Jundiaí

"Eu sinto medo todos os dias", diz vítima de assédio

ESCONDIDOS Segundo estudo, 97% das mulheres já foram assediadas no transporte. Com a pandemia, abusadores se escondem atrás das máscaras


ALEXANDRE MARTINS
Vítima já teve seu corpo tocado por assediadores, mas o mais comum são os olhares: "Me sinto vigiada"
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

O assédio sexual é a segunda maior preocupação para mulheres, no Brasil, perdendo apenas para a violência doméstica. Os dados são dos Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva. Em outro estudo, dos mesmos órgãos, 97% das mulheres afirmam já terem sido vítimas de assédio em meios de transporte. Com a pandemia isso piorou, já que o uso de máscara para evitar o contágio da covid-19 acaba ocultando a face dos assediadores, o que gera ainda mais medo nas mulheres que precisam usar o transporte coletivo com frequência.

Aos 19 anos, Ana Beatriz Simon conta ser vítima de assédio diariamente. Em um caso recente, um homem tocou seu corpo começando pela cintura e descendo. "O mais desesperador é que eu não consegui identificar quem era. Tinha uns quatro atrás de mim e não tinha como saber", conta. "Eu comecei a chorar, em pânico, mas quando ele tentou descer mais a mão eu gritei para o motorista parar no próximo ponto."

Por causa dessa violação, a jovem desceu em um local deserto e precisou esperar meia hora pelo próximo ônibus, para conseguir chegar ao trabalho. "Só depois que desci é que percebi que ele poderia ter me seguido. Graças a Deus não seguiu", declara. Na ocasião ela até chegou a cogitar registrar um boletim de ocorrência, mas desistiu. "O que eu iria dizer? Por causa da máscara eu nem sequer consigo descrever os quatro possíveis suspeitos."

MASCARADOS

Para Ana Beatriz, lidar com assediadores mascarados é mais um problema que a pandemia do coronavírus trouxe para a sociedade. "Eu já sofria assédio no transporte público, mas antes eu conseguia decorar o rosto deles e evitá-los no dia seguinte. Agora todos usam máscara. No dia seguinte terão o rosto coberto de novo, com uma roupa diferente e eu não vou conseguir identificá-los nem mesmo se precisar fazer uma denúncia."

Camila Ferreira, 31 anos, já vivenciou situações igualmente abusivas. "Uma vez um homem colocou a mão por baixo do meu vestido e tocou minhas partes íntimas no trem", conta. "Em outra situação, o transporte estava tão cheio que o assediador colou o corpo atrás do meu e passou a viagem toda se esfregando em mim", lembra.

Poder identificá-los foi fundamental para evitar situações ainda piores. "O homem que ficou se esfregando em mim tentou me seguir pela estação, mas eu o reconheci e fugi. O outro eu pude descrever para o segurança da estação de trem. Se eles usassem máscara, não sei como poderia me proteger."

MEDO

O que as duas vítimas descrevem é o medo constante de serem violadas. "Todos os dias algum homem prática um tipo de assédio. Na maioria das vezes é com o olhar, mas já vivi situações muito piores", desabafa Ana Beatriz. Ainda segundo pesquisa dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, os olhares insistentes representam 41% das situações desagradáveis às quais às mulheres são submetidas ao utilizar o transporte coletivo.

Para ela, esses olhares já são um tipo de violação. "Não estou falando de um olhar de apreciação, é um olhar insistente, que chega a parecer uma ameaça. É você se sentir como se estivesse dentro de uma gaiola à exposição e fosse vigiada do momento em que entra no ônibus, até o momento em que desce dele. Às vezes, eu fecho os olhos e consigo ver esses olhares de novo, horas depois. Isso cria um ambiente de medo. Eu sinto medo todos os dias."

Mas nem sempre o assédio fica apenas no olhar: 35% das mulheres que responderam a pesquisa já foram encoxadas, 22% delas foram apalpadas, 19% receberam comentários de cunho sexual, 11% foram seguidas pelos assediadores e em 4% dos casos os homens mostraram suas genitais e se masturbaram olhando para elas em pleno transporte coletivo.

CULPAR A VÍTIMA

A psicóloga Yara Schowantz acredita que, para evitar essa situação, seja necessário investir em políticas públicas. "Imagina você ser mulher e nem sequer saber quem está violando o seu corpo. A gente vive em uma cultura do estupro, essencialmente machista. O homem tem o imaginário de que o corpo da mulher é um corpo público e para isso mudar precisamos de investimentos em políticas públicas."

De acordo com a especialista forçar a mulher a ter que tomar decisões, medidas e denunciar sozinha é vitimizá-la mais uma vez. "É colocar mais um peso em cima da mulher."

Schowantz também explica que essa sociedade "da cultura do estupro" já imputa à mulher uma vergonha por ser vítima. "Ela se sente culpada como se a roupa que usou ou o jeito como se portou fosse o que causou tal assédio. Por isso é muito comum a pessoa travar, se culpar, até mesmo ter uma crise de pânico", afirma. "Uma mulher assediada pode ficar traumatizada por anos. É uma invasão." Ana Beatriz confirma esse trauma e diz ter tido que procurar terapia após um dos assédios que sofreu.

Uma sugestão da psicóloga para que as vítimas se sintam mais empoderadas é oferecer formas acessíveis e seguras de denúncia, apoio, tal como ter segurança pública em terminais de ônibus, um canal de denúncia anônima, sistema de videomonitoramento etc.

Em nota, a Transurb informou que investiu na inclusão de câmeras de vigilância em toda a frota, o que poderá ajudar a identificar agressores, em caso de denúncia. "Uma das principais questões que precisam ainda ser vencidas em casos de assédio é a subnotificação. Infelizmente ainda são raros os casos de notificação e procura para a identificação de assediadores", informaram.

A Unidade de Gestão de Mobilidade Urbana e Transporte reforça, em nota, que as imagens das câmeras podem ser solicitadas pelo telefone 156. "Vale salientar que as imagens devem ser requeridas em até 3 dias após o ocorrido, após esse prazo, elas são sobrepostas."

Outra estratégia para coibir esses assédios foi a inclusão da possibilidade de denúncia pelo aplicativo Prefeitura de Jundiaí, que pode ser baixado tanto para celulares de sistema IOS quanto Android. A denúncia é encaminhada imediatamente para a Guarda Municipal. Denuncie também pelos telefones 181 (anônimo), 153, da GM, ou 190, da Polícia Militar.


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