Hype

Pais adotivos: conhecer, conviver e amar

A primeira troca de olhares entre pais e filhos em um abrigo pode não significar muito a princípio, mas marca o início de uma família


Arquivo pessoal
Alex, Adriano, Davi e Paulo
Crédito: Arquivo pessoal

Mesmo que geralmente não brinquem de serem pais na infância, muitos homens nutrem o desejo da paternidade quando crescem. E esse desejo, ainda que encontre alguma dificuldade, pode ser cumprido com êxito. Pais adotivos escolhem conhecer, conviver e então amar.

O processo da adoção é demorado e burocrático, pois há necessidade, mas esse período de ‘gestação’ mais longo é algo que faz com que haja uma preparação maior para a chegada da criança e para o amor que ela precisa. E quando chega, esses homens que podem não ter aprendido sobre a paternidade desde crianças, estão prontos e, enfim, tornam-se pais.

Jornalista, Wellington Silva, de 46 anos, passou cinco anos na fila de adoção até a chegada do Antony, que hoje tem cinco anos. “Estou com ele há três anos e meio. Sempre quis ser pai, não tive um pai presente e falava que tinha vontade, pois sempre gostei de criança. Casei aos 30 anos e aos 33 eu e minha esposa resolvemos ter uma criança, mas a gente tinha dificuldade de engravidar. Fizemos vários tratamentos, mas, depois de cinco anos tentando, a gente viu que não ia rolar. Falei para ela que a gente não ia desistir, que íamos conhecer a adoção.”

Depois de dar entrada em toda a tramitação, Wellington entrou na fila e iniciou o longo processo para se tornar pai. “O Antony parece muito a gente, mas não achamos isso a princípio. Quando a gente conhece a criança, é um choque muito grande de tudo. Imagina ter uma ‘gestação’ de cinco anos. A criança não te vê e já fala ‘te amo, papai. Te amo, mamãe’. A gente não fala ‘te amo, filhinho’. Não é assim.”

“Quando soubemos que havia uma criança que poderia nos interessar, nos mostraram um vídeo dele e perguntaram se a gente queria conhecer. Fomos até a Casa de Nazaré, onde ele estava, e no primeiro contato somos titio e titia, não dá para chamar de papai e mamãe. Eles até orientam que seja assim, para o caso da adoção não dar certo”, explica.

O convívio e, consequentemente, o afeto, surgiram aos poucos. “A gente teve todo o processo de aproximação no abrigo. A gente ia até lá todos os dias e ficava no mínimo uma hora com ele. E foi assim por 15 dias. Depois, ele começou a ir para casa conosco, passar fim de semana, ir passear com a gente. Aí sim, mais próximo, a gente sente o amor. O sentimento vai vindo conforme você vai conhecendo a criança.”

O jornalista sentiu a paternidade também na mudança da rotina. “Mudou tudo na minha vida. Como sempre quis ser pai, faço questão de ser presente. Vou às reuniões da escola, no caratê que ele pratica, nas festinhas da escola. E ele faz muita questão que nós dois estejamos com ele em tudo. E tudo mudou demais. Mudam os programas também. A gente sempre saía muito, ia para balada, agora priorizamos lugares que têm espaço kids. E em casa é alegria, tem parede riscada, sofá com várias cores que ele derrubou guache”, detalha.

Hoje Wellington vive a paternidade que sempre quis. “Sinto orgulho e alegria. É gostoso ouvir a criança te chamar de pai, é bom ter um filho, ensinar, vê-lo seguir seus passos, querer vestir a roupa que você veste, chutar a bola como você chuta. É especial, muito maravilhoso.”

COMBO FAMÍLIA
Analista de sistemas, Alex Ferreira Alves, de 38 anos, viu a vida mudar completamente em 2018, quando conheceu Adriano, que hoje tem 12 anos, Davi, que tem 10, e Paulo, de seis. “Minha esposa queria ser mãe, mas não queria passar pelo processo da gravidez e, para mim, o desejo da paternidade veio com o tempo. A gente foi conversando e decidiu entrar na fila para conhecer o processo”, que, segundo ele, fez com que o desejo aumentasse.

Alex se inteirou do assunto e também mudou o perfil de criança que queria adotar. “Passou o tempo e fomos amadurecendo com relação a perfil. A princípio, achávamos que uma criança menor seria mais fácil, mas fomos adaptando o perfil e falamos que podiam ser irmãos, que podiam ser maiores.”

