Jundiaí

Dores crônicas femininas são tema de pesquisa inédita

50% das mulheres entrevistadas reclamam da valorização que o médico dá às suas queixas de dor


Arquivo Pessoal
Julio Troncoso fez a pesquisa para amenizar sofrimento das mulheres
Crédito: Arquivo Pessoal

Com o objetivo de demonstrar que dores crônicas em mulheres são tratadas menos assertivamente e não recebem dos profissionais da saúde o mesmo tratamento dado aos homens, o pesquisador Julio Troncoso, autor do 'Dor Crônica - O Blog', em parceria com a Faculdade de Medicina de Jundiaí, lançou a pesquisa intitulada "Percepção do Atendimento Médico prestado às mulheres com dor crônica".

O resultado mostra que 50% das mulheres entrevistadas reclamam da valorização que o médico dá às suas queixas de dor e 75,5% das insatisfeitas reconhecem que o médico se preocupa com a doença, mas dá pouca atenção à essas queixas de dor.

Segundo Ana Carolina de Camargo Marchesini, ginecologista e vice-diretora da FMJ, a pesquisa é de extrema importância para formar profissionais da saúde. "Os projetos de pesquisa realizados pela FMJ auxiliam na formação dos nossos futuros médicos promovendo experiência em metodologia científica, fortalecendo a capacidade crítica de propor e analisar as evidências médicas. O tema "dor crônica" inserido num projeto de pesquisa acrescenta a esse processo educativo, o conhecimento de um sintoma comum, subjetivo e difícil de cuidar, que fará parte da vida profissional da grande maioria deles", explica.

Troncoso relata que mesmo que o número de mulheres impactadas pela dor crônica seja o dobro dos homens, a população feminina não é eficazmente atendida. "Muitas vezes a mulher é deslegitimada por ter maneira 'feminina' de se expressar, mais emocional que os homens. Quando ela chega ao consultório e relata uma dor que não possuí causa aparente, principalmente a um médico homem, eles acham que é exagero ou coisa da cabeça", relata.

A empresária Macarena Lobos Croquevielle, de 51 anos, conta que sentia dores muito fortes na barriga e sangrava, como uma menstruação, 24h por dia. Ela descobriu que estava com um mioma de cinco centímetros no útero. "Consultei cinco ginecologistas homens e todos eles disseram para eu retirar o útero. Um deles nem chegou a me examinar, só falou 'você já tem mais de 50 anos, não vai mais ter filhos, não serve mais para nada'. Para eles é fácil, não entendem o que isso significa para a mulher. O meu problema só melhorou quando passei com uma ginecologista mulher que me receitou um anticoncepcional. Fiz tratamento por seis meses e utilizei a ozonioterapia", relata.

Macarena conta que chegou à pesquisa por conta de amigas fisioterapeutas que indicaram o blog de Julio. "Me interessei e resolvi ajudar na pesquisa. Acho muito importante falar sobre isso, pois se não tivesse investigado melhor, teria perdido um órgão sem necessidade", afirma.

A PESQUISA

O estudo foi realizado com 1.022 mulheres, de 18 a 78 anos (maior parte entre 40 e 60 anos), entre outubro e novembro de 2020, por meio de um questionário veiculado on-line no blog. (veja mais sobre a pesquisa na versão on-line)

A pesquisa revelou que 86% das mulheres sente dor há mais de seis meses; 62%, relata alta intensidade de dor, e quase um terço, 29,4%, sente dor intensa, sem ter essa condição "legitimada" pelo médico. O objetivo da pesquisa, além de conhecer a percepção que as pacientes com dor crônica têm do atendimento recebido por parte de médicos e de suas equipes, é o de chamar a atenção para um campo da medicina que só irá se expandir e aprofundar no futuro, as desigualdades de gênero.

Esse estudo servirá de argumento para chamar a atenção dos profissionais da saúde, especialmente os médicos. A motivação surgiu, pois após sofrer por 25 anos de dor cervical, Julio passou a se dedicar à pesquisa sobre dor crônica, e descobriu que o tema não é conhecido no Brasil.

Para saber mais sobre o trabalho e a pesquisa, acesse o blog https://dorcronica.blog.br/

(Mariana Checoni)

 


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