Jundiaí

COLUNA DO MARTINELLI: O grande desafio de cuidar da dor do próximo


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Crédito: Reprodução/Internet

São notórias as graves consequências advindas de um diagnóstico de câncer, cujo resultado por si só, já provoca um grande impacto. O paciente sabe que percorrerá um longo e demorado calvário, às vezes também dispendioso, para ver um possível restabelecimento do seu quadro clínico, nem sempre obtido e que pode deixar inúmeras sequelas. Às incapacidades físicas e psíquicas provocadas pela dor, somam-se as incertezas quanto ao futuro, os tratamentos traumáticos e o temor de morte iminente. Assim, quando alguém é acometido por tal moléstia, há uma grande repercussão sobre ela. Muitas pessoas modificam completamente seus hábitos, passam a rever conceitos, valores, crenças, comportamentos e atitudes, promovendo uma reviravolta em suas vidas.

O câncer ainda é uma doença cercada de mistérios científicos quanto à sua cura e cujo temor leva as pessoas a nutrirem uma variedade infindável de preconceitos, tornando o tema muitas vezes, um verdadeiro tabu. Tanto que sua palavra é pronunciada à meia-voz ou através de diversas pseudônimos, como “CA”, “tumor maligno” ou “aquela doença”. Outro detalhe preocupante diz respeito ao fator surpresa. A falta de sintomas iniciais pode acarretar um conhecimento tardio que muitas vezes inviabiliza a cura, embora existam casos de milagrosas recuperações. Ele não se revela apenas numa enfermidade traiçoeira, mas também é tida como democrática. Ataca sem preconceito de raça, sexo, religião, classe social e idade, sendo este também um dos seus aspectos mais perversos, principalmente quando atinge crianças e jovens saudáveis.

Tais quadros se identificam com a associação de circunstâncias próprias aos anseios fundamentais do homem. É por isso também que a questão dos direitos humanos, relevante por si só, adquire uma nova e inusitada dimensão quando considerada à luz dos que padecem de câncer, pois envolve, em relação a eles, aspectos e peculiaridades que não podemos ignorar. Ela origina exigências de respeito, acatamento, fraternidade e assistência psicológica. Para entendê-los nesta fase, o individualismo dos amigos e dos familiares deve ser substituído pelo respeito sincero a estes, até mesmo ao desgaste provocado pelos efeitos da moléstia.

Nesta linha de constatação, sabemos que a solidariedade, como propósito moral que vincula o indivíduo à subsistência, aos interesses e às obrigações dum grupo social, duma nação ou da própria humanidade, faz com que ele partilhe construtivamente da existência do seu semelhante, encerra dois aspectos, ou seja, participação e ajuda: uma virtude que se subordina à disposição afetiva em relação a quem nos avizinha. Por isso, além do grande desafio de cuidar da dor e do sofrimento humanos nas suas dimensões física, psíquica, social e espiritual, devemos sensibilizar com ela, tornando-se uma provocação ao amor e à consideração com o próximo, buscando sempre, a irrestrita veneração pela dignidade da pessoa humana.

Celebrou-se a quatro de fevereiro o DIA MUNDIAL CONTRA O CÂNCER, ocasião para refletirmos sobre a importância de compreendermos a situação dos pacientes de doenças graves -agora com o COVID 19 - e principalmente, respeitar seus posicionamentos, procurando em todos os setores, outorgar-lhes melhor qualidade de vida. Com efeito, “quem cuida do sofrimento humano e se deixa tocar por ele se torna um radar de alta sensibilidade, se humaniza no processo e, para além do conhecimento científico, tem a preciosa chance e o privilégio de crescer em sabedoria. Exata sabedoria nos coloca na rota da valorização e descoberta de que a vida não é um bem a ser privatizado, muito menos um problema a ser resolvido nos circuitos digitais e eletrônicos da informática, mas um dom a ser vivido e partilhado solidariamente com os outros” (Léo Pessini, “Humanizar a dor”- Revista “Família Cristã” – Ed. Paulinas- p.. 32 – 10/2002).

JOÃO CARLOS JOSÉ MARTINELLI, advogado, jornalista, escritor e professor da Faculdade de Direito do Centro Universtiário Padre Anchieta. Ex-presidente da Academia Jundiaiense de Letras e de Letras Jurídicas ([email protected])


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