Jundiaí

Gravidez tardia é uma opção mais comum na modernidade

O mundo contemporâneo tem permitido que as mulheres rompam as barreiras sociais e médicas em relação à reprodução


Alexandre Martins
Maternidade após os 40 anos
Crédito: Alexandre Martins

O mundo contemporâneo tem permitido que as mulheres rompam as barreiras sociais e médicas em relação à reprodução. De 2008 a 2018, o número de mulheres que tiveram filhos depois do 40 anos no Brasil aumentou 30% e, graças a políticas públicas, menos adolescentes deram a luz, com queda de 25%. Na gravidez tardia, as mulheres buscam segurança financeira a preparo emocional.

Ainda assim, esse retardo na gravidez traz preocupações, pois depois dos 40 anos os óvulos estão mais velhos e há uma propensão ao risco de aborto espontâneo e anomalias ao nascimento. A mulher também possui mais chance de ter pressão alta, diabetes ou outras doenças que agravam ainda mais o risco da gestação. Entretanto, enquanto a mulher tiver óvulos, a gravidez pode acontecer.

No caso da analista financeira Sheyla Cordeiro, que deu a luz há quase três meses, aos 42 anos, já não havia esperança em engravidar, até que a Bettina chegou. “Quando eu tinha de 35 a 38 anos, eu gostaria de engravidar, porque eu estava em um relacionamento. Mas depois fui desanimando, o trabalho exige muito, a rotina é corrida. Aos 40 eu já não esperava mais engravidar, apesar de a esperança ainda não ter acabado”, diz ela, por estar mais focada na estabilidade financeira.

Mas, mesmo sem planejar, em setembro do ano passado, Sheyla recebeu a notícia de que estava grávida. “Eu sempre pedia a Deus que me mandasse um filho no momento certo e acho que aconteceu. No início da gravidez eu fiquei apreensiva, mas tive um gestação tranquila e eu posso falar hoje que é a coisa mais maravilhosa da minha vida”, diz ela, mesmo tendo algumas dificuldades por ser mãe de primeira viagem.

Sobre a experiência da maternidade tardia, Sheyla diz que é boa. “Nos meus 20, 30 anos eu era mais agitada e tinha muita liberdade. De uns tempos para cá, os amigos que saíam juntos vão casando e você já não sai tanto. Hoje eu renasci com a minha filha. Foi ótimo e talvez com 30 eu ficasse pensando que deixaria de fazer isso ou aquilo, porque o cuidado com bebê é 24 horas”, diz ela.

No entanto, Sheyla que sempre prezou pela colocação profissional, teme o retorno ao trabalho sendo mãe. “Eu penso em trabalhar para dar tudo a minha filha e penso se vai haver desvalorização profissional após a licença-maternidade, pois já vi isso acontecer. Não raro, há demissão.”

Com a dona de casa Ângela Franca, de 46 anos, mãe da Maria Isabella, a gravidez tardia também foi uma mudança de vida, mesmo depois de um tempo sem pensar em filhos. “Eu engravidei com 41 e, quando ela nasceu, tinha 42. Eu trabalhava na época e ouvi muitas coisas sobre o perigo, mas não tive problema na gestação. Tem o tabu de não poder engravidar depois dos 40. Tive uma depressão pós-parto que durou dois meses, porque eu me vi no mundo fechado, tinha medo de não saber cuidar, mas estou realizada e o pai dela também.”

Ângela analisa hoje a benesse de ter engravidado mais tarde. “Quando eu era mais nova, eu falava que não queria ter filhos. Aí eu conheci o meu marido e decidimos ter a Maria. Acho que foi bom engravidar depois dos 40, aproveitei bastante, saía muito. Hoje eu cuido só dela, talvez mais nova eu precisasse trabalhar. E via que muitas mães não acompanharam o crescimento dos filhos porque não podia cuidar, delegando a atenção para a babá.”

Ângela conta que toda a família também esperou muito pelo nascimento de sua filha. “Ela foi muito desejada por todos e eu penso em viver o hoje. A gente pratica muito esporte para ter pique para ela”, diz a dona de casa sobre cuidar da filha aos 46.

Mas ela diz que precisou ter cuidados por conta da idade. “Eu trabalhei até os últimos dias e fiz cesária por causa da pressão. Mas antes eu fiz exames e meu marido também porque ele já tinha 50 anos, mas não havia problema. Hoje o médico até pergunta se a gente quer ter mais um filho”, conta ela rindo.



TOCOFOBIA
O nome é estranho e muitas pessoas podem não conhecer o medo extremo que algumas mulheres podem ter de engravidar e dar a luz, a tocofobia. Este medo pode ser o motivo para que muitas mulheres optem por não engravidar ou para que retardem a gravidez até que sintam a superação da fobia. A psiquiatra e psicanalista Marta Úrsula Lambrecht explica que o medo pode se originar ainda na primeira infância.

“A pessoa pode ter um vínculo primário conflituoso com a própria mãe. Isso pode comprometer o desejo da mulher ter filhos e deslocar os conflitos que tinha com a mãe para a relação que terá com o filho. Tem muito essa questão e é maior do que a responsabilidade e a questão financeira. As mulheres continuam tendo filhos, menos do que há anos atrás”, conta Marta.

A psiquiatra diz que a gravidez tardia pode estar relacionada à sociedade em que vivemos, já que a mulher deseja engravidar, mas adia para alcançar estabilidade. “Gravidez tardia é sobre o desenvolvimento profissional da mulher. Ela pensa primeiro em ter uma carreira, então ela estuda, se forma e busca uma posição profissional antes de querer ter um bebê.”


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