Jundiaí

Idosos sofrem mais com o isolamento social

CUIDADO Com o fechamento do Celmi, idosos lamentam a falta de opção, mesmo durante a pandemia


                   ALEXANDRE MARTINS
Paulo e Matilde Zichel Manzato estão em isolamento desde o início da pandemia e ela lamenta a fim do Celmi
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Não há dúvida de que a internet se torna cada vez mais necessária no mundo moderno. A pandemia escancarou isso com o distanciamento social, mas, não raramente, os idosos preferem a presencialidade. Isso porque eles não são nativos digitais, ou seja, não nasceram em um mundo onde a internet e os eletrônicos são parte da rotina. Por conta disso, somado ao fato de que são do grupo de risco da covid-19, eles sofrem com a pandemia.

Matilde Zichel Manzato, de 76 anos, conta que é difícil não ter contato presencial com as pessoas. "Agora, você não tem com quem conversar além de familiares. Ainda bem que eu e meu marido conversamos, vemos TV às vezes, nos damos bem, mas dá uma certa angústia. Os meios eletrônicos são bons, mas não substituem o físico. É difícil não sair de casa, faz muita falta", desabafa.

Para ela, a vacinação traz esperança, mas ainda existe a preocupação com outras pessoas. "A vacina é uma luz. Tomei segunda-feira [15] a primeira dose e preciso aguardar a segunda dose para melhorar a imunidade. Temos a vontade de encontrar pessoas, mas me preocupo. Nós idosos em breve vamos ter essa segurança, mas e o resto da população, como fica? Espero que o poder público olhe por todos, que ninguém fique só."

Maurício Papa, de 70 anos, diz que está lidando bem com a pandemia por não ficar isolado. "Para mim, o período está sendo tranquilo, dou minhas fugidas, vou a restaurantes, shopping, quando estão abertos, mas sempre de máscara, sempre me cuidando bastante. Eu acredito que se eu estivesse totalmente isolado, eu estaria pior, faz falta sair um pouco. Em janeiro, viajei 21 dias, fui passear na Bahia, fui tomar um solzinho. Foi uma viagem muito gostosa", relembra.

PERDA

Porém, tanto Maurício quanto Matilde, após o período conturbado da pandemia, terão um local a menos para matar a saudade dos amigos. O Centro de Educação e Lazer para Melhor Idade (Celmi), que oferecia cursos para idosos, não voltará a atender presencialmente, mesmo após a volta à normalidade.

O prédio onde o Centro funcionava pertence à Prefeitura de Jundiaí, que pediu a desocupação do espaço, fazendo com que a sede do Celmi não exista mais. Com a perda deste espaço, os idosos perdem uma opção de lazer e aprendizado em Jundiaí.

Matilde lamenta o fechamento do Celmi e diz que, mesmo que algumas aulas de lá estejam disponíveis on-line, não é igual. "Eu e meu marido frequentamos o Celmi por muito tempo. Tentei fazer os cursos on-line, mas é um pouco complicado. É uma dificuldade grande porque, pela internet, a gente também movimenta as energias dentro de nós, mas presencial é tão bom que não consigo explicar a falta que faz."

"Achei que o Celmi fosse fechar como outros lugares, temporariamente. O Celmi é, foi e continuará sendo ponto de referência para os idosos na cidade. Você se reunia com amigos, tinha aprendizagem, como informática, que temos dificuldade, e outros cursos. Eram tantas coisas boas, nossas festas, passeios. É uma pena acabar", lamenta ela.

Maurício também frequentava o local e encara com tristeza o encerramento do atendimento físico. "Eu costumava frequentar o Celmi três vezes por semana. Eu conseguiria acompanhar as aulas de lá on-line, mas não tenho paciência e perdi o interesse. O interesse era pegar o carro, ir ao Celmi, tomar um café, encontrar os amigos, contar piadas. On-line não tem isso."

