Jundiaí

Um ano da pandemia é marcado por perdas, sequelas e superação

JUNDIAÍ A pandemia que chegou no município há um ano ainda não tem previsão de término, mesmo que em um ano tenha deixado perdas para a vida toda


 ALEXANDRE MARTINS
Milena Bezerra Leão assiste aos pacientes da UTI covid do HSV há um ano
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

A pandemia do coronavírus completa um ano em Jundiaí e continua avançando, sem data-limite, como uma onda que causa estragos quando passa. Em janeiro de 2020, o vírus era distante, não assustava. Em fevereiro do mesmo ano, desembarcava no Brasil, trazendo preocupação para alguns. Em março, Jundiaí conheceu a covid-19, mas, de um ano para cá, a doença persistente se instalou, e mesmo malquista ainda não sinalizou partida.

A população, ainda que cansada da mudança de rotina que era provisória e se tornou fixa, precisa lidar com a tragédia incomum. Neste um ano de pandemia, foram mais de 26 mil infectados na cidade, destes, mais de 620 pessoas não resistiram à doença, cerca de 600 ainda se tratam da covid-19 e mais de 24,8 mil conseguiram superá-la.

Uma das histórias de superação pós-covid é o de Nilton Resende, de 54 anos, um dos primeiros casos positivos na cidade. "Para se ter ideia do meu nível de recuperação, em dezembro, no meu aniversário, fiz uma caminhada de 42 quilômetros. Não tenho sequelas. Fiz fisioterapia só nos dois, três primeiros meses depois da alta", conta ele que saiu do hospital no dia 13 de abril, após 11 dias de internação.

Para Nilton, o descuido de muitas pessoas hoje reflete na dor de entes queridos. "Acho que as pessoas devem se cuidar para evitar chegar ao extremo que eu cheguei, que foi ser intubado. A pessoa intubada não sofre, eu fiquei sedado, para mim esses 11 dias não existiram, não lembro de nada. A família que sofre, sem saber se a pessoa vai voltar para casa. Quando você volta para casa, você vê o medo da perda."

Para Nilton, a esperança deste momento é a vacinação, para que a pandemia não complete mais um ano. "Todo dia a gente vê recorde de mortes no jornal. Onde vai parar? Como nos EUA dá para vacinar todo mundo até maio e aqui não?", questiona.

Nem todos, porém, conseguiram passar ilesos pela covid-19. Célia Maria da Cunha, de 62 anos, também foi uma das primeiras jundiaienses contaminadas e ainda tem sequelas após um ano. "Fui para a praia no dia 27 de fevereiro, voltei dia 7 de março e no dia 17 comecei a sentir os sintomas. Fiquei com resfriado e muita tosse. O médico me receitou um xarope, mas não adiantou. Fui ao hospital no dia 26 de março e já estava com falta de ar."

Após a confirmação da doença através de exames de sangue e raio-x, Célia ficou em casa por 14 dias, isolada em seu quarto e tomando remédios receitados pela médica que a atendeu. "Fique uns 25 dias isolada, demorou muito para os sintomas passarem. Hoje, eu tenho palpitação e descobri há pouco tempo, não tinha antes da pandemia. Caiu muito o meu cabelo, tenho dores nas pernas e nas juntas, que eu não tinha, dores de cabeça", explica.

Ela, que no início tinha esperança de que um remédio para a doença fosse descoberto, viu o tempo passar. "Aqui no Brasil, só está desse jeito por causa dos governantes. Não estão muito preocupados com a doença. A população também não colabora, o povo não tem noção. Perdi muitas pessoas queridas, só vejo minha mãe de 85 anos do portão desde o início da pandemia. É muito sério, a doença está aí e tem que ter consciência. Só quem teve a covid ou perdeu alguém sabe."

UM DIA DE CADA VEZ

Vivendo o pior da pandemia todos os dias ao longo deste ano, a médica intensivista Milena Bezerra Leão se dedicou à UTI covid do Hospital São Vicente de Paulo (HSV) desde o início. "A gente está fatigado, falo isso em nome de quem está há um ano na pandemia. Muitos profissionais saíram do tratamento da covid porque não aguentavam mais e quem ficou está fatigado. Não sei de onde tiro mais forças, mas precisamos continuar."

Para Milena, a expectativa de término que tinha há um ano já não existe, sobretudo, não imaginaria o colapso que acontece agora. "São vários sentimentos. Cheguei a pensar se as pessoas estariam banalizando a morte. Perdi duas pacientes uma vez, mãe e filha. Como está essa família? O desrespeito de algumas pessoas, elas precisam entender que não respeitar as normas é desrespeitar algum familiar, alguém que pode morrer. Só quem está aqui sabe, vê", diz ela orientando sobre o cuidado, o isolamento, o uso de máscara e de álcool para higiene que devem continuar.

Para continuar atuando na linha de frente da pandemia neste momento, a médica se inspira nas pequenas conquistas. "Se a gente perde nove pacientes e salva um, é este um que reabastece nossas energias. Já teve caso desenganado por nós que saiu do hospital, caso de pais que estavam internado com um bebê de um ano em casa, sendo cuidado por uma tia, e os dois conseguiram sair. Isso reanima." Ainda assim, ela mantém o ceticismo quanto à melhora da pandemia, já que o futuro ainda é incerto.

FALTA

"O meu avô era farmacêutico, muito conhecido na Ponte São João. Ia na casa das pessoas de madrugada para ajudar porque antigamente não tinha muito médico. Ele era um herói na Ponte", descreve Rafael Junqueira Thorressan, neto de Miguel Thorressan, que faleceu aos 84 anos devido a complicações da covid-19, mesmo após ter se recuperado e tido alta.

"Antes de perder meu avô, perdi minha avó. Eles tinham 65 anos de casados. A gente sempre tomou muito cuidado, eu fazia mercado para ele não sair de casa e ele quase não saía. Mas, depois que a minha avó morreu, recebemos visitas, familiares foram confortar ele. Mesmo com o cuidado, ele se contaminou", conta Rafael.

Ele explica que o avô faleceu após cinco dias em casa, posteriores à alta da covid-19. "Eu cuidei dele todo esse tempo. Quando ele voltou do hospital, ele estava bem, não tinha mais sintomas. Fui à feira para ele de manhã, comprei as coisas que ele gostava de comer. Depois do almoço, levei ele para o quarto e deixei ele descansar. Do nada, a empregada que estava no quarto ao lado do dele me chamou porque ele estava conversando e não tinha ninguém lá. Ela foi ver e ele estava no chão. Percebi que tinha alguma coisa estranha, o olhar dele estava fixo, ele estava agitado", conta Rafael sobre a confusão mental que Miguel teve antes de ser levado ao hospital, internado e falecer depois de crises de convulsões. "O médico disse que tem relação com a doença, que é sequela, mas tudo ainda é novo."

Para Rafael, a pandemia afeta profundamente quem passa por ela como ele passou. "Tem coisas na vida que a pessoa só entende quando passa. Vão se conscientizar do tamanho do vírus quando perderem alguém que amam."


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