Jundiaí

Jovens têm de se preparar para trabalhos que ainda não existem

Os índices de desemprego impactam mais os jovens.


Alexandre Martins
Tiago Caputo procura um estágio, mas tem dificuldade para conseguir a vaga pretendida por conta da pandemia
Crédito: Alexandre Martins

O cenário para jovens que buscam trabalho no mundo atual não é dos mais fáceis. As revoluções industriais que chegaram ao longo da história sempre trouxeram a necessidade de renovação do conhecimento. Agora, na revolução em que vivemos, com a inteligência artificial, há a necessidade da tecnologia para diversas profissões. As próximas gerações que entrarem no mercado de trabalho terão necessariamente de estar conectadas à realidade virtual.

Atualmente, há no Brasil cerca de 212 milhões de pessoas, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Destas, 16% têm entre 15 e 24 anos e 25% têm entre 25 e 39 anos. Já os índices de desemprego do segundo trimestre deste ano apontam que, na faixa etária de 14 a 24 anos, 35,5% estão desocupados, e entre 25 e 39 anos, 35,3% não têm trabalho. Ou seja, analisando o número de pessoas em cada faixa etária, mesmo que a quantidade de desempregados seja maior entre os adultos, os índices de desemprego impactam mais os jovens.

Um destes jovens que procuram emprego é Tiago Caputo, de 22 anos. Ele cursa o terceiro ano de administração, faltando ainda um ano para a conclusão do curso. “Estou procurando emprego há um ano e três meses. No momento, preciso de um estágio na área de recursos humanos, que está relacionada com administração. Acredito que está mais difícil conseguir emprego, devido à estagnação da economia e da diminuição de certas demandas”, explica.

Ele pensa que no início da pandemia era ainda mais difícil conseguir emprego, mas agora “as empresas conseguiram se adaptar para que pudessem oferecer vagas em home office. Acredito que hoje, mais do que nunca, cada um deve continuar se aperfeiçoando para ser destaque no mercado, então não acho que a geração é prejudicada, mas sim mais competitiva que outras”, diz ele sobre o alto desemprego para os jovens.

Já sobre a tendência de precarização dos trabalhos e dificuldade para consegui-los, Tiago acha que a situação ainda não é completamente ruim. “Depende da maneira que a oferta dessas vagas é feita. Acredito que a disputa de vagas mais difíceis deve crescer, pois, neste período, muitos estão buscando uma melhor qualificação e até rejeitando vagas de menor interesse”, explica.

MERCADO
Segundo a gerente comercial Kátia Rossi Rocha, a qualificação é, de fato, o que faz com que os jovens não cheguem às vagas. “Hoje o pessoal não tem qualificação e o mercado exige tudo, mas muitos jovens estão estabilizados e não querem estudar. As empresas, até para o trabalho mais braçal, exigem ensino fundamental e médio. Com as empresas adotando ISO 9001 e ISO 14000 eles pedem um grau de instrução mínimo que é o ensino médio”, diz ela sobre os selos de qualidade que empresas obtêm seguindo normas de gestão.

Kátia também diz que a educação de hoje deixa a desejar e não prepara os jovens para o mercado de trabalho. “Os currículos vêm muito ruins, eles não sabem escrever. Quem tem ensino médio completo não sabe fazer uma redação com início, meio e fim. Tem quem não saiba quem é o presidente do Brasil, o que é antônimo e sinônimo. Hoje a educação não é boa.”

A Unidade de Gestão de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia (UGDECT) de Jundiaí destaca que, quando se trata de funções técnicas com especialidades em níveis de chefias e gerenciais, a exigência de experiência comprovada é certa. Nas funções de assistentes, ajudantes, auxiliares e correlatos, normalmente não se exige experiência.

A UGDECT diz ainda que o mercado de trabalho é dinâmico e quando há demanda por mão de obra os resultados têm que atender às necessidades imediatas do empregador. Isso faz com que haja mais oportunidades aos que detêm experiência anterior. A UGDECT informa também que o cenário econômico já estava retraído e se agravou com a pandemia. Porém, com a injeção de recursos através do auxílio emergencial, houve um pequeno aquecimento.

FUTURO

A chefe da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL) da ONU, Alicia Bárcena, diz que 65% de todas as crianças do planeta que entram hoje na escola primária terão empregos que ainda não existem. “Precisamos ajudar os jovens a compreender as novas tecnologias porque muitos empregos que existem hoje não existirão no futuro. Estamos preparando pessoas para trabalhos que não existirão mais”, alertou Bárcena.

Esta tendência é uma realidade. Segundo Kátia, o futuro exigirá especialização. “Essas vagas de tecnologia têm cada vez menos mão de obra especializada. Tenho vaga de projetista que não conseguimos preencher. Com certeza existem vagas de emprego, mas falta especialização nos jovens”, diz ela.
Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), medicina, direito, engenharia, pedagogia e licenciaturas estão entre as carreiras mais procuradas por estudantes de 15 anos em 41 países. No Brasil, quase dois a cada três estudantes pretendem seguir as dez profissões mais citadas no questionário do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2018.

A última pesquisa foi realizada em 2000 e há uma tendência de crescimento de interesse por profissões como engenharia e arquitetura. O estudo analisou também os riscos de as profissões escolhidas pelos estudantes desaparecerem por conta da automação. Mas, de acordo com o estudo, a maioria das carreiras mais populares entre os jovens, como profissionais de saúde e sociais, culturais e legais, tende a ter baixo risco de automação.


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