Jundiaí

Cidadão é o responsável pela política democrática

SISTEMA Governo político existente desde a antiguidade ainda funciona, embora sofra periódicos abalos


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Jorge Miklos acha que a política no Brasil não tem participação popular
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A democracia surgiu da necessidade do debate popular para a construção de uma sociedade justa. Desde então, conseguiu sobreviver ao tempo e se consolidar como o sistema político mais adequado às civilizações até os dias de hoje. No entanto, o afastamento da política faz com que os interesses populares não sejam representados e com que a democracia fique abalada. A democracia é feita por pessoas. Sendo assim, participar da política ainda é algo que cabe a todos.

REPRESENTAÇÃO

Coordenador do curso de Direito e professor de Direito Eleitoral da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas, Leopoldo Soares, explica que é importante o envolvimento de todos no sistema político. "A gente sempre pensou que democracia fosse a vontade da maioria, mas não é. O governo nazista, por exemplo, tinha apoio do povo alemão. A vontade da maioria é democracia quando atende a vontade de todos e não só da maioria. Caminhamos para a democracia, de fato, quando é representada a vontade de todos e as cotas são importantes porque mulheres e negros não são minorias, mas são subrepresentados", diz ele sobre as cotas nas eleições que fazem com que os interesses destes grupos sejam levados à política.

Mas Soares acredita que haja mais seriedade no envolvimento político hoje. "Ano após ano, acho que temos a percepção de uma eleição mais fria. Antes a propaganda era espetaculosa. Hoje os adesivos estão só em carros, não há mais showmícios, muros pintados. Gostemos ou não dos processos que o país vêm passando, há um engajamento maior e mais seriedade no envolvimento político, principalmente de jovens."

Cientista político e professor do curso de Direito do Unianchieta, Walter Celeste, vê que o envolvimento popular nestes eleições se mantém ativo. "As pessoas estão saindo às ruas, fazem carreatas, há movimentação de vereadores e vejo discussão política. E a campanha destas eleições tem trazido um enfraquecimento do governo central. Em São Paulo, o Russomanno, representando o Bolsonaro, teve diminuição do apoio. Talvez aqui tenha um aumento da crítica ao governo central, que pode aumentar com o fim do auxílio emergencial."

Professor de Sociologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rógerio Baptistini, acredita que estas eleições sofreram diferenças entre o contato físico e virtual. "Sem o corpo a corpo, a campanha na rua ficou secundarizada e isso é ruim para a qualidade da escolha. As eleições municipais sempre foram pautadas pela relação entre candidato e eleitor. A campanha pela internet está marcada pelo fenômeno da 'lacração', uma campanha baseada em notícias falsas e caráter mais emocional do que propositivo. Temos uma democracia que está perdendo substância, que é baseada no conteúdo."

Sociólogo, analista junguiano e professor do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Midiática da Universidade Paulista, Jorge Miklos, percebe nestas eleições a migração da campanha de rua para as redes sociais. "Independente da pandemia, a mudança eleitoral sobre doações de campanha fez com que os partidos inovassem, e uma mudança aparente é o uso ostensivo das redes sociais. Um aspecto das redes sociais é a participação e muitos candidatos precisaram aprender a usar redes sociais ou compraram este serviço de empresas de marketing."

AMÉRICA

A política fora do país passa por transições, seja pelos movimentos observados recentemente na América Latina, como a mudança constitucional do Chile, o impeachment presidencial no Peru ou as eleições na Bolívia, como também pelas eleições dos Estados Unidos. Sobre isto, a opinião dos especialistas converge em um ponto: o povo está protagonizando estas mudanças.

Para Rógerio Baptistini, as manifestações populares observadas na América aconteceram no Brasil há alguns anos, com o Movimento Passe Livre. "Foi um movimento que perdeu o propósito inicial e deságuou no movimento populista de direita. Com a pandemia, a radicalização amenizou no Brasil, mas não acabou. No Chile, Argentina e Bolívia foram manifestações diferentes, que podem ser a negação do populismo de direita, mas a gente ainda não sabe o desaguadouro destes movimentos."

Já nos EUA, Baptistini vê o perigo da negação das eleições, da escolha do povo. "O comportamento do Donald Trump nos Estados Unidos é uma péssima influência. O sistema representativo de 1946 reclama uma resposta e, caso não haja uma reforma, a democracia pode morrer e podemos entrar em um autoritarismo nunca antes visto."

Jorge Miklos enxerga em Trump uma atitude espetaculosa, que não se concretiza na prática. "É mais um exemplo de performance, quase que teatral, para ter o foco da mídia. Os Estados Unidos têm estruturas muito sólidas, tanto no mundo sistêmico quanto imaginário. Mas existe um setor expressivo da sociedade americana que está descrente do sistema democrático, que por si não coloca comida na mesa e não gera emprego. O partido democrata ganhou, mas não convenceu. Eles precisarão demonstrar serviço ou aí sim a democracia estará ameaçada."

Miklos acrescenta que, no Sul da América, a democracia sempre foi feita pela elite, sem participação popular, e o que vemos não se trata de uma guinada da direita para a esquerda e vice-versa. "A opção pela extrema direita foi uma estratégia para a implantação do noeliberalismo, não um aspecto ideológico. Essas manifestações recentes são o desgaste da política neoliberal, as pessoas protestam contra a redução de benefícios."

Já Leopoldo Soares acredita que o que acontece na América é um movimento pendular constante. "Há a ascensão de ideias da esquerda e num segundo momento um grupo contrário reage. Acho este movimento saudável, mas sem extremos, pois fazem mal à população. A América Latina tem retornado à ideia de um Estado mais social, uma tomada popular de poder, e nos EUA a mesma coisa."

Walter Celeste enxerga na América o abalo do populismo. "Há na América Latina um movimento de reação às falsas promessas do liberalismo. De repente, nos EUA, você vê uma nova tendência."

E, para ele, isto tem influência aqui. "Neste momento estão sendo criadas alternativas para a extrema direita. No Brasil, sempre tivemos um sistema presidencialista de coalizão. Com a Lava Jato na grande mídia, o sistema político que existe desde 1988 ruiu. Há um enfraquecimento do populismo na América Latina, mas ainda não no Brasil, porque há uma visão pejorativa da política, associada à corrupção, e a aposta nos não-políticos que são protagonistas, mas na democracia o povo é o protagonista."


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