Depois de um ano e meio na fila e conhecer algumas crianças, surgiram três irmãos, que não eram o perfil procurado por Alex e a esposa, mas acabaram se tornando filhos do casal. “Tivemos chamadas para conhecer crianças, mas nas duas primeiras, acho até que por medo, disse que não eram o que a gente procurava. Na terceira chamada, as crianças também estavam fora do perfil, eram três irmãos, de dois, cinco e sete anos, mas fui conhecer a garotada. Quando chegamos lá, acho que a gente se identificou, começamos as visitas frequentes e o processo foi fluindo. Tiveram autorização para saírem do abrigo e irem passear com a gente e a partir daí eu e minha esposa sabíamos que seriam os nossos filhos.”

Em 2019, com a conclusão do processo, os meninos foram para casa. “Vieram morar com a gente e o começo foi um pouco conturbado, éramos pais de primeira viagem, então às vezes não sabíamos o que fazer em determinada situação. Mas deu tudo certo. Criamos uma relação de amor com as crianças. Eles vieram com receio porque até então o porto seguro deles era o abrigo. Mas a gente adotou e são nossos filhos, começamos o processo de construção da família.”

O analista de sistemas fala que os filhos são muito carinhosos e explica como vê a função de pai. “Ser pai é estar presente na vida da criança, participando de todas as fases, ensinando, orientando, para terem a gente como exemplo e se tornarem pais melhores que a gente. Estar nos momentos bons e nos ruins, sempre junto e sempre apoiando.”

“Tem o afeto também, não dá muito para explicar o que a gente sente. Se o nosso filho está feliz, eu estou feliz, se está triste, eu estou triste. Se eles estão bem, eu estou bem, se não estão, a gente tem que entender o porquê e tentar mudar. A responsabilidade também muda e nossa felicidade passa a ser atrelada à felicidade deles. O que é uma coisa boa”, conta.

E agora Alex não é mais só o Alex, é também o pai do Adriano, do Davi e do Paulo. “Antes éramos apenas eu e minha esposa, a gente tinha uma rotina de casal, era mais desapegado, priorizava a carreira. Agora a gente é mais pé no chão, começou a se preocupar com o que não se preocupava. Não pensamos em algo só para nós, tem mais três pessoas, temos a responsabilidade por essas pessoas, pela educação, formação de vidas, pensamos no futuro deles. A gente os prepara para o mundo.”

AMOR INCONDICIONAL
Gerson Branco Abdala e Carlos Eduardo Natali Abdala têm uma relação que poucos irão entender. Pai e filho em uma sintonia pautada por sons, gestos, sinais, olhares. Hoje com 10 anos, Cadu é o filho que Gerson esperava há muito tempo e que a adoção ajudou nesta aproximação.

Na fila da adoção há pelo menos três anos, o casal resolveu colocar na ficha de inscrição a abrangência na adoção, claro com algumas exceções por conta das limitações até dentro de casa, mas quando conheceu Cadu, então com quatro anos, no Cepre da Unicamp (Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação ‘Prof. Dr. Gabriel O. S. Porto’), tudo mudou. Ele passava por tratamento por conta da surdez severa.

“Começamos a nos aproximarmos mais dele, passear, visitá-lo no abrigo onde vivia. Ele não tinha como se comunicar, apenas apontava quando queria as coisas, chorava muito, ficava bravo, enfim. Tivemos que nos adaptar. Minha vida mudou muito. Tivemos uma gravidez traumática com a perda de nossa filha e começamos a questionar se valia a pena ter mais filhos, mas a adoção nos deu um significado diferente para nossa vida”, declara.

A criação de Cadu tem sido um aprendizado diário, mas sabe que muitos desafios ainda estão por vir. “Criar um filho é o maior projeto de vida de um ser humano. O que a gente planeja, o que deseja fazer é direcionado para educação dele. Tudo muda. A rotina da casa, alimentar, educar, ver a criança crescendo, conquistas, ensinar dia a dia. Como ele é moreno de pele, mais escura do que a nossa, percebemos as pessoas resistentes em nossa volta, tendo atitudes que não imaginávamos”, lamenta.

Agora querem apenas ser um exemplo para a criança. Ser melhores para que ela se torne um adulto melhor. “Sofrer as dores juntos, sofrer as alegrias juntos, participar da vida do outro. Eu tenho uma admiração, sou fã do Cadu por ele ser o que é. Temos uma troca importante e passamos por muitos níveis de relacionamento.”


Notícias relevantes: