Jundiaí

Sequelas da covid-19 vão de perda de memória a odontológicas

MESES Depois de um período livre da doença, algumas pessoas apresentam sequelas da covid-19, que vão de perda de sentidos à insuficiência respiratória


                               ALEXANDRE MARTINS
Camila Gabriela Flocco diz que sequelas físicas, respiratórias, emocionais e odontológicas são as mais comuns
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

A covid que vemos hoje pode ser só a ponta de um iceberg. Isso porque ainda não se sabe ao certo quais são as sequelas causadas pela doença e nem se todas elas podem ter tratamento e cura. A partir de um estudo desenvolvido por uma coalizão de hospitais brasileiros, sabe-se que, no período de seis meses depois da alta hospitalar, 25% dos pacientes que foram intubados com covid-19 morreram.

Ou seja, as sequelas para quem fica na UTI são ainda maiores. Segundo a fisioterapeuta da equipe multidisciplinar do Ambulatório Pós-covid de Jundiaí, Camila Gabriela Flocco, a internação prolongada e intensiva costuma ser nociva. "O paciente fica parado, acamado, e isso acaba afetando bastante a respiração, os músculos e até o psicológico. Qualquer tipo de internação traz sequelas, tudo depende do tempo."

"Os pacientes podem ter problemas renais, AVC [acidente vascular cerebral] e também há o risco com doenças preeexistentes. Já atendi paciente que foi internado pela covid e teve um AVC na internação, há estudos que dizem que pode ser por causa dos efeitos colaterais da medicação utilizada, mas isso é relativo, é preciso avaliar cada caso em si", explica a fisioterapeuta.

Um caso destes aconteceu com Carlos, de 52 anos, marido de Shirley Almeida, de 50 anos. Ele teve covid-19 e, durante o tratamento, um aneurisma cerebral, que causa AVC, rompeu. "No início de dezembro ele começou a ficar ruim e fomos ao hospital, em casa todo mundo pegou covid, mas ele foi ficando pior, teve sintomas mais fortes. Levamos ele ao hospital novamente e ele ficou internado por cinco dias. Depois, o médico disse que ele estava estável e ele teve alta, ficou em casa", conta Shirley.

"Só que ele piorou. O médico receitou um remédio, mas ele foi piorando e em janeiro descobriu que estava com uma bactéria no pulmão, por causa da covid. O próprio médico que atendeu ele questionou o porquê de ele ter tido alta da primeira internação. Ele foi para a UTI e ficou intubado por 11 dias, até estava melhorando, mas o médico descobriu que ele tinha um aneurisma que rompeu. Ele era super saudável, mas também teve problemas no rins na internação. O aneurisma parece que também foi consequência, o médico disse que já teve outros casos iguais", conta Shirley sobre o marido que faleceu devido ao rompimento do aneurisma.

SENTIDOS

Um sintoma comum da covid é a perda do olfato, mas, mesmo depois de curadas, algumas pessoas relatam que ainda não conseguem sentir cheiros ou sabores. A secretária Daniela Pires, de 42 anos, diz que teve covid em setembro e não chegou a ficar internada, mas teve sintomas durante muitos dias e agora ainda não recuperou o olfato nem o paladar. "Ainda não fiz tratamento, não voltei mais no médico, quando tive sintomas, me passaram Azitromicina e Paracetamol e me disseram que, se eu tivesse sintomas mais graves, era para voltar ao hospital. Fiz o tratamento em casa até ficar bem."

No entanto, mesmo sem os demais sintomas da doença, Daniela ainda não está completamente recuperada. "Perdi olfato e paladar nos primeiros dias de infecção, também tive dor de cabeça, nas articulações. Meu marido também tinha testado positivo, mas ele não tem sequela. Eu tenho medo de não voltar ao normal porque já faz muitos meses e ainda não voltou", conta ela sobre a perda dos sentidos.

Segundo a fisioterapeuta Camila, o risco de sequelas eternas pode existir, inclusive de outro sintomas, como a perda da capacidade pulmonar. "Estes pacientes podem ser encaminhados para a fisioterapia respiratória. No caso dos pacientes que perdem os sentidos, isso acontece por causa da carga viral e não existe um tratamento específico para que os sentidos retornem, é preciso esperar mesmo."

Também sem o olfato, a atendente de operações de um parque de diversões, Mayara da Costa, de 21 anos, espera que não haja sequelas nem para ela e nem para a mãe, que hoje faz tratamento para recuperar a capacidade pulmonar. "Peguei covid em 19 de dezembro, fiquei em casa e minha mãe e minha tia também pegaram. Minha tia faleceu em janeiro e minha mãe ficou intubada, agora ela recupera o pulmão com fisioterapia. Eu não consigo sentir cheiro de nada, sinto só um cheiro estranho."

Ela conta que espera o período em que normalmente este sentido volta depois da infecção. "Os enfermeiros que foram em casa para atender minha mãe disseram que demora de dois a seis meses para voltar, mas, segundo uma das enfermeiras, estão desenvolvendo um tratamento para voltar. A minha mãe faz algumas atividades, mas o pulmão não voltou 100%, ela não consegue agachar, por exemplo", conta Mayara sobre ela e sobre a mãe que hoje faz exercícios para recuperar a respiração.

TRATAMENTOS

Segundo o neurologista da Faculdade de Medicina de Jundiaí, Richard Montgomery, a perda do olfato é observada com frequência entre pacientes que tiveram covid-19. "O nervo olfatório tem uma ligação direta com o cérebro humano, ele tem ligação com regiões primitivas do cérebro que estão próximas a regiões também responsáveis por controle emocional e da memória. O que eu tenho visto também são pacientes que evoluem com depressão, relatos entre médicos de depressão depois da infecção por covid, que pode ser também pela infecção ou pelo trauma e o tempo de internação."

O médico diz ainda que sequelas cognitivas também são observadas em uma parcela dos pacientes que tiveram a doença. "A sequela cognitiva resultante da infecção por covid pode ocorrer em um número significativo de pacientes, mas não é comprovada cientificamente, são relatos entre médicos. Não há comprovação e também não há um direcionamento, nós não sabemos qual é o tipo de sequela cognitiva ainda. Trabalhos estão sendo desenvolvidos, inclusive aqui no Brasil, mas no consultório eu tenho visto pacientes com déficit de memória operacional e de curto prazo, ou seja, têm encontrado dificuldades para realizar atividades do dia a dia", conta Montgomery sobre a também possibilidade disso ter alguma relação com as internações em UTI.

Camila Flocco afirma, no entanto, que mesmo para casos em que algumas sequelas permanecem após o tratamento, Jundiaí tem suporte para estes pacientes. "Estamos munidos de profissionais das UBSs que dão todo esse suporte. Já temos grupos para pacientes que tiveram a covid, que saíram do Centro de Reabilitação Jundiaí [CRJ], então estão melhores, mas ainda fazem acompanhamento. Sequelas físicas, emocionais, respiratórias e odontológicas são as mais comuns", conta ela sobre o CRJ, local que tem parceria com a prefeitura para atender a casos mais graves de reabilitação depois do encaminhamento do Ambulatório Pós-Covid.


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