Jundiaí

Gordofobia não pode ser levada na brincadeira


Arquivo pessoal
Alexia Soares sofreu gordofobia no trabalho
Crédito: Arquivo pessoal

No último dia 11, Alexia Camile Bueno Soares, de 23 anos, atendente de uma farmácia em Jundiaí, foi ofendida por uma cliente que desejava fazer a troca de um produto, mas estava sem máscara. Na ocasião, ela foi chamada de ‘gorda inútil e incompetente’ e se sentiu ofendida pelas ofensas ao seu corpo, que caracterizaram a gordofobia.

Já registrada no dicionário, a palavra diz respeito a aversão à pessoas gordas que se efetiva pelo preconceito, intolerância ou pela exclusão dessas pessoas. E para quem sofre este tipo de ofensa, o assunto não é brincadeira. “Eu acredito que a cliente estava desequilibrada, mas nada justifica humilhar as pessoas. Eu fiquei muito mal na hora e tive vontade de ir embora. Acho até que se a outra cliente não tivesse intervindo, ela tinha me agredido”, diz Alexia sobre a agressão física que uma outra cliente sofreu ao questionar a atitude da moça que ofendeu a atendente.

Com a repercussão do caso, Alexia espera que haja punição. “Espero que as pessoas tenham mais consciência e respeito com o próximo. Trabalho com o público desde os meus 15 anos e já aconteceram várias coisas. A gente vai ficando quieta com o tempo, mas dessa vez eu pensei que não deveria ficar quieta, porque, como ela fez comigo, pode fazer com outra pessoa”, lamenta.

A estudante e influenciadora digital Jéssica Della Roza, de 23 anos, conta que a intolerância existe faz tempo, mas agora há mais debate sobre o tema nas redes sociais. “O preconceito sempre existiu. A minha vida inteira eu sofri esse preconceito. Eu nunca fui magra e na minha infância eu era xingada, apanhava na escola só por ser gorda. Só que agora, com as redes sociais, a gente pode falar sobre e discutir isso. Com o celular é mais fácil denunciar.”

Jéssica sofreu gordofobia desde a infância

Ela lamenta que exista um padrão de beleza estabelecido. “Vivemos em uma sociedade em que existe um padrão de beleza e todo corpo que não se encaixa nele sofre ofensas por causa disso, principalmente nas redes sociais. Quando uma pessoa é gorda e se sente bem, ela é atacada. As pessoas ridicularizam o corpo que não está no padrão”, conta Jéssica.

DIREITOS
A psicóloga e psicanalista Daisy Lino explica que a gordofobia, assim como outros preconceitos, surge da aversão ao que é diferente. “Qualquer coisa diferente é execrada. A sociedade é extremamente narcisista, dita padrões, o que for contra, será execrado. Um corpo que não está padronizado mostra que não existe o adequado, que não existe ‘controle’. Uma pessoa feliz com o corpo que tem mostra que não há corpo ideal. Esse corpo mostra que o controle é mentira, que nós não podemos controlar as coisas e evidencia a vulnerabilidade que temos, por isso a pessoa age com preconceito”, explica.

Para a advogada e professora de direito, Juliana Gennarini, o caso de gordofobia sofrido por Alexia é crime. “Dois delitos podem ser trabalhados neste caso. São o crime de difamação e injúria, ambos contra a honra. E também pode-se pedir indenização por dano moral. Chamar alguém de ‘idiota’, ‘imbecil’, ofende e isto acontece com a gordofobia. Injúria é um crime que ela pode fazer o termo circunstanciado e entrar com uma ação penal. A pena é de 1 a 6 meses ou multa, depende da circunstância, da individualidade de cada caso.”

Juliana diz ainda que falta mobilização contra este tipo de crime. “Eu, como gordinha, vejo que só há reflexões sobre isso quando há este tipo de caso. A gente também precisa parar com o estigma de que pessoas são gordas por preguiça ou têm problema de saúde. É preciso refletir, como refletimos com a homofobia, temos muito a avançar, a discussão ainda está em gestação.”


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