Jundiaí

Bridgerton é representatividade do protagonismo negro em séries


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Guilherme Oliveira fala das semelhanças da série com história
Crédito: ARQIUVO PESSOAL

Seguindo a onda de sucessos produzidos pela Netflix, a série Bridgerton encantou o coração dos espectadores. E não é só o belo visual da Inglaterra do séc. XIX ou o carisma e beleza dos atores que conquistou o público. Em meio a trama, um fator chama atenção, visto que não é comum ser retratado nas produções cinematográficas. Os negros como parte da nobreza britânica com o protagonista masculino, Duque de Hastings (Regé-Jean Page) e sua família.

Inspirada nos livros de Julia Quinn, a primeira temporada acompanha a história de Daphne (Phoebe Dynevor), filha mais velha da poderosa família Bridgerton, com o Duque.

O historiador Guilherme Oliveira da Silva, mestrando em História Social da África na Unicamp, explica que diversos elementos da série se aproximam da realidade. "O principal deles é que de fato a rainha Charlotte ou, Carlota de Mecklemburgo-Strelitz, tinha ascendência africana. A árvore genealógica da rainha perpassa por uma relação entre o rei português Afonso 3º (1210-1279) e de uma mulher negra do norte da África chamada Madragana Ben Aloandro (1230-?). A partir de Madragana tem-se a criação de um ramo de pessoas negras dentro da nobreza portuguesa. Esse ramo dá origem a rainha Charlotte, 15 gerações depois", afirma.

Guilherme afirma que desde o séc. XV, quando os europeus intensificaram o contato com os povos africanos, tem-se a circulação de pessoas negras dentro das elites europeias. "No período da série Bridgerton, início do séc. XIX, havia cerca de 20 mil pessoas de origem africana vivendo na Inglaterra e nem todas elas estavam em situação de escravidão. O que aconteceu é que a partir do século XIX ocorreu um processo de embranquecimento da história oficial por conta do desenvolvimento do racismo científico, que associou pessoas negras à inferioridade. Isso fez com que pensássemos que havia apenas ricos brancos na Inglaterra do séc. XIX, o que de forma alguma foi verdade. Bridgerton consegue aproximar essa realidade de diversidade étnica racial, explica.

PROTAGONISMO

Na sociedade que vivemos atualmente, trazer pessoas negras em papéis de protagonismo é romper com um racismo histórico que perpassa a história do cinema e da televisão. "Se observarmos nas séries, filmes e novelas brasileiras, norte-americanas ou europeias desde a criação do cinema, percebemos que a maioria das pessoas que está atuando é branca. E as poucas pessoas negras estão em papéis secundários, reproduzindo estereótipos racistas que desvalorizam pessoas negras. A narrativa de Bridgerton ressignifica essa representação negativa, começando pela série ser feita por Shonda Rhimes, uma mulher negra que sempre insere questões sociais e personagens negros em suas produções. A importância disso é enorme. Pessoas negras não aguentam mais assistir a produções em que as únicas pessoas que se parecem com elas estão em uma situação de inferioridade", ressalta.

O historiador conta que não há efetivamente registros de pessoas negras na realeza britânica, apesar de haver um número significativo de influências na Inglaterra no séc. XIX. "É importante lembrar que realezas negras existiram ao longo da história da humanidade e isso é algo que não é retratado nas séries. A história da África possui uma complexidade incrível e pouco conhecida. É difícil enquanto historiador prever o futuro, mas acredito que é possível que, se a nobreza britânica fosse negra, o racismo científico não teria se desenvolvido da mesma forma, teríamos mais pessoas negras em posições de poder e menos desigualdade racial. O interessante de séries como Bridgerton é justamente pensar nessas possibilidades de olhar para o passado, mirando em um futuro melhor, mais igualitário e justo para todas as pessoas", afirma.

Para o cineasta Carlos Zaik, o sucesso da série se dá pela maestria da produtora Shonda Rhimes. "Dentro do show apresentado logo no primeiro episódio, ela insere em um corpo histórico de 1814 e fala sobre anseios e temas atuais como racismo, feminismo e gêneros. Há discussões que correm soltas em todos os becos e cantos de todas as cidades do mundo na busca por uma resposta. Todos os grupos no fundo buscam a mesma coisa, ser feliz. Shonda, com uma ousadia genial, troca o galã loiro de olhos azuis dos livros de Julia Quinn, e saca do seu baú de histórias, um belo negro e o coloca num romance com uma linda loira de olhos claros", explica.

O cineasta acredita que negros também precisam sonhar e se ver representados em seus ídolos. "Desde o lançamento do filme Pantera Negra, onde um povo negro bem-sucedido e com tecnologia avançada vive em igualdade com as outras raças, muita gente passou a ter orgulho da cor da pele. Há muito tempo temos engenheiros, médicos, administradores de empresas e pessoas de destaque na sociedade que são negras e não são colocadas dentro de nossas narrativas. Inseri-los com protagonismo e saber da participação dentro dos lugares de decisão e na construção dos pilares da história, cura o coração e abre horizontes de esperanças", afirma.

(Mariana Checoni)


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