus exercitando, na paternidade, a quebra do egoísmo, perdão, carinho, respeito, proximidade, ternura, isto é, atitudes inerentes de quem é pai e tem Deus como inspiração. A paternidade, certamente, implica em responsabilidade, e deve ser levada a sério. Não é um capricho ou fruto de um impulso sexual. É uma vida que estamos colocando no mundo e também uma forma de ‘educar’ todo nosso egoísmo, já que ser pai exige colocar-se a serviço de uma vida, o que é próprio da ‘vocação’”, argumenta.

Emocionado, mostra toda a alegria de ter um padre na família. “Antes de ser padre, ele é nosso filho, então ser pai de padre é como ser pai de um eletricista, de um jogador de futebol, de um economista. Essas profissões também exigem um ‘dom’, uma vocação. É claro que para o sacerdócio há a questão espiritual, da fé, de sentir a iluminação do Espírito Santo para assumir um serviço em prol do Reino de Deus, em busca da vida eterna. Há, claro, algumas características especiais no sacerdócio como a opção pelo celibato, por exemplo, ou ter plena consciência de que deve estar à disposição para servir a todos, indistintamente. É uma graça ser pai de um padre. Agora ser pai de padre, também, traz uma grande preocupação, sem dúvida, pelo fato de que é desgastante e a cada dia o sacerdote precisa fortalecer a sua fé, a sua vocação para o discipulado de Jesus Cristo”, conta.

FILHO ÚNICO
O contador têxtil Mário Ferreira dos Santos Filho, de 60 anos, pai do padre Michael Henrique dos Santos, de 34 anos, pároco da São João Bosco, no Eloy Chaves, em Jundiaí, relata que é bom ter um filho padre, pois eleva as palavras de Deus e a bênção para todas as pessoas. “No começo ficamos muito surpresos com a decisão dele, mas vimos que era um dom que ele tinha. Abraçamos junto com ele e ficamos felizes com a novidade”, afirma.

Apesar do padre Michael ser filho único, o pai não ficou chateado por não poder ser avô. “Minha família sempre foi muito católica e desde criança ele demonstrava o sonho em ser padre. A partir do momento que ele nos contou, abracei com ele esse sonho. Me sinto muito feliz em ter um filho padre. Hoje é muito gratificante e honrado nesse mundo tão difícil que vivemos”, completa o pai.

ALEGRIA PELO CHAMADO
O comerciante Marcos Pavan, de 59 anos, é pai do padre Elias Pavan, de 30, pároco do Santuário Diocesano Nossa Senhora Aparecida, em Jundiaí. Para ele, a decisão foi considerada pela família como uma herança religiosa que ele mesmo recebeu dos seus pais.

“Meus pais eram ativos dentro da igreja católica. Meu pai, inclusive, era diácono, participou do movimento de jovens na época de dom Gabriel, primeiro bispo diocesano, era ativo na paróquia onde ele frequentava. Já minha mãe sempre o acompanhou e o apoiou. Eu cresci neste ambiente, junto com eles e meus irmãos e sempre participei de movimentos religiosos também dentro da igreja.”

Pavan comenta sobre a graça ao ser escolhido pai de um padre. “Participamos da criação de Deus enquanto estamos neste mundo. Acredito que não fui eu quem escolheu esta condição ser pai de um padre, mas sim, Deus me colocou nesta condição, como escolheu a tantos, para contribuir, junto com tantos, o crescimento espiritual cristão enquanto estamos peregrinando neste mundo”, revela.

Para ele estar dentro da igreja é estar mais perto de Deus. “Sempre acreditei que estar dentro da igreja é o melhor lugar para estar com Deus. Também na família da minha esposa, os pais dela sempre foram muito religiosos. Acredito que por vivermos eu e minha esposa neste ambiente, tenha alguma influência na vida dos filhos e em especifico, do padre Elias”, revela.

O padre Elias tem mais cinco irmãos, apesar de Deus ter levado três deles. “Deus me concedeu a graça de ter 6 filhos. O mais velho, casado, me deu dois netos e minha filha do meio, também casada, me deu um neto. Acredito que a graça de Deus sempre está em nós quando dedicamos nossas vidas. Não temos nenhuma autoridade sobre nossos filhos apesar de sermos responsáveis pela educação destes”, afirma o pai.


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