Jundiaí

A rotina é dura e a segurança é nula: o dia a dia dos motoboys

ENTREGAS Durante a pandemia, a quantidade de entregas aumentou, assim como a de motoboys, mas a correria é necessária para fazer o sustento


ALEXANDRE MARTINS
Sérgio Batista perdeu o emprego e começou a fazer entregas, mas deseja abrir o próprio negócio
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Eles são responsáveis por uma parte expressiva da sinfonia do trânsito, com escapamentos e buzinas, e por uma função que já era demandada, mas teve, na pandemia, um salto. Os motoboys levam a quem não quer ou não pode sair de casa o que precisar. Comidas, bebidas, roupas, remédios, documentos, entre outros, seja debaixo de chuva ou de sol.

Segundo dados da Mobills, empresa de gestão de finanças pessoais, entre janeiro e maio, as vendas de comida por delivery quase dobraram em relação ao mesmo período do ano passado. Dados de mais de 160 mil usuários mostram que os gastos com os principais aplicativos de entregas, Rappi, Ifood e Uber Eats, cresceram 94,67% nestes primeiros cinco meses do ano.

Um serviço que pede pressa, já que a maior parte deles costuma ganhar por cada entrega realizada. E a pressa do trânsito também é a de chegar em casa, no final do dia, em segurança. Coisa que nem sempre acontece. Segundo o Infosiga, plataforma estadual de dados sobre acidentes de trânsito, em Jundiaí, a maior parte dos óbitos em acidentes é de motociclistas.

VAI E VEM

"Minha família se preocupa porque é uma profissão de risco. Quando tem promoção, quanto mais rápido você vai, mais você entrega e ganha. Em Jundiaí, o pessoal não dá muita seta, tem que tomar muito cuidado. Trabalho para aplicativo e eles não te dão um apoio se acontece algo. Já sofri dois acidentes", diz Rayan Magão, de 20 anos, há mais de um como motoboy.

Ele diz que os ganhos nas ruas são bons, mas a quantidade de horas trabalhadas precisam ser altas. "Em um dia bom, eu consigo tirar R$ 150 por dia, trabalhando das 10h30 às 22h. Tem semana que eu trabalho todo dia e de domingo vou para São Paulo porque vale a pena, lá eu consigo ganhar mais. Trabalhava em uma empresa, mas estou preferindo ser motoboy. Eu ganhava R$ 1800 na carteira e tirava R$ 1500 na mão. Tem semana boa que eu faço isso. Se colocar todos os benefícios, o salário fica igual, mas aqui eu ganho mais dinheiro bruto", conta ele.

Ainda assim, Rayan admite que o trabalho de entregador é algo temporário. "É ruim não ter a segurança da empresa. Se eu sofrer um acidente, ninguém vai trabalhar por mim. Teve uma época que o meu aplicativo parou de tocar e diminuiu bastante o meu rendimento. Já aconteceu de eu entregar em São Paulo e o cliente falar que não recebeu. Fiquei bloqueado 48h sem poder trabalhar. Pretendo fazer meu pé de meia com o valor que eu conseguir, dar entrada em um carro e uma casa, depois fico num lugar mais estável."

E Rayan, que já faz um curso superior, ainda pensa em se especializar mais. "Quero começar psicologia, estou quase formado em RH. Na pandemia o fluxo aumentou, principalmente de mercado, mas agora as pessoas estão saindo mais, indo para restaurante, então está diminuindo."

Mesmo com a concorrência, ele diz que os motoboys sempre se ajudam. "Os motoboys se conhecem, você encontra em todo lugar. Muitas vezes, quando a gente vê alguém com o pneu furado, para para ajudar. Os motoboys são muito unidos."

Também esperando o aplicativo o chamar para o serviço, Sérgio Batista, de 43 anos, é motoboy há cerca de 3 meses. "Antes eu trabalhava em um estacionamento. Comecei porque fiquei desempregado, mas isso é um bico, não vivo disso, é um ganho a mais. Estou recebendo o seguro-desemprego ainda. Estou querendo abrir alguma coisa para mim, estou juntando dinheiro e pretendo abrir um estacionamento, trabalhei mais de 20 anos em estacionamento", conta ele.

Sobre a dinâmica do dia a dia no trabalho, Sérgio conta que os ganhos costumam ser bons, mas há uma sazonalidade. "Tem motoboy fixo e tem nuvem, que é quem faz aplicativo, trabalha igual táxi, quando precisa, vai. Eu sou nuvem. Tem dia que é bom e tem dia ruim. Na chuva é melhor, ganha mais, mas você pode sair e fazer R$ 20, R$ 30 ou R$ 150, depende do dia. Não tenho horário certo, normalmente ligo o aplicativo 11h e trabalho até as 22h, é o horário que eu gosto de fazer."

"O lado bom é eu trabalhar a hora que eu quiser, e quando o dia é bom você tira um dinheiro bom, mais do que trabalhando para os outros, mas tem que trabalhar e tem que gostar de ficar na moto o dia todo, no trânsito, chuva, sol. A gente se sente mais livre e eu gosto de trabalhar com o público. Não me vejo trancado em uma empresa o dia todo fazendo as mesmas coisas", conta.

Ele admite que, além da carga horária alta, também há riscos. "Moro no Centro, então não fico sem comer, mas tem gente que mora longe e não traz marmita, fica com fome. Minha esposa e meus filhos se preocupam, tenho um casal. E corre risco, nosso pior risco é o trânsito mesmo. Graças a Deus nunca aconteceu nada comigo", fala ele sobre não ter se acidentado na profissão que exerce há pouco tempo, mas sabe que o perigo do trânsito é rotineiro.


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