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‘O meu mundo azul foi ficando aos poucos cor de rosa’


Arquivo pessoal
Lucas e filha
Crédito: Arquivo pessoal

Ser pai de menina é muito mais do que oferecer proteção ou amparo. É, segundo declarações, ser amigo, parceiro, confidente, mas sem esquecer da responsabilidade de educar e proteger. Em depoimentos colhidos pelo JJ para esta edição da revista Hype, mais do que apenas genitores, homens relatam os desafios de serem pais de meninas.

A CASA DAS CINCO MULHERES
“Ter minhas filhas foi a realização do maior sonho da minha vida. Como sou pediatra, fui o primeiro a recepcioná-las na sala de parto. Só tenho a agradecer. Sou um iluminado”.

A afirmação do pediatra Cristiano Guedes, de 47 anos, mostra toda a sensibilidade de um pai ao realizar o sonho de ter filhas mulheres. Aliás, quatro! Aos 30 anos veio Isabela (16 anos), em seguida Lara (14 anos) e as gêmeas Rafaela e Júlia (10 anos). “Foi tudo planejado, mas a gêmeas vieram no susto, porque a programação era para mais uma criança”, conta Guedes.

Ele sempre quis ser pai de menina, mas nunca descartou a oportunidade de ter um filho homem. Agora, segundo ele, talvez por meio de adoção. “Desde que me conheço por gente, quis ser pai de menina e realizei meu sonho quatro vezes, mas como fiz vasectomia (procedimento cirúrgico em homens que não desejam ter filhos, sendo, portanto, um método contraceptivo) pensamos em adotar uma criança. Minhas filhas querem um menino de qualquer jeito”, diz.

CUMPLICIDADE
Em casa, a agitação é total. As cinco mulheres, incluindo a esposa, são as ‘rainhas do pedaço’, mas confessa que viver em um mundo 100% feminino é se tornar um homem melhor. “Eu fui criado por uma mulher guerreira, então fica tudo mais fácil. Já brinquei muito de boneca com elas, fazia trança e penteava o cabelo delas. Eu tenho esta vantagem de ter filhas mulheres porque elas são muito apegadas. Vivem me dando beijos, abraços, dizendo que me amam. Cuidando muito bem de mim. Ter filhas mulheres envolve comprar absorvente, ir ao show do Justin Bieber, lidar com o meu ciúmes”, conta emocionado.

Mesmo sendo meninas, com todos os seus temores e preocupações, o pediatra confessa que a relação com as filhas é de parceria. Seja para as dores ou os amores. “Somos parceiros. Para se ter uma ideia, quando as mais velhas tiveram a primeira menstruação, eu parei meu trabalho, comprei flores, chorei com elas dizendo que seriam eternamente minhas menininhas e, por fim, as orientei quanto aos cuidados sobre o que era e como seria daqui pra frente.”

Para ele, fortalecer laços é sempre demonstrar que a confiança na relação entre pai e filho deve estar em primeiro lugar, independentemente da situação. E confessa que tem feito isto com todas. “Vira e mexe eu as encubro de alguma coisa, mas conto com minhas vitórias e temores, porque vivemos em um mundo violento, em que as questões virtuais podem destruir as relações. Tento estar o mais próximo possível, mesmo trabalhando tanto. Tenho temores dos rapazes com que elas se envolverão, mas explico a importância do caráter transmitindo bons conceitos, educação e fornecendo as ferramentas para elas se tornarem boas cidadãs e boas pessoas.”

APRENDIZADO DIÁRIO
Quem também está experimentando e descobrindo o universo cor de rosa é o mecânico Lucas Delasta, de 32 anos. Pai de Lorena, de 2 anos, ele não esconde o medo de criar uma menina. Mas o desafio agora, por enquanto, é ajudá-la a se vestir. “Eu não sou muito bom em combinar as roupas, vestidinhos, sapatinhos. Para mim a coisa mais difícil é pentear e arrumar o cabelo dela, colocar os lacinhos ou xuxinhas”, brinca.

Em geral, as emoções, medos e angústias são questionadas às mães. Pouco se fala na literatura, na televisão, nas conversas em família, sobre o que se passa também no imaginário de um pai ao desvendar a paternidade. Lucas conta que se pega sentindo medo do que possa acontecer quando sua filha crescer e começar a explorar o mundo e que se emociona a cada conquista dela. “É tudo muito surpreendente. Os primeiros passos, as primeiras palavras. Fico bobo. As primeiras quedas são muito difíceis, dói mais na gente no que nela. A gente também chora por dentro e fica desesperado”.

