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18 km por dia garantem sustento das famílias

COLABORAÇÃO DE MARIANA CHECONI | 29/06/2019 | 05:00

Quem observa os jovens garotos vendendo amendoins e doces no semáforo percebe que eles se esforçam muito para colocar os pacotinhos nos espelhos dos carros e em questão de segundos retirá-los para não perder toda a mercadoria. O que as pessoas não imaginam é a rotina que eles enfrentam para conseguir o sustento de cada dia.

Em Jundiaí, faça sol ou faça chuva, os ambulantes estão em um importante cruzamento da cidade. Fazendo uma conta rápida, os vendedores chegam às 10h e trabalham até às 17h. Nesse cruzamento, o semáforo fica fechado cerca de um minuto. Cada um deles corre cerca de 100 metros por minuto. Descontando uma hora de almoço e aplicando uma margem de erro, eles trabalham seis horas por dia, de segunda à sábado. O equivalente a cerca de 18km de corrida por dia. Tudo isso sem uma preparação física, hidratação e alimentação correta e muito menos equipamento adequado, visto que eles correm com chinelos nos pés, sem nenhum tipo de proteção.

Apesar do número, os garotos não percebem o quanto correm. Sabem que é bastante, mas precisam garantir o alimento da família. A dupla Edson José Nunes de Lima, 27 anos, e Jhony Caldas Francisco, 26, dividem os semáforos do cruzamento com outros quatro meninos. “Nós vamos revezando durante o dia para ser justo com todos, dependendo da quantidade de carros que passa”, explica Edson. Ele e Jhony moram em Francisco Morato e todos os dias viajam até Jundiaí para vender a mercadoria. Ambos tem filhos e garantem a renda da família com o dinheiro das vendas. “Eu tenho um filho, o Jhony tem dois.

A gente vem para cá, compra os doces e vende. É assim que conseguimos levar comida para casa. Não conseguimos emprego. Até agora ninguém deu uma oportunidade para a gente. Faz dois anos que eu trabalho aqui”, conta Edson.

Além de toda a dificuldade, enfrentam diariamente o preconceito. É só passar alguns minutos acompanhando o trabalho que ouvimos diversas pessoas gritando de dentro dos carros “vai trabalhar”. Para a dupla, é uma situação chata, já que o que eles fazem ali é um trabalho. “Não temos carteira assinada e não é um trabalho regularizado, mas é honesto. É um trabalho duro para conseguir ajudar na renda em casa”, afirma Jhony.

Riscos à saúde
A rotina dos garotos não é saudável. Para o educador físico Caio Preto, a quantidade de quilômetros que eles correm sem a preparação necessária traz sérios riscos à saúde. “Correr sem o calçado adequado pode gerar diversos problemas na coluna. Além disso, com sol forte, o risco de graves queimaduras e indisposição é grande. Sem contar que provavelmente, eles não se alimentam e se hidratam corretamente, já que ficam o dia inteiro na rua. Outro fator que ocasiona sérios problemas“, afirma. Baseado nesta conta, Caio avalia que os vendedores correm mais que um atleta. “Os 18km que esses meninos correm é comum aos atletas, que se preparam para isso. Para usar de parâmetros, meia maratona equivale a 21km. Quem corre esse tanto, se prepara durante semanas para alcançar o objetivo. A vida desses jovens é muito pesada para alguém que não é atleta”, avalia.

“A gente vem para cá, compra os doces e vende. É assim que conseguimos levar comida para casa”, conta Jhony

No semáforo, Edson corre em busca de vendas: sem preparação física, hidratação ou equipamentos adequados


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