Jundiaí

Que haja amor enquanto há vida

Vontade de dividir a vida com alguém faz com que pessoas mais velhas procurem um par


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Helena Tizato procura um companheiro, mas não para morar junto
Crédito: ARQUIVO PESSOAL

Há décadas, Tom Jobim já cantava que é impossível ser feliz sozinho, já que fundamental é mesmo o amor, na música "Wave". De fato, muitas pessoas precisam de companhia para terem completude na vida. E, por mais que muitas tenham familiares e amigos por perto, o amor romântico pode fazer falta.

Idosos costumam ter essa solidão em determinado momento da vida, quando os filhos saem de casa e perdem ou se separam do companheiro, mesmo que exista ainda hoje o tabu sobre o namoro na terceira idade, a vontade de dividir a vida com alguém faz com que pessoas mais velhas procurem um par para terem felicidade até o final da vida.

Geriatra, Cristiane Gussi Baito explica que "os idosos buscam um novo relacionamento por sentirem-se sozinhos e desejarem companhia, e assim melhorarem sua qualidade de vida. O que chama a atenção é que esse é um assunto que parece absurdo, um tabu. Infelizmente, existe um preconceito, é uma grande surpresa quando um idoso inicia um relacionamento, seja após o falecimento do cônjuge ou após uma separação."

No entanto, a médica salienta que um relacionamento pode melhorar a qualidade de vida dos idosos. "Cada vez mais lutamos para envelhecer com saúde. A saúde está ligada à alimentação, exercícios físicos, boa qualidade de sono e também com as relações sociais. Por este motivo, é nosso dever acolher e estimular que os idosos possam se manter ativos em suas vidas no sentido de se abrirem a um novo relacionamento quando for possível."

Cristiane defende que, enquanto estivermos vivos, é preciso que tenhamos felicidade com companhia. "Enquanto estamos vivos, precisamos de alegria, companhia e do sexo também, se estiver bem para os dois. Por que não?"

ENCONTRO

Sebastião Ventura, de 76 anos, começou a namorar há cerca de um ano. "Consegui uma companheira, estou namorando já tem mais de um ano. Foi rezando terço nas casas, a gente se conheceu assim e depois íamos para a missa também. Eu estava viúvo, minha finada esposa faleceu em julho de 2015, e ela estava divorciada", conta.

Ele diz que é feliz amando e sendo amado na terceira idade. "Achei que precisava de uma companheira, depender sempre de nora, de filho, é complicado. A maioria dos idosos arruma uma companheira. Eu sentia falta, a gente se sente sozinho. É uma companhia para a gente conversar, distrair, é muito bom", conta ele sobre a namorada que tem 68 anos.

BUSCA

Helena Guglielmin Tizato, de 61 anos, procura um príncipe, mas deixa bem claro que não quer mais dividir a casa com um namorado, quer apenas alguém que lhe acompanhe em viagens e saídas. "Eu me acostumei com a minha liberdade, acho que não quero nem pensar alguém para morar junto. O que eu mais sinto falta é de sair para dançar, beber um chope, porque as amigas nem sempre podem ir junto, nem sempre dá certo, então, se eu não tenho com quem ir, acabo não indo."

Ela diz que está bem resolvida sem dividir a casa com um companheiro. "Não é gostoso ficar sozinha, mas você acaba se habituando, às vezes você quer viajar e não dá certo porque não tem com quem ir e ir sozinha é ruim. Queria alguém que viesse acrescentar, que me faça feliz, não que traga preocupação, isso não", conta.

Helena fala que aos finais de semana sente mais falta de alguém, pois, nos dias úteis, costuma sair mais de casa, visitar amigas e parentes. "Antes da pandemia, a gente ia em barzinho com a turma de amigos, ia no clube, mas precisa ir com alguém para dançar, senão não dança. Moro sozinha faz tempo e sinto mais falta de final de semana, que fico mais sozinha e bate a solidão", explica.

Ela também diz não sentir falta do marido que sustenta a casa. "Acho que quero mais um amigo, mas pode ser que Deus coloque alguém na minha vida. Sou viúva há 17 anos, depois namorei, tive dois namorados, mas você cria uma independência. Não quero um marido que me sustente, financeiramente a gente se vira, quero companhia mesmo."

VIVER MAIS

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a brasileiros que nascerem em 2020 viverão em média 76,7 anos e para quem nascer em 2040 a expectativa é ainda mais alta, 79,9 anos. Para se ter uma ideia do avanço, para quem nasceu em 2000, a expectativa média é de 69,8 anos.

Com esta expectativa cada vez maior, a quantidade de idosos deve aumentar nos próximos anos e, assim como outras medidas que melhoram a qualidade de vida da população neste faixa etária, o relacionamento amoroso deve ser cada vez mais comum entre idosos. Em contrapartida, a quantidade de divórcios aumentou muito no Brasil nos últimos anos. De 2004 a 2014, por exemplo, subiu 160%.

(Nathália Souza)

 


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