Jundiaí

Em Jundiaí, 4 mil são atendidas com doença mental grave

JANEIRO BRANCO No ano passado, 89 mil pessoas passaram por atendimento de saúde mental: campanhas ajudam na prevenção de doenças como depressão


DANIEL TEGON POLLI
O Caps atende casos graves de doença mental, enquanto os mais leves e moderados ficam com o Nasf
Crédito: DANIEL TEGON POLLI

Esse mês celebra-se o Janeiro Branco, campanha de promoção da saúde mental para prevenir doenças. Em Jundiaí, quase 4 mil pessoas estão em atendimento nos quatro Centros de Atendimento Psicossocial (CAPS) com quadros graves de doença mental. Além disso, as equipes do Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF) atendem todos os meses pelo menos 332 casos em domicílio e nas Unidades Básicas de Saúde de pacientes em estados leve e moderado. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), a pandemia pode pode piorar esse quadro.

Os números mostram a gravidade da situação e a importância de cuidar da saúde como um todo, tanto física quanto psíquica. De acordo com a Prefeitura de Jundiaí, quase 89 mil atendimentos de saúde mental foram realizados de janeiro a outubro de 2020 nos CAPSs, mesmo com a pandemia, que acabou limitando os atendimentos.

A psiquiatra e voluntária do Centro de Valorização da Vida (CVV), Maria Cristina Stefano, acredita que a prevenção é melhor forma de evitar os números alarmantes. "Somados são cerca de 15% da população que sofre de doença mental. Isso sem contar a subnotificação dos dados epidemiológicos no Brasil, o que chega a 40%, então a estatística seria ainda maior."

NÚMEROS PREOCUPANTES

No Brasil, 5,8% da população sofre de depressão e 9,3% tem sintomas de ansiedade, o que é maior do que as médias mundiais de 4,4% e 3,6%, respectivamente.

A OMS alertou sobre o risco de aumento dos casos de depressão, ansiedade e outros transtornos em decorrência da pandemia do coronavírus. O alerta se deu devido aos dados de aumento de casos de doença mental após a epidemia de SARS, em 2002 e 2003. Dos pacientes curados, 39% desenvolveram depressão.

A Associação Brasileira de Psiquiatria realizou uma pesquisa com seus membros e também detectou um aumento de até 25% nas consultas no período de isolamento e agravamento dos sintomas de doença mental.

PREVENÇÃO

Para Maria Cristina Stefano, que trabalhou 16 anos com saúde pública, o Janeiro Branco ajuda a evitar as doenças. "É cuidar para que as pessoas continuem saudáveis. A iniciativa do psicólogo Leandro Abrahão, idealizador do Janeiro Branco, foi muito lúcida. Gosto de comparar saúde mental, com saúde dental. Quando colocamos flúor na água já estamos prevenindo o desenvolvimento de um problema nos dentes, é esse princípio que devemos seguir com a saúde mental também."

A psicóloga Ana Carolina Fainzilber concorda com a abordagem preventiva. "Saúde mental tem muito a ver com qualidade de vida, das nossas relações pessoais, de trabalho e até da nossa relação conosco", explica. Ela acredita em uma rede de cuidado que vá tratar a dor em si, a causa, e não apenas os sintomas".

Mais do que isso, Ana Carolina acredita que a cobrança da sociedade também pesa muito para o equilíbrio das pessoas. "Eu atendo muitas mulheres que tentam dar conta de tudo porque esse é o padrão que a sociedade impõe. A mulher que trabalha, cuida da casa, dos filhos, da relação amorosa e ainda cuida de si com uma alimentação perfeita e atividade física."

Sua orientação é que as pessoas não se cobrem, nem se submetam à pressões externas. "A minha linha de cuidado é da redução de danos, em que a pessoa deve pensar em fazer o que ela dá conta para não se deixar vulnerável. Cada pessoa tem que viver a sua realidade e não a do outro."

A dica é cuidar de si. "Faça algo que você gosta, cuide da sua alimentação por você, movimente seu corpo, mantenha contato com quem você ama. Em casa, aposte em interação entre os familiares", diz.

PRECONCEITO

As duas profissionais concordam que o preconceito da sociedade para com a saúde mental acaba sendo uma das pressões que afetam o paciente. Há um preconceito estrutural e isto precisa mudar. "Atendi essa semana uma paciente que foi demitida por apresentar um atestado psiquiátrico, mas atualmente ela tem um emprego muito melhor e entendemos que aquele local de trabalho não estava à altura dela, mas isso ocorre em grande escala no Brasil, até mesmo no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), que deixa de lado a psiquiatria nas perícias", diz Maria Cristina Stefano.

Ela lamenta que estigma seja muito grande com estes pacientes. "Precisamos mudar essa estrutura como um todo, começando lá com a adolescente grávida até o individuo que está sendo demitido por ter atestado."

Por outro lado, acredita que aos poucos isso tem mudado. Ela lembra que há alguns anos a quantidade de casos de suicídio na gestão pública era muito maior. "Há 5 ou 6 anos não se falava em capacitar a polícia para lidar com casos de suicídio. Hoje sim. A Guarda Municipal de Jundiaí foi capacitada para lidar com situações de prevenção."

Em nota a Prefeitura de Jundiaí informou que a Unidade de Gestão de Administração e Gestão de Pessoas (UGAGP) criou um projeto para atuar na prevenção do suicídio junto aos servidores.

O projeto permanente 'Programa Viver' foi desenvolvido em parceria com o CVV e iniciado no dia 23 de junho de 2017. O objetivo é divulgar informações, fornecer ferramentas que possam auxiliar os servidores para o autoconhecimento para o enfrentamento de frustrações. Nos últimos 4 anos cerca de mil servidores participaram do Programa.


Galeria de Fotos


Notícias relevantes: