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O Papai é Pop: Moderno, mas não popular

Em um país com 11 milhões de mães solo, Marcos Piangers escreveu um best-seller sobre paternidade e segue falando da realidade do que nem todos têm interesse


Arquivo pessoal
Marcos Piangers, Anita e Aurora
Crédito: Arquivo pessoal

Da vida real para o mercado editorial e depois para as telonas, a vida de Marcos Piangers, de 41 anos, já foi compartilhada com muitas pessoas e ensinou, emocionou e divertiu. O foco da narrativa? A paternidade. O catarinense se viu diferente depois dos nascimentos de Anita (17 anos) e Aurora (10 anos) e quis que esse ‘novo eu’ também fosse visto pelos outros. Publicou em 2015 o livro ‘O Papai é Pop’. Um ano depois veio ‘O Papai é Pop 2’. Neste ano, em agosto, chega aos cinemas o filme ‘Papai é Pop’.

Com uma visão mais individualista da paternidade, Piangers acredita que ser pai é acompanhar o crescimento dos filhos e dar suporte para que alcancem com sucesso seus objetivos. “Nossos filhos vêm com personalidades, com preferências, com desenvolvimentos, com biologias. É importante que a gente os aceite. Não temos como moldar os nossos filhos porque eles não são vasos, são árvores que crescem fortes, quando bem cuidadas e crescem para lugares que a gente jamais imaginou. Acho que ser pai é isso, é estar ali pronto para apoiar esse crescimento”, conclui.

Ele se transformou em pai de forma gradativa, mas a vontade de viver a criação das filhas era algo certo e surgiu por questões pessoais. “Primeiro, o que mudou foi um preenchimento da falta que meu pai fazia. Eu não tive meu pai biológico, então eu pude, com a chegada da Anita, minha primeira filha, ser o pai que eu sempre sonhei para mim mesmo.”

Depois, outras questões foram surgindo na transformação do ‘Marcos’ em ‘Marcos, pai da Anita e da Aurora’. “Outra coisa que mudou foi que eu virei melhor filho. Comecei a perceber de quantas coisas a minha mãe abriu mão, de quantos sonhos ela abriu mão para cuidar de mim, como é difícil cuidar de uma criança, como é desafiador, como você tem que abrir mão de tantos confortos, noites de sono, sair com os amigos para beber”.

PARCELAS IGUAIS
Para Piangers, ser presente na criação dos filhos faz parte de um todo na convivência familiar. “Existe uma tradição de homens não se relacionarem com as questões de família e casa e, consequentemente, colocarem essa responsabilidade nas costas das mulheres. Alguns homens vão dizer ‘ah, mas os homens têm a responsabilidade de ser provedores e pagar as contas’. A gente infelizmente já vive uma realidade diferente porque as mulheres hoje são quase metade da referência financeira de lares.”

E as mulheres também têm ainda salários menores. “Quase metade dos lares brasileiros são sustentados por mulheres que trabalham, mas com salários menores, têm empregos informais. Enquanto 17% das mulheres dizem que estão sem emprego porque têm filhos para cuidar, 0% dos homens têm essa justificativa. Fica bem clara essa diferença de responsabilidade.”

Marcos Piangers lembra que há 11 milhões de mães solo no país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) e que elas já têm a responsabilidade do sustento das casas e da criação dos filhos. Isso não costuma acontecer com os homens. Por conta disso, o paradigma de que algumas tarefas são reservadas apenas às mães, como falar sobre menstruação e namoro com filhas, deve ser quebrado.

“Existe uma construção que vai acabar desestruturando as famílias, colocando essa mulher numa posição de muita responsabilidade e esse homem numa posição de pouquíssima culpa, pouquíssima preocupação com relação aos filhos. Todos os assuntos são importantes que o homem lide. Não só pela criança, não só pela mulher, pela mãe, que vai ter alguém para contar, para dividir as questões de casa e filhos, mas também para o próprio homem, que se descobre um ser mais feliz, equilibrado, realizado, apaixonado, criativo, tranquilo, conectado com ele mesmo, que investe no autocuidado e no cuidado com o próximo quando se descobre pai”, comenta.

MASCULINIDADE
Para Piangers, a masculinidade preconizada na sociedade é autodestrutiva e destrutiva ao próximo. “Hoje a gente percebe que a configuração familiar mais saudável, seria a que os homens se envolvessem mais com sua prole, com a criação dos filhos, e para que as mulheres, que já estão num movimento de décadas entrando no mercado de trabalho, possam fazer essa transição de uma maneira mais suave.”

“Essa construção masculina é autodestrutiva. ‘É mais homem quem bebe mais, quem usa mais droga, quem dirige de forma mais violenta, quem empina a moto. Não só autodestrutiva, como também destrutiva das pessoas que estão ao nosso redor. Esses homens acabam sendo mais agressivos com os filhos e agressivos com as próprias esposas. É o gênero que mais mata, é o gênero que mais morre e lamentavelmente é o gênero que mais pratica suicídio”, conta ele, reforçando que a paternidade é uma excelente oportunidade de mudar isso através do amor, e não da dor.

E o cuidado envolve todos os pontos, bons e ruins, para que a paternidade seja completa. “A gente consegue se perceber como alguém que está envolvido nessa missão que é criar filhos. E é claro porque é a coisa certa a se fazer porque você também fez aquele ser. A responsabilidade não pode ser toda da mulher.”

TEMPO AO TEMPO
Sendo um papai pop, Piangers acredita que a tecnologia é desafio na criação dos filhos. “Você olha para as família do Steve Jobs e do Bill Gates, por exemplo, que são dois criadores de tecnologia, fundadores de Apple e Microsoft, os dois controlavam a tecnologia dentro de casa. Eles não permitiram que os próprios filhos usassem computador, tablet e celular porque sabem que a tecnologia é algo fantástico para produtividade, mas isso tem uma idade, como o açúcar, como o álcool, como cigarro.”

Piangers compara deixar a criança sozinha com o celular a deixá-la sozinha em uma praça e diz que não é amor dar uma tela para a criança. “A gente está sempre correndo, nunca tem tempo para nada e a gente terceiriza educação dos nossos filhos para creche, Netflix, Galinha Pintadinha, vó, babá. É claro que uma rede de apoio é muito poderosa, mas nada substitui o vínculo de um pai com seu filho, de uma mãe com seu próprio filho. Filho sente falta de vínculo.”

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