Maurício, sempre ativo, mantém as esperanças de que as coisas voltem ao normal, lamenta apenas o fato de que o Celmi possa não ter mais atividades presenciais. "O que não consigo fazer agora e sinto falta é o Celmi. Sinto falta de socializar com os amigos de lá e, mesmo não vendo as aulas on-line, dou uma contribuição mensal a eles. Outra coisa que não faço, mas deveria, são caminhadas, mas não é por causa da pandemia, não vou por preguiça mesmo", conta ele rindo.

Eusébio Pereira dos Santos, gerente do Celmi, diz que o Centro terá que se adaptar ao fato de não ter o prédio onde esteve há mais de 20 anos. "O Celmi tinha 1,2 mil alunos no ano passado antes da pandemia, hoje, tem só cento e poucos. Mas o Celmi não vai acabar, ele já mudou com o passar do tempo desde que surgiu, em 2000. Vamos seguir em novos formatos. Com a pandemia, a gente precisou acelerar plataformas on-line. Temos um prazo para deixar o local e vamos mudar o desenho do que era oferecido, vamos tentar achar um outro prédio, mas com certeza não será do tamanho do que tínhamos."

Eusébio diz que a cidade perde um local importante de socialização da terceira idade. "Era uma concessão municipal, mas o Celmi está ali antes da prefeitura ser proprietária do local. A prefeitura comprou o local em 2001, 2002. Há legislação municipal que impede que cedam prédios quando não é uma atividade filantrópica, mas acho errado, precisa ver o benefício do cidadão. Jundiaí tem 14% da população idosa, vai perder muito", reclama ele.

ISOLAMENTO

Um outro problema para idosos no período de pandemia pode ser o convívio familiar, que nem sempre é adequado, já que, por segurança, saem menos de casa. Promotor de justiça da Promotoria do Idoso de Jundiaí, Flamínio Silveira Amaral Júnior diz que o que chega a ele não se difere muito do observado antes da pandemia. "Houve aumento, mas muito pouco, nada fora do que já ocorria. Presumo que seja em razão das atividades dos idosos serem diminutas, este público que tem pedidos de ajuda é mais idoso, de 75 anos para frente. As denúncias que chegam, continuam iguais, são de vizinhos, familiares, da própria assistência social."

A principal situação, segundo Flamínio, que leva às denúncias de maus-tratos, é a falta de conhecimento de familiares para lidar, por exemplo, com quadros de demência. "O fato de estarem em isolamento não muda as situações, são as mesmas de antes. São problemas dentro de casa e a maioria não é uma violência verdadeira, é um problema de vulnerabilidade social. O idoso às vezes tem problemas de saúde e a família não sabe lidar", explica.

ASSISTÊNCIA

Alessandra Citelli, membro do Conselho Municipal de Direitos da Pessoa Idosa (Comdipi) e assessora de Políticas para o Idoso do Núcleo de Articulação de Políticas Públicas da Unidade de Gestão da Casa Civil da Prefeitura de Jundiaí, diz que o município dá o suporte necessário a este público. "Temos o Centro de Convivência do Idoso, o Centro de Referência do Idoso, os Cras, as UBSs e vários projetos que estavam em andamento. A prefeitura sempre deu esse suporte de cursos e lazer para os idosos. Tanto do Celmi quanto em faculdades, os cursos eram particulares e estão parados por causa da pandemia."

Ela diz que a saúde psicológica do idoso também pode ser assistida durante este período pandêmico. "Tanto saúde física quanto mental, a porta de entrada são os Cras e UBSs, para acompanhamento da saúde e psicólogos. Também temos o Centro de Valorização da Vida, que atende 24h e são especializados em ouvir", diz ela sobre a associação civil sem fins lucrativos.

Ela diz que a prefeitura tem investido em conteúdo on-line para idosos, inclusive do Time Jundiaí, além de outras medidas. "Dentro de cada unidade de gestão, levantamos as necessidades dos idosos. Temos o esporte, a assistência aos idosos em vulnerabilidade, temos programas de cuidado médico, temos também o Comdipi, que é muito atuante."


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