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Monstrengos passeiam pela cidade em livro

| 20/05/2014 | 16:43

O livro Monstros urbanos, de Renata Bueno, nasceu de caminhadas que a autora fazia pelo Centro de São Paulo. Um olhada aqui, uma espiada ali, e ela via em paredes rachadas, manchas de muro, trincas na calçada um par de olhos, um bocão aberto, um sorriso…

Começou a fotografar o que via e, no seu estúdio de artista gráfi ca e ilustradora, passou a interferir nas imagens. Criou um volume muito legal, da primeira à última página, em que o leitor é surpreendido com as figuras para quem a autora deu vida – e muito charme, é claro. Em entrevista por e-mail ao Jotinha, ela conta como inventou tanta beleza.

Renata, como nasceram esses monstros? Você disse no livro que eles surgiram a partir dos passeios com o seu cachorro Mentex. Mas como eles foram tomando forma, quando você primeiro deparou com algum deles?
Eu morava no centro de São Paulo, na época, no Largo do Arouche. O caminhar pelo centro pra mim sempre foi um momento de muito prazer e criação. O Mentex, sim, era meu grande companheiro. Todos os dias saía com ele e juntos dávamos muitas voltas… E foi numa dessas voltas que vi o primeiro “monstro”.

Uma mancha em uma empena que, na minha cabeça, já tinha cara, corpo… Dali pra frente… Comecei a ver “monstros” diariamente. Sempre tenho uma máquina fotográfica na bolsa (e não é a do celular). Comecei a capturá-los. Com o passar do tempo comecei a capturar também cores, buracos e manchas na cidade mesmo sem ver ainda monstro algum. Mais tarde olhava para as fotos no computador e começava e imaginar outras figuras.

Que técnicas você usou? Você fotografava e, depois, fazia o quê? Que tipo de interferência você adotou?
As fotos originais são todas digitais. Ou seja, elas só foram impressas na versão dos monstros finais, já no livro. Eu tirei mais de 400 fotos e todas transformei em “monstros”. Algumas não precisei fazer um risco sequer. O monstro já estava ali. Mas era sempre no computador que as interferências eram feitas. Usei uma mesinha eletrônica para desenhar e com ela colocava uma boca aqui, olhos, um braço…

Você adotou alguma regra para mexer nas imagens?
Essa coisa de colocar regras pra mim mesma é uma mania minha. Quase sempre faço isso. Defino algumas coisas na hora que começo a fazer um projeto e normalmente vou até o fim com elas! No caso do “Monstros Urbanos”, a regra era assim: não posso “cortar” nem distorcer, nem mudar a cor de nenhuma foto da cidade. Minhas intervenções são sobre a foto, com novas linhas, manchas… O que for preciso para o monstro nascer.

Os seus monstros são simpáticos, bonitos, não metem medo. Parecem companheiros, amigos (daqueles que se mantêm afastados, mas que, com o olhar, pedem para participar da brincadeira). Eles são amistosos mesmo? E se são ‘do bem’, o que você quis sugerir com o título ‘monstros’?
Monstros pra mim não são sempre malvados, não. São figuras fantásticas e estranhas. Mas monstros me atraem. Acho que o centro de São Paulo é um pouco monstruoso também, com sujeiras, prédios abandonados, buracos, manchas. Mas também adoro descobrir cada surpresa que o centro tem. Assim meus monstros são figuras que misturam uma sensação de susto, nojo e ao mesmo tempo encantamento e descoberta.

O que você mais notou na cidade? O abandono, o descaso, o descuido? Ou o contrário disso: o inusitado, a poesia no inesperado, a beleza escondida?
Pra mim a cidade é uma mistura disso tudo. Abandono, descaso, descuido… com poesia, inesperado, beleza escondida. É preciso estar atento e sensível para descobrir suas marcas e se emocionar com elas. Mas é preciso também estar atento e se indignar com certas coisas que acontecem por aí.

Pelo seu livro, dá pra perceber que a cidade guarda algumas surpresas. O que é preciso fazer para descobri-las?
Acho que as crianças descobrem com muita facilidade. Ficar perto de uma delas ajuda… Olhar sem preconceitos. Olhar com se fosse a primeira vez.

Qual a sua sugestão para quem estiver a fi m de encontrar outros monstros na cidade? Dá para seguir os seus passos, Renata, e tentar flagrá-los em outros cenários?
Meu conselho é que veja o livro com calma, atenção a cada detalhe e se inspire! Pode ver monstros ou não, mas olhe o mundo que o cerca com um olhar cuidadoso. Caminhe! Passeie pela sua cidade e admire cada cantinho, cada recorte no céu… Tente descobrir cada cor pintada pelo tempo… Divirta-se e encontre seus próprios ‘Monstros Urbanos’!

Monstros urbanos
de Renata Bueno
64 páginas
Capa dura
Editora Martins Fontes
Preço sugerido: R$ 49,80.

Renata Bueno é arquiteta de formação e artista criativa por vocação. Desenha, escreve, ilustra, inventa e, em meio a tudo isso, coleciona papéis antigos, embalagens de chã, pedras, pinhas, sementes… Ela faz diversas coisas ao mesmo tempo, e diz que uma alimenta a outra. Gosta de livros, de visitar exposições, de conversar com os amigos. Com o filho Tomás, curte muito ler textos e imagens. Já morou no Centro de São Paulo, mas hoje vive na Serra da Cantareira, área verde da capital paulista.


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