Jundiaí

Maternidade já não é mais o único caminho para as mulheres

ESCOLHAS Com a pandemia, aumenta a reflexão sobre maternidade, futuro e as opções para a não-maternagem para quem escolheu não ter filhos


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Mônica diz que a maternidade é uma escolha individual da mulher
Crédito: ARQUIVO PESSOAL

A vontade de constituir uma família é comum para muitas pessoas, mas cresce cada vez mais a quantidade de mulheres brasileiras, até mesmo na juventude, que já decidem não ter filhos.

Mônica Nishi, 44, é empresária e fala sobre sua decisão. "Desde cedo, nunca tive o desejo de ter filhos. Durante toda a minha vida eu nunca senti essa vontade. Com 20 e poucos anos, as pessoas me diziam que eu mudaria de ideia, mas isso não aconteceu", conta. "Por volta dos 30, eu tive certeza", completa.

A empresária diz que a decisão é muito importante e merece atenção. "É uma decisão difícil, nem todos abraçam. Isso gera dúvidas e culmina em resultados, um deles é a frustração da família. Meus pais e meus irmãos queriam que eu tivesse filhos, mas nunca me pressionaram. Sou de uma família tradicional japonesa e essa era uma decisão significativa, mas meu pai sempre me disse 'você é responsável pela sua vida e mais ninguém'. De fato, isso é verdade: nosso maior tesouro é decidir a nossa vida".

Engana-se quem pensa que não ter filhos é sinônimo de infelicidade ou solidão. "Eu tenho uma vida completa. A vida é muito rica, existe muito para se fazer. Tenho amigas que tiveram uma maternidade incrível, eu reconheço isso, mas tudo é questão de vontade", diz Mônica. "Antes de tudo, eu queria a minha independência financeira. Tenho muitos amigos, adoro viajar e meu desejo é conhecer o mundo. Minha prioridade é o prazer, me sentir bem. Hoje, aos 44 por exemplo, comecei a surfar", aponta. "Aos 40, cheguei a me questionar se era isso que eu realmente queria. É normal surgir essa reflexão, por conta da idade, mas eu mantive minha posição", conclui.

A empresária também é voluntária em uma ONG, a Inspiring Girls Brasil. "Nosso trabalho é empoderar meninas e mulheres para que busquem a carreira que quiserem, não importa a profissão. O voluntariado é uma maneira de deixar um legado no mundo", diz.

Quando questionada sobre relacionamentos, Mônica se posiciona. "Eu tive um relacionamento sério, mas no momento estou solteira. Também acredito que a maternidade não é algo para segurar relacionamento. Eu estou exatamente onde queria estar, não me arrependo", encerra a empresária.

DECISÃO JOVEM

Larissa Caroline Santos Saqueli, 19, é universitária e, mesmo sendo jovem, já afirma que não sente vontade de ser mãe em nenhum momento de sua vida. "Desde pequena, nunca me vi sendo mãe. Quando comecei a entender mais sobre a gestação e o parto, eu pensava que eu não queria passar por aquilo. Depois comecei a ter mais contato com a maternidade, quando pessoas próximas começaram a ter filhos, e foi aí que eu vi que, por mais que eu gostasse de crianças, não quero ser a mãe", conta.

A jovem também enxerga uma grande importância na maternidade. "Ser mãe é assumir uma responsabilidade enorme. Você precisa ter certeza absoluta que quer isso, porque vai ter um ser humano dependendo de você por muito tempo. É preciso ter em mente que sua vida toda vai virar de cabeça para baixo e eu não quero esta responsabilidade", diz.

O namorado de Larissa concorda com a decisão. "Desde quando nos conhecemos, deixei claro para ele esta escolha minha e ele aceitou", afirma. "Já os meus familiares esperam que eu mude de ideia um dia. Já ouvi me perguntarem o que eu vou fazer quando ficar velha, se vou para um asilo. Também já ouvi que, se eu amasse mesmo meu namorado, eu pensaria em ter filhos com ele um dia", conta a jovem.

"Tenho amigos que também não querem ter filhos e alguns que dizem que não me imaginam sendo mãe", compartilha Larissa.

Sobre mudar de ideia, a jovem acredita que isso não vai acontecer. "Ser mãe nunca esteve na minha lista de desejos para o futuro. Ainda preciso conquistar muitas coisas e conhecer muitos lugares", diz. Quando questionada sobre essas conquistas, apresenta suas ideias. "Além das conquistas materiais que todos querem, como uma casa e um carro, quero estudar mais. Esse ano me formo na minha primeira graduação, mas não vou parar. Quero me estabilizar trabalhando com algo que eu goste, quero viajar, conhecer outros lugares. Não que um filho vá me proibir de fazer tudo isso, mas durante a gravidez e enquanto a criança ainda é pequena, é um tempo dedicado apenas a ela. Acredito que esse tempo parada, atrasaria esses planos."

LIBERDADE

A psicóloga Daniela Batacline, 33, fala sobre essa autonomia das mulheres. "Há um posicionamento das mulheres na atualidade, devido terem conquistado espaço ativo na sociedade. Diferente de outras décadas, por exemplo, em que não se podia decidir onde trabalhar ou com quem se casar", conta.

"Hoje existe uma nova possibilidade de escolha: a não maternidade. Essa tem sido uma atitude comum entre as mulheres que estão investindo na carreira profissional", completa Daniela.

"Além disso, essas mulheres podem exercer a maternagem de outras formas, como cuidar do lar, do relacionamento, de cachorros, da família. Ou seja, exerce o cuidado e a doação ao outro de diferentes formas", aponta.

"Acredito que a pandemia também trouxe a possibilidade de reflexão sobre a criação de filhos. Com isso, a percepção dos pais e cuidadores aumentou. "Posso dizer que o tempo sempre irá influenciar as escolhas das mulheres. Isso tem mais a ver com um posicionamento do que com a negação da feminilidade ou traumas e problemas relacionados à maternidade."


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