Jundiaí

COLUNA DO MARTINELLI: Finados e reflexões sobre a morte


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ABERTURA ANO ACADEMICO DA ACADEMIA JUNDIAIENSE DE LETRAS JOAO CARLOS JOSE MARTINELLI
Crédito: divulgação

“Ando um pouco de banda/ é que carrego meus mortos comigo” (Carlos Drummond de Andrade). Amanhã é o Dia de Finados, celebração que deveria motivar uma natural reverência aos entes queridos já ingressados no reino onde se findam todos os mistérios, como ressaltou o consagrado poeta. No entanto, costumamos a nos afastar de qualquer aspecto relacionado à nossa transitoriedade neste mundo, mesmo cientes da grande verdade: a morte faz parte da vida.

Tal desprezo se prende ao fato de que grande parte da sociedade, seja por interesses de ordem política, social ou econômica, seja por manifesto egoísmo ou insensibilidade, imunizou-se em relação aos seus efeitos. Efetivamente, ela se constitui num antídoto contra a alienação humana, uma denúncia violenta contra as ilusões e a busca de bens passageiros, propiciando a concepção de nossa finitude. Uma realidade concreta que faz parte indivisível da existência.

O que se observa hoje infelizmente é uma manifesta tendência de sua vulgarização e de inversão de padrões e preceitos, predominando um clima de indiferença e de relações individuais, onde os sujeitos passam a tratar os próximos como objetos. A máxima “rei morto, rei posto” vem se acentuado a cada dia e a preocupação básica das pessoas se volta exclusivamente ao apego e à ganância. Ignora-se quase totalmente a questão da efemeridade – um descaso injustificável, já que ela é absolutamente certa, embora insistamos em despistar esse acerto.

A solidez dessa situação, com um pouco de extremo, foi captada pelo consagrado poeta Jorge Luís Borges: “Há um verso de Verlaine, que nunca voltarei a recordar./ Há uma rua, próxima, que está vedada aos meus passos./ Há um espelho, que refletiu minha imagem pela última vez./ Há uma porta, que fechei até o fim do mundo./ Entre os livros de minha biblioteca (eu os vejo)./ Há alguns, que jamais abrirei de novo;/ Neste verão, farei cinquenta anos/ A morte me desgasta incessante...”.

E o pior: somos expostos a ela todos os dias das formas drásticas e mais violentas, através da mídia e de nosso entorno, mas ao mesmo tempo, esse processo de banalização permite que não nos confrontemos com o limite de nossa permanência na Terra. A morte é sempre a dos outros, ela fica longe da nossa realidade, nos bastidores. Isso tudo, resultado do domínio e predomínio do econômico e material na convivência social, em detrimento dos valores éticos, morais e espirituais. Tais constatações nos levam à triste conclusão de que a solidariedade está se exaurindo no ser humano, tanto na vida – Dom maior de Deus -, como no final desta.

Por isso, precisamos reverter o quadro sombrio que nos assola, revendo as posições assumidas diante do período de convivência terrestre e resgatando a ameaçada estrutura humanista. A efetivação deste último objetivo inclui a busca do bem comum, do pleno respeito à dignidade humana e da garantia dos direitos que daí decorre. A morte realmente é uma circunstância normal do ciclo vital, que não devemos temer, ao contrário, necessitamos acolhê-la com serenidade, requerendo-se para tanto, empenho no progresso de conversão pessoal e no testemunho de realizações fraternas e solidárias. E não adianta recusarmos a sua ocorrência, nem tentar desmistificá-la, pois a nossa passagem por este planeta é breve e exata.

DIA DA CULTURA

Em homenagem a uma das mais brilhantes figuras brasileiras, RUI BARBOSA, comemora-se na próxima quarta-feira, 05 de novembro, data de seu nascimento, em 1849, na cidade de Salvador, Bahia, o DIA NACIONAL DA CULTURA, uma celebração de grande importância e que nos convida a uma reflexão sobre a questão cultural em nosso país. Desta forma, a sabedoria - concepção justa do sentido da vida - proporciona uma ideia geral do mundo, de Deus, do bem e do mal, da ciência, do homem, do conhecimento e da comunidade. Estas realidades deveriam ser mais desenvolvidas nos cidadãos, principalmente nos jovens, preparando melhor sua personalidade social através da consciência de valores, do cultivo da autonomia crítica e do sentido de responsabilidade, condições estas indispensáveis para o exercício da liberdade e da democracia.

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI é advogado, jornalista, escritor e professor universitário. É ex-presidente das Academias Jundiaienses de Letras e de Letras Jurídicas. Tem oito livros individuais e participou de mais de cem obras coletivas ([email protected])


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