Jundiaí

"Sem dinheiro, bandidos apostam em tudo ou nada", diz polícia

REFLEXOS DA PANDEMIA Só esse ano foram quatro confrontos entre criminosos e policiais, que levaram a nove mortes, uma delas de um guarda municipal


ARQUIVO PESSOAL
O delegado Carlos Eduardo Barbosa diz que os criminosos sentiram a pandemia
Crédito: ARQUIVO PESSOAL

Desde o início do mês, quatro confrontos entre criminosos e policiais foram registrados em Jundiaí e Região. Dessas trocas de tiro, oito membros de associações criminosas e um guarda municipal morreram. Em todo o ano de 2020 não houve nenhum confronto, já no ano de 2019 inteiro foram três tiroteios. De acordo com a Polícia Civil, essa violência repentina também é reflexo da pandemia, já que os grupos criminosos passaram um ano sem conseguir fazer caixa e agora estão apostando no "tudo ou nada".

O primeiro confronto foi em 5 de março, entre cinco criminosos e policiais da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), na rodovia dos Bandeirantes, na altura de Jundiaí. Eles haviam roubado o cofre de um banco e iniciaram a troca de tiros ao avistar as viaturas da especializada. Todos os criminosos morreram. O segundo confronto ocorreu em Campo Limpo Paulista. Após tentar furtar loja e ser flagrado pela PM, o ladrão iniciou troca de tiros e foi morto, no dia 9 de março.

No dia seguinte, 10 de março, um ladrão de carga atirou contra o Tático Ostensivo Rodoviário e acabou morto, em Jundiaí. E, no dia 19 de março, houve um confronto sem vítimas no Jardim São Camilo entre traficantes e a Polícia Militar e à noite um procurado da justiça atirou e matou um guarda municipal ao ser abordado, sendo morto em seguida pelo outro GM da equipe.

REFLEXOS
DA PANDEMIA

A Delegacia de Investigações Gerais está responsável pelo inquérito de três dos quatro confrontos registrados nas últimas semanas. "Já fizemos a investigação, mas agora aguardamos os laudos para concluir o inquérito e enviar ao poder judiciário", explica Carlos Eduardo Barbosa Soares, delegado da DIG.

Segundo o delegado, ainda não é possível comentar esses casos, mas, em sua opinião, o que tem desencadeado os recentes confrontos é a própria pandemia. "Antes os criminosos faziam roubos a transeunte, roubo de carro, furtavam residências. Agora que tem mais gente em casa, eles não se preparam mais para furtar, mas sim para entrar na casa e enfrentar os moradores. A mesma coisa com a polícia, eles estão sem grandes roubos e sem dinheiro, então quando a polícia os aborda, eles vão para o 'tudo ou nada' e acabam entrando em confronto", avalia.

O professor e especialista em segurança pública, Rafael Alcadipani, também considera que o estresse causado pela pandemia tem atingido tanto os criminosos quanto os policiais. "A situação da vacina é estressante. Agora o governo estadual vai vacinar, mas a polícia atua na linha de frente também", comenta.

Para o especialista, em um momento de pandemia, as policias deveriam estar atuando apenas de forma preventiva. "Não é para policiais ficarem pegando pequenos traficantes. Eles precisam se proteger da doença. Não pode manter o mesmo procedimento operacional em uma época de pandemia."

A Polícia Militar discorda deste posicionamento, no entanto. "Não há o que se falar em dificuldade ou medo de abordar uma vez que o policial, ao escolher sua profissão, conhece e avalia os riscos nela existentes, inclusive jurando exercê-la mesmo que com o sacrifício da própria vida. Além disso, as abordagens ocorrem sob critério técnico encontrado na lei, inclusive tendo aumentado o número de abordagens no ano de 2020 em relação a 2019", segundo nota oficial.

INQUÉRITOS

Alcadipani explica que as investigações após confrontos com morte são um reflexo do estado democrático de direito. "Tiroteio não é o normal. Então é preciso investigar sempre para ter certeza que não houve excessos. As polícias precisam fazer trabalho, mas sempre sob fiscalização."

Após a conclusão do inquérito da delegacia, a promotoria pode, ou não, abrir um processo judicial. "O intuito é analisar se os procedimentos foram seguidos. Para isso ouvimos testemunhas, buscamos câmeras, laudo de quantos disparos atingiram e a dinâmica do evento", esclarece Barbosa Soares.

Em off, policiais explicam que esses processos judiciais acabam prejudicando-os financeiramente. "Eu pago uma mensalidade em um escritório de advocacia. Muitos de nós pagamos e isso não é barato", relata um deles. Para Rafael Alcadipani, o governo do estado deveria oferecer suporte jurídico aos policiais militares e civis, bem como a Prefeitura de Jundiaí aos guardas municipais.

Questionada sobre isso, a Polícia Militar informou que "vem sendo montado um sistema de apoio jurídico pela Caixa Beneficente da Polícia Militar decorrente de legislação governamental".

Já a Prefeitura de Jundiaí não comentou. Porém, a GM informou que anualmente prepara seus agentes por meio de capacitações. "A Guarda Municipal de Jundiaí realiza anualmente, por exigência do Ministério da Justiça, 80 horas/aula de estágio de qualificação profissional a todos os integrantes da GM de forma obrigatória. São 48 horas de legislação federal e 32 horas de manuseio de armamento e tiro."


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