Ele também opina que a criação de uma menina é de fato diferente se comparada à de um menino. “Por enquanto não é possível notar muitas diferenças, mas, conforme o crescimento, acredito que os cuidados na educação de uma menina sejam mais delicados e complexos do que com um filho menino. A forma como a gente orienta e prepara uma mulher para o mundo é diferente, os desafios são outros”.

PREPARANDO PARA O MUNDO
O analista de recursos humanos André Luiz de Andrade Ventura, de 45 anos, conta sobre a sua experiência ao se casar e, de quebra, ganhar duas filhas, ambas do casamento anterior da companheira.

Já pai de um menino, hoje com 25 anos, agora vive a experiência de ter uma menina de seu sangue, fruto do relacionamento.

A partir daí, começou a se aventurar em um mundo cor de rosa, repleto de descobertas e novos sentimentos. André conheceu a esposa pelas redes sociais e, após longas conversas, decidiram concretizar a união morando juntos. Ela veio de São Paulo para morar em Jundiaí. “Sempre quis ter uma menina, então, quando ganhei esse presente, foi a coisa mais maravilhosa que poderia ter acontecido, Depois de um tempo veio a mais nova, o meu grudinho”, descreve sobre como se sentiu ao ser pai de meninas.

Ele conta que suas enteadas chegaram quando ainda eram crianças. A mais velha, Ana Louisa, de 18 anos, tinha apenas 6 anos e a do meio, Ana Laura, de 11 anos, tinha sete meses. Após um tempo, veio a caçula, sua filha de sangue, Ana Clara, hoje com 4 anos.

Segundo André, apesar de serem classificadas como suas enteadas, a relação que construiu com as meninas sempre foi a de pai e filhas e, pelo fato de elas chegarem muito novas, a adaptação foi tranquila. “Nunca escondemos nada delas, sempre deixamos claro que elas têm o pai delas, o de sangue, mas que eu também estarei aqui para dar apoio e ajudá-las no que eu puder.”

Por ter filhas com idades e fases muito distintas, André conta que as experiências no momento são diferentes. “Já passei por todas as fases com minhas filhas. A mais velha já tem suas próprias vontades, mas estamos sempre de olho e dando conselhos. Já a do meio está na fase de querer fazer tudo da rebeldia e a mais nova é a briguenta, não deixa a do meio em paz e não sai do pé da mais velha”, comenta André.

O modo como cada uma se comporta às vezes merece uma atenção especial. “A forma de educar não é diferente, a educação acaba sendo a mesma para todas. É claro que às vezes acontece de uma filha precisar um pouco mais de atenção, outra um pouco menos, por exemplo, cada uma tem a sua peculiaridade e nós precisamos lidar com isso, se adequando, mas no fim das contas o carinho e amor incondicional são para as três”.

O medo é inevitável, principalmente em um mundo cercado de insegurança. Educar mulheres ainda não tem sido fácil. “Confesso que sou um pai ciumento, protetor (não ao extremo), atencioso, fico de prontidão às necessidades delas, sou carinhoso, brinco, gosto de conversar para saber o dia a dia e sempre estou demonstrando amor e preocupação. A Ana Louisa, por exemplo, quando apresentou o namorado eu fiquei enciumado, desconfiado, mas hoje já algo natural. Dormir na casa das amigas foi mais difícil, pois no mundo que vivemos não sabemos ao certo qual a índole de cada um. Eu procuro sempre respeitar as vontades e desejos delas, de modo a não ultrapassar nenhum limite que não prejudique a segurança”.

Dar o máximo de si e manter o vínculo de confiança com suas filhas é o segredo para se manter firme e ao mesmo tempo respeitoso. “Sempre deixei bem claro para elas que aconteça o que acontecer estarei sempre ao lado delas para ouvir, dar conselhos e chorar junto se for preciso. Elas podem contar sempre comigo. Algumas coisas elas realmente preferem contar para o pai, principalmente quando fazem algo errado. Mas ser pai é um sentimento e uma tarefa prazerosos. Não só em questão de suprimir com as necessidades financeiras e dar assistência, mas também o fato de estar presente e acompanhar a jornada das minhas filhas. Essa é a melhor parte de ser pai: o estar junto e ali por elas.”


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