Jundiaí

Com alta no índice de insegurança alimentar, o fantasma da fome volta a circular no Brasil

Índices mostram que o país voltou, em 15 anos, a ter mais gente sem certeza de alimentação


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Conseguir comprar alimentos é um desafio para muitas pessoas no país
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O Instituto Brasileiro de Geografia (IBGE) divulgou na última quinta-feira (17) os resultados da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018 intitulado ‘Análise da Segurança Alimentar no Brasil’. O levantamento aponta que dos 68,9 milhões de domicílios no Brasil, cerca de 25 milhões, ou 36,7%, tinham algum grau de insegurança alimentar no período da pesquisa. O maior índice em 15 anos.

A Insegurança Alimentar (IA) nas residências pesquisadas varia entre leve, sendo 24% do total (quando há preocupação com o acesso aos alimentos no futuro e já se verifica comprometimento da qualidade da alimentação); moderada, 8,1% (quando, na casa, em especial os adultos, passaram a conviver com restrição na quantidade de alimentos); e grave, com 4,6% (significa que os padrões de alimentação mudaram por conta da falta de alimentos para todos da residência, incluindo as crianças, ou seja, há fome).

Para o jurista Walter Celeste, a questão da segurança alimentar é discutida há algum tempo no Brasil, desde que o Bolsonaro decidiu aumentar o uso de agrotóxicos porque tem a ver com qualidade do alimento. “Com o discurso do presidente hoje (ontem) na ONU, sabemos que o Brasil está sendo monitorado porque há descaso com tratados assinados pelo país. Este governo é paradoxal, porque ele tenta favorecer o agronegócio, mas este rebaixamento afeta a economia”, explica.

Walter ainda diz que a pandemia pode agravar a situação observada na pesquisa em 2017 e 2018. “Com a pandemia piora muito. A situação é consequência da crise política que a gente vem passando. Em Jundiaí, acho que não vejo problema porque não faz parte desse mapa alimentar, mas há pobreza. A insegurança alimentar é algo complexo. É um ponto de convergência de direitos sociais e, se o país está mal, a região se prejudica também.”

Quem percebe a mudança são as donas de casa e quem, de fato, vai às compras semanalmente. A aposentada Maria Helena Massucato diz que percebe, ao longo do tempo, que a fome diminuiu, mas infelizmente voltou. “No tempo do meu pai era mais difícil para comer. Não tinha carne, só quando algum vizinho matava um porco. Teve um época boa porque tinha emprego, mas hoje não tem mais. Para quem não se aposentou, não vai se aposentar mais e está cada vez pior. Acho que está voltando a ficar ruim”, conta ela sobre o desemprego alto e as condições mais rígidas para a aposentadoria.

A psicóloga Nilvone Ramos Bueno de Miranda diz que não tem dificuldade, mas vê que no Brasil as pessoas lutam pela alimentação. “A gente se conforma com muito pouco. As pessoas teriam o direito a mais, até as mais pobres, mas se conformam. Acho que o brasileiro está inseguro, mas principalmente as mulheres. Elas são guerreiras e não deixam o filho passar fome. Nós temos medo de outras coisas porque o povo não é valorizado. Aqui meia dúzia de empresários só que são valorizados”, comenta ela.

A aposentada Ester Sivi não tem dificuldades para adquiri alimentos e não percebe tanta diferença nos último anos, mas sentiu diferença durante a pandemia. “Acho que a situação está mais crítica atualmente, dizem que a culpa é da pandemia. Não sei se é mesmo, só sei que tudo está mais caro”, conta ela.

Ester Sivi percebe a piora dos preços de alimentos na pandemia

MUDANÇAS

O advogado, doutorando e professor em teoria do direito e economia política, Douglas Elmauer, diz que o mundo, sobretudo o Brasil, conquistou uma certa autossuficiência em relação à produção de alimentos em meados da década de 1980. “Não vai faltar alimento no Brasil. O que pode ser esperado, inclusive Jundiaí, é que os preços de alguns alimentos continuem a subir. Eu acredito que entre esse ano e o ano que vem vai ser uma coisa muito comum”, diz ele sobre a inflação dos alimentos.

No entanto, o pesquisador acredita que a alta produção de alimentos não permitirá a escassez. “Tendo em vista o potencial do Brasil e a produtividade da agricultura brasileira, da pecuária e de commodities e a abertura desse mercado agro, que é muito globalizado, dificilmente teremos escassez de alimentos no Brasil”, afirma.

A Insegurança Alimentar (IA) diminui com o aumento da idade. Na faixa etária entre 5 e 17 anos, 50,7% vivem sob algum tipo de insegurança. A menor proporção de pessoas vivendo sob algum tipo de insegurança são as mais velhas, com mais de 65 anos.


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