Jundiaí

Transportadores escolares sentem o peso da suspensão das presenciais

PANDEMIA Toda a categoria está parada desde março do ano passado e sindicato acredita que 20% dos trabalhadores não vão conseguir voltar a função


ALEXANDRE MARTINS
Lúcia Spinassi suspendeu os contratos dos alunos e ficou sem renda
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Desde o início de 2020, as aulas presenciais foram suspensas por conta da pandemia e isto afetou diversos profissionais da educação, inclusive os trabalhadores do transporte escolar, que ficaram parados depois que os alunos pararam de frequentar a escola. O Sindicato dos Transportadores Escolares de Jundiaí e Região (Sintrejur) acredita que 20% da categoria não volte a trabalhar no setor mesmo com o retorno gradual das aulas.

Em Jundiaí, de acordo com a Unidade de Gestão de Mobilidade e Transporte (UGMT), cerca de 358 transportadores escolares estão cadastrados no município. Entre março de 2020 e janeiro de 2021 foram registradas 17 desistências e não houve novos registros neste período. 

Para o presidente do sindicato, Moacir Biazim, muitos trabalhadores acabaram vendendo as vans para conseguir se manter. "Acredito que nosso setor tenha sido o mais afetado porque nossos veículos são adaptados para o transporte de crianças e adolescentes com toda a segurança pensada para eles. Desde desde março, esses profissionais não conseguem utilizar a van para outro trabalho. Empresas não contratam por conta da faixa escolar e a Artesp barra qualquer tipo de trabalho externo. Isso faz com que a categoria esteja completamente parada", afirma. 

Ainda não há previsão de volta, pois a maioria dos pais não quer pagar o valor integral da mensalidade para os perueiros sendo que as crianças só estão indo duas vezes por semana para a escola. "Se eles não cobrarem o valor integral, não compensa colocar uma van de R$ 200 mil na rua para cobrar por dia de transporte. Fora todos os gastos com combustível e manutenção. Agora, com a retomada gradual, alguns transportadores estão levando algumas crianças esses dois dias de aula, pois os pais não os abandonaram e continuaram pagando mesmo com as aulas presenciais suspensas", explica o presidente do sindicato. 

Lúcia Spinassi, a "tia Lúcia", está parada desde março de 2020. "Tive que reinventar para conseguir comer. Estava trabalhando como operadora de caixa em uma padaria e comecei a revender rasteirinhas para conseguir uma renda extra, mas está sendo muito difícil ainda. O transporte escolar tem muitas questões envolvidas e ainda não consegui voltar a trabalhar", relata.

Com a ajuda do sogro, Lúcia não perdeu a van, que estava financiada. "Meu sogro assumiu algumas parcelas e fez um empréstimo para quitar a van e assim não perdi o veículo. Em abril volto a pagar. Entretanto, nem todos tiveram essa ajuda. Muitos transportadores precisaram vender os veículos ou perderam para o banco, pois não tinham dinheiro para manter", revela. 

A condutora transportava 65 alunos antes da pandemia. Conta que três pais queriam continuar pagando mesmo sem o transporte. "Até junho eu ainda tinha o dinheiro desses pais, mas eu não achava justo, em uma pandemia, que todos estavam passando por dificuldade, continuar cobrando só por ter um contrato assinado. Em junho suspendi todos e fiquei sem renda", conta. 

ESQUECIMENTO 

A categoria relata que foi completamente esquecida pelo poder público. Muitos não conseguiram nem o auxílio emergencial e só conseguiram dinheiro para pagar as contas porque conseguiram outros empregos. 

Edson de Campos, o "tio Magrão", perdeu a renda que tinha com o transporte de 32 alunos. Para se manter, virou motorista de aplicativo. "Está sendo muito difícil, pois dependia dessa renda. Há um ano parado, impedido de usar a van para outros fins por conta de restrições para transporte escolar, só consegui mantê-la porque já estava quitada. Agora aguardamos o retorno total das escolas para ver uma esperança. Mesmo parcialmente ainda é difícil, pois os pais não querem pagar o valor integral, somente diário", relata.

O transportador Adilson Sá relata, indignado, que a categoria dos transportadores não recebeu nenhuma ajuda do governo, mesmo sendo a mais prejudicada. "Estamos há 300 dias sem renda e sem apoio financeiro dos órgãos públicos. Nossas taxas de 2020 e 2021 não foram isentas. Vários colegas perderam seus bens, por não terem condições de arcar com as prestações e contas, que também não houve nenhum acordo para ajudar", afirma. 

Sá transportava 45 alunos e apenas 10% aceitaram continuar contribuindo até dezembro do ano passado. "Mesmo com este retorno nenhuma alternativa foi pensada para ajudar os transportadores. A maioria dos pais não entende as dificuldades e acha que devemos continuar trabalhando com renda reduzida. No meu caso, em 2020, perdi 90% da minha renda. Hoje, não temos capital nem para retomar o trabalho. Fomos esquecidos", conta.


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