Jundiaí

Trabalhadores do transporte escolar fazem bicos para sobreviver

ALTERNATIVAS Dependendo do funcionamento das escolas, os trabalhadores do transporte escolar precisam desenvolver outros ofícios para sobreviver agora


ARQUIVO PESSOAL
Thais Oliveira Micheletti precisou começar as entregas para ter renda
Crédito: ARQUIVO PESSOAL

A pandemia trouxe a suspensão das aulas, o fechamento das escolas e o desespero dos transportadores escolares, que, por serem autônomos, sem vínculo empregatício, precisam encontrar serviços informais alternativos. Eles estão sem transportar crianças desde março, quando as aulas presenciais de escolas e faculdades foram suspensas. Mas, por outro lado, não houve a interrupção de contas pagas por estes profissionais e a maioria deles não consegue receber o auxílio emergencial, pois pagam imposto de renda. O que resta aos transportadores escolares são os bicos, para que haja sustento.

Isto foi o que aconteceu com José Luís Sgardi, de 45 anos, que transporta crianças há 22. "Trabalho de marido de aluguel, pedreiro, faço artesanato de madeira, minha oficina se chama São José. Tem escola longe de onde a criança mora, conversei com a escola para pegar atividades das crianças que eu transporto e levo para elas, depois levo as atividades feitas para a escola de volta. Cesta básica da escola eu também busco para a criança. Faço isso no meu carro e no da minha esposa, que também é transportadora", diz ele.

Sgardi também diz que mesmo oferecendo este serviço de 'delivery', os pais debandaram dos pagamentos. "Eu cobrava R$ 150 por criança, agora estou cobrando R$ 100 e tem pai que não quer pagar nem R$ 50 para eu buscar as atividades da criança. Falam que vão conversar comigo quando voltarem às aulas. A gente entrega a criança 17h em casa, tem pai que trabalha e não consegue receber a criança neste horário, a gente faz um esforço para entregar a criança 17h30 e agora você recebe uma ligação na pandemia do pai dizendo que não quer mais o meu serviço, que não ia pagar mais nada", conta.

"Nunca passei por nada assim, já teve a H1N1, mas pandemia assim é a primeira vez. Se voltasse pelo menos escalonado, de dez em dez crianças por dia, ajudaria bastante. A gente também acaba tendo carinho pelas crianças, algumas começamos a transportar com 2 anos e vão até os 12. E tem criança que entra no nosso carro na hora do almoço e pede para ir logo porque não almoçou e precisa comer na escola", diz ele sobre a suspensão das aulas que prejudica os profissionais e preocupa-se com relação a algumas das crianças que dependem do ambiente escolar.

Douglas Gavioli, de 34 anos, está há 8 no transporte escolar. Mas agora, sua van, que levava crianças, entrega alimentos. "Faz uns quatro meses que eu estou fazendo entrega de supermercado no iFood. Trabalho das 9h às 21h de segunda a sábado e uns dois domingos por mês. Ganho por entrega e faço R$ 100, R$ 120 por dia, mas preciso tirar combustível. No transporte escolar, eu trabalhava 1h30 de manhã, 2h no almoço e de tarde mais 1h30, dava umas 5h, 6h por dia e eu tirava R$ 4 mil líquido por mês." A esposa de Douglas, que também trabalhava com transporte escolar, como monitora, exerce hoje o mesmo trabalho, com entregas de supermercado.

"De 60 crianças que eu tinha, fora o pessoal da faculdade, só dois pais estão me pagando, R$ 120 por mês. No primeiro e segundo mês da pandemia, a gente fazia acordo, mas depois eu não achei certo cobrar porque todo mundo está mal financeiramente. Graças a Deus, a minha van é quitada, mas pago apartamento, condomínio e as outras despesas. Minha mãe e minha irmã também são transportadoras escolares e têm carro financiado, mas não estão conseguindo pagar", diz ele sobre a situação de muitos transportadores que, sem renda, estão perdendo os veículos para os bancos.

Douglas Gavioli recorre às entregas de supermercados

Thais Oliveira Micheletti, de 38 anos, há 4 faz o transporte escolar, ou fazia, pois agora sobrevive com entregas que faz para o Mercado Livre. "Faço entrega desde o dia primeiro de julho. Minha primeira ideia era ficar parada 15 dias, dois meses, mas comecei a trabalhar com isso porque não voltavam as aulas. Na van eu conseguia em torno de R$ 8 mil bruto, agora consigo R$ 5 mil e trabalho o dobro de horas. Eu fazia escola de manhã, no almoço e depois creche, tinha 45 alunos e três ainda pagam", conta.

"Se você olhar o contexto hoje, voltou tudo, só não voltam as escolas. Tenho dois filhos também, falo como mãe e acho absurdo não ter aula. Acho que o principal que faltou para nós foi não liberarem a gente para fazer outras atividades desde o início da pandemia. Se eu não trabalhar, meus filhos não comem, uma cesta básica não é o bastante", diz ela que, assim como outros transportadores escolares, recorreu às entregas por necessidade.

Thais Oliveira Micheletti precisou começar as entregas para ter renda

AÇÕES

Segundo o presidente do Sindicato dos Transportadores Escolares de Jundiaí e Região (Sintrejur), Moacir Biaziam, os transportadores estão à deriva neste momento. "Fomos esquecidos, não só aqui, no estado inteiro. Fomos atrás das autoridades para conseguir ajuda, um auxílio. Fizemos reunião com o [Fernando] Capez, do Procon, mas não conseguimos muita coisa", diz ele sobre as negociações com o presidente da instituição no estado, que reafirmou a impossibilidade da cobrança obrigatória dos pais neste momento.

"No começo da pandemia, quando não sabíamos se íamos voltar, a gente pedia para que os pais pagassem ao menos metade do valor e, no retorno, teriam desconto, mas muitos desistiram. Tínhamos no início do ano 385 sindicalizados, 370 deles de Jundiaí, mas hoje alguns sócios, cerca de 30%, estão em stand by, não foram dessindicalizados, mas não estão conseguindo pagar agora o sindicato."

No âmbito municipal, a Unidade de Gestão de Governo e Finanças (UGGF), da Prefeitura de Jundiaí, informa que foram adotadas medidas como a prorrogação das datas de vencimentos do alvará. Para a atividade de transportadores de escolares, também foram prorrogados os pagamentos de Taxa de Fiscalização da Licença de Localização e de Funcionamento e o ISS Semestral. A prefeitura também oferece cestas básicas aos profissionais da área.

 


Galeria de Fotos


Notícias relevantes: