Jundiaí

Tecnologia em excesso interfere nas relações

DIGITAL Dos assistentes virtuais aos smartwatches, aparelhos facilitam a vida, mas afastam a realidade


ALEXANDRE MARTINS
Gláucia Luiz reflete sobre a necessidade de manter o contato olho a olho mesmo na era da tecnologia
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Aparelhos programados para atender as vontades humanas, aplicativos que apontam rotas de acordo com a movimentação do dia a dia. Tudo isto unido a uma conectividade jamais imaginada há 10 anos. A tecnologia tangencia o cotidiano das comunidades moldando os costumes e a forma de pensar de toda uma geração.

Um levantamento realizado pelo grupo GSMA Intelligence aponta que um em cada quatro adultos possui um smartwatch que, ao pé da letra, são os relógios inteligentes, que são capazes de estabelecerem integração com os smartphones e outros aparelhos digitais.

A ferramenta tem ajudado a produtora Daniella Zomignani, de 39 anos, em suas pedaladas semanais. "Utilizo o smartwatch para medir a minha frequência cardíaca e a quilometragem percorrida. Eu o conecto com o Strava e com isso sequer preciso correr com o meu celular em mãos. É ótimo para quem não dispensa uma boa atividade física, como eu", compartilha.

O engenheiro de softwares, Thiago Roberto Carreño, de 35 anos, também aderiu ao relógio inteligente. "Quando a Apple lançou o Apple Watch 3 eu resolvi comprar apenas por gosto pessoal. O que mais uso são os aplicativos de câmbio, controle calórico e alimentar, além da função de comunicação corporativa e pessoal.", conta Carreño.

Conectado 24 horas, seja através do celular ou aparelhos similares, o engenheiro compartilha que, sob seu olhar, o uso descontrolado dos meios digitais possui aspectos negativos. "Sei que nós, como sociedade, não temos maturidade para lidar com tecnologia. Prova disso é que em menos de 30 anos saímos de uma geração onde o contato digital era escasso e caro e chegamos a uma realidade em que vivemos conectados a cada segundo do nosso dia", reflete.

EI, ALEXA

Outro equipamento tecnológico que se popularizou são os assistentes virtuais, como a Siri e a Alexa. Esta última foi lançada em 2014 pela Amazon com o intuito de auxiliar os usuários em suas tarefas do dia a dia. Ela é capaz de executar inúmeras ações através de um simples comando de voz.

Durante a quarentena, a analista de eventos Larissa Santomo, de 25 anos, não resistiu e aderiu à ferramenta. "Minha caixinha de som parou de funcionar logo no começo de abril. Fui comprar uma nova e foi aí que eu descobri que essa era uma das funções da Alexa que, por coincidência, estava mais barata do que uma caixa de som convencional. Foi por isso que eu a aderi, mas no fim das contas, descobri que ela ajuda até a fazer lista de compras, é ótimo", compartilha a jovem que, entre um aparelho e outro, confessa ficar conectada por mais de 10 horas diárias.

LIMITES

O coordenador do curso Sistemas Embarcados e professor de Análise e Desenvolvimento de Sistemas da Fatec Jundiaí, Cláudio Luis Oliveira, reforça que a tecnologia veio para ficar. "Faz parte do processo de evolução dos meios de comunicação e a tendência é que cada vez mais nos tornemos conectados através desses aparelhos.

No entanto, ainda que as ferramentas digitais tenham alto poder facilitador, é preciso utilizá-las com cautela. Isso porque, ao viver essa relação de forma tão intrínseca, as relações interpessoais, bem como a forma como lidamos com o tempo, sofre certa distorção.

O estudante Leonardo Ribeiro Paiva, de 17 anos, alega que tem uma relação de dependência com a tecnologia. "Eu uso a internet praticamente 100% do tempo e reconheço que eu tenho uma relação viciosa das tecnologias. Querendo ou não, sei que me torno mais recluso e que esse uso excessivo afeta a forma como eu me relaciono com meus amigos e familiares", declara o adolescente que se policia para reduzir o contato com a internet.

A psicóloga Gláucia Luiz, de 45 anos, afirma que é preciso estabelecer limites. "Com o uso massivo dos aparelhos, nossa relação com o tempo, bem como o momento do ócio e da autorreflexão, vão sendo deixadas de lado para a absorção de informações instantâneas que quase nada acrescentam aos seres humanos enquanto pessoas que precisam também de relações reais, de olho no olho, do toque e da palavra como afeto", explica.


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