Jundiaí

Hipnose é terapia para corpo e mente

É procurada por pessoas que não conseguiram solução para seus males em métodos clínicos tradicionais


ALEXANDRE MARTINS
Franciele Silva afirma que hipnoterapia trata problemas físicos e emocionais
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

A hipnose é um método utilizado desde o século XIV para transtornos mentais. O nome, que vem do latim, significa um sono induzido, mas a pessoa permanece em consciência e, assim, pode acessar o subconsciente, local da mente no qual o hipnoterapeuta trabalha para entender quando surgiram traumas, doenças e transtornos.

Mesmo sendo um método antigo, a hipnose foi tratada muito tempo como espetáculo, televisivo e circense, utilizada para entreter o público com ações involuntárias praticadas por pessoas em transe. No entanto, a hipnose é aplicada em tratamentos e procurada muitas vezes por pessoas que não conseguiram solução para seus males em métodos clínicos tradicionais. O SUS já a implementou, como terapia alternativa.

Hipnoterapeuta, Franciele Silva diz que a aplicação do tratamento pode ser variada. "A hipnoterapia pode ajudar em problemas emocionais e físicos também. A gente parte do princípio de que ambos partem de uma raiz emocional, geralmente algo que aconteceu na primeira infância. É como se fosse algo que obstrui o ralo de uma pia, o tempo passa e a pia vai enchendo. Quando cai a última gota d'água, ocorre o transbordamento da pia. É assim que o problema físico surge."

"A fibromialgia, por exemplo, é um doença na qual muitas vezes os médicos não conseguem achar a raiz do problema. Achamos que essa doença é sintoma de algo que aconteceu lá atrás e foi virando uma bola de neve. Na depressão também, identificamos a raiz do problema", explica Franciele sobre como a hipnose funciona.

Quando o problema é encontrado no subconsciente, o profissional da hipnoterapia ressignifica aquilo. "Fazemos um processo para identificar qual foi a primeira vez que a pessoa sentiu aquela emoção, se existe um primeiro momento quando aquilo foi despertado. A partir disso, fazemos uma ressignificação do problema", diz ela.

Franciele explica que o subconsciente não é tão misterioso quanto pode parecer. "O tempo todo acessamos o subconsciente. Quando estamos envoltos no nosso emocional e falamos algo sem pensar, é um estado de hipnose. Quando choramos vendo um filme, mesmo sabendo que aquilo não é real, também. Todas as nossas emoções estão no subconsciente. Na hipnose, também acessamos esta parte da mente, mas conseguimos reorganizá-la."

Patrícia Miranda, além de ser hipnoterapeuta há 21 anos, também é psicóloga clínica, com formação freudiana, especialista em terapia cognitivo-comportamental. Ela diz que as possibilidades da hipnose são amplas. "Hipnose é uma ferramenta de intervenção psicoterapêutica que pode otimizar o tempo para tratamentos nos transtornos de humor, como depressão, toc, ansiedade disfuncional; compulsões, como vícios, transtornos alimentares e fobias, dentre outras disfunções cognitivas. Porém, também pode auxiliar no desenvolvimento do autoconhecimento com base no processo de autohipnose."

Patrícia explica que, mesmo tendo Freud utilizado a hipnose, há diferença entre o método e a psicanálise, criada pelo médico. "Freud usou hipnose por 10 anos. No entanto, ele queria desenvolver um método para que o paciente, sem o estado de transe formal, também acessasse o inconsciente, criando assim a técnica da associação livre. A hipnose influenciou a criação da psicanálise, mas Freud não conhecia práticas hipnóticas mais elaboradas, tais como as de Milton Erickson. A psicanálise sem hipnose pode vir a ser um processo demorado, mas o profissional que trabalhar com hipnose precisa conhecer Freud e sua técnica de associação livre", explica.

Ela acredita que neste período de pandemia, a procura pela hipnose aumentou, mas alerta sobre a oferta. "A minha percepção é de que existem mais profissionais na área porque hoje há inúmeros cursos on-line. No entanto, alerto para a necessidade das pessoas conhecerem o profissional hipnoterapeuta. Por exemplo, existe bastante procura por regressão de memória, com a esperança de que ela, por si só, resolva algum problema, mas tem que haver muito cuidado com essa expectativa. Regressão de memória é uma das possibilidades num transe hipnótico, que tem que ser acompanhado por profissional capacitado, competente. Se o profissional não souber como conduzir a situação pode prejudicar o andamento do tratamento."

MEDICINA

Psiquiatra e psicanalista, Marta Úrsula Lambrecht acredita que o método não possa ser aplicado em qualquer pessoa. "Freud usava a hipnose em 1895 e parou de usar porque não conseguia atingir todas as pessoas, não conseguia acessar o subconsciente das pessoas mais relutantes. Até onde eu sei, a doença não é resolvida se a pessoa não se deixa hipnotizar."

A médica também conta que a tendência de algumas pessoas a aceitar sugestões possa ser o fator de sucesso desta terapia. "Há pessoas que são mais sugestivas, aceitam o que o terapeuta fala, e, pelo mecanismo sugestivo, consegue-se muita coisa, mas não pela hipnose, pelo mecanismo sugestivo, que acata o que a outra pessoa fala. Pode parecer, pelo mecanismo sugestivo, que a pessoa tenha uma rápida melhora, mas, quanto mais rápido a melhora, mais rápida a piora. A mente precisa de um tempo para se adaptar, para aprender a lidar com um conflito. Para mim, a terapia avalia o núcleo do problema e o modifica, mas isso leva tempo."

Ela ressalta que a pessoa que tem uma doença e opta pela hipnoterapia também deve procurar ajuda médica. "Quem tem uma doença precisa de tratamento médico. A pessoa que tem uma depressão, por exemplo, e faz uma terapia alternativa, o profissional corre sérios riscos, porque, se a pessoa se suicidar, o profissional será responsabilizado. O tratamento alternativo é um risco. Ansiedade também, a pessoa corre o risco de vida, ela se mata para se livrar da sensação de ansiedade. A pessoa que quiser fazer um tratamento alternativo pode, mas vá também ao psiquiatra e faça o uso da medicação. O suicídio aumentou mais de 200% nos últimos tempos, é muito sério."

Credito: Arquivo pessoal / Descrição: Patrícia Miranda

(Nathália Sousa)

 


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