Jundiaí

Órfãos da covid-19 têm de recomeçar sem alicerce

TRAGÉDIA A pandemia deixa vazios em muitas famílias, principalmente em filhos de vítimas da doença


ARQUIVO PESSOAL
Ecio Nogueira Lucatto faleceu uma semana antes da esposa, Fernanda
Crédito: ARQUIVO PESSOAL

"Tudo aconteceu muito de repente. Perdi a base da família e agora eu sou essa base, meu irmão de 10 anos é dependente e não estou sabendo lidar com tudo isso, então, minha família nos acolheu muito, como filhos mesmo."

Este é o relato de Ryan Henrique Nogueira Lucatto, de 20 anos, que perdeu o pai, a mãe e o avô em menos de 15 dias, por causa da covid-19, e agora tem de cuidar do irmão de 10 anos. Ele faz parte de uma triste estatística: filhos que precisarão crescer sem a presença dos pais.

A piora no quadro de saúde dos familiares foi muito rápida. "Todos da minha família pegaram covid. No primeiro final de semana meu pai foi internado, na outra minha mãe e em seguida meu avô. Meu pai faleceu em uma segunda-feira, meu avô na quarta e minha mãe uma semana depois", conta Ryan.

O suporte tem sido oferecidos pelos parentes. "Meus pais conheciam muita gente, mas agora estamos abrigados na casa da minha tia."

TRISTE ESPERA

Também filha de uma vítima, Mariah Eduarda Silva Pacheco, de 18 anos, moradora de Cabreúva, acredita que a morte do pai, Paulo César Pacheco Junior, de 44 anos, poderia ter sido evitada. Ele esperou uma semana por um leito de UTI. "Ele ficou praticamente uma semana aguardando a vaga. Ele foi transferido para Jundiaí às 9h e faleceu no mesmo dia às 18h. É estranho porque ele estava com o pulmão 75% comprometido, mas ele teve melhora na respiração, estava reagindo bem, só que precisava fazer diálise por causa dos rins, por isso foi transferido. Não entendemos a causa da morte dele, que foi insuficiência respiratória."

Agora, além dela, outros dois irmãos perderam a referência do pai. "Acredito que se tivesse internado ele antes, poderia ter salvado a vida dele. Minha avó fez campanha para conseguir leito para ele porque tinha vaga em Jundiaí e a gente não entendia porque não o chamavam. Todo mundo estava esperançoso com a transferência dele para a UTI, ninguém esperava a notícia do óbito tão rápido, no dia da internação. Meu pai era o chefe da família, deixou três filhos", diz ela também sobre os irmãos, de 17 e três anos.

AJUDA

Ainda se recuperando do choque de perder a filha Mayara Cristina Cavalaro Rocha, de 26 anos, para a covid-19, Gerson Zafalon agora cuida das três netas, de 10 meses, três e seis anos. "A Mayara estava reclamando de dor na cabeça e no corpo. Ela foi ao hospital, mas acabou voltando para casa. Depois de dois dias, ela estava com as três crianças e faleceu em casa, quando chegamos lá, já era tarde. Ela fez exame uma semana antes e deu positivo para a covid. Ela só tinha rinite e não tinha nenhuma outra doença crônica."

Gerson diz que ele e a esposa Adriana Del Rio Zafalon estão cuidando das três netas e de dois filhos menores que têm. "Eu e minha esposa pegamos covid, mas graças a Deus conseguimos nos curar e agora temos as crianças para cuidar. Tenho uma filha de 10 anos e um filho de 15", relata emocionado.

Gerson, que morava em um apartamento pequeno, pretende alugar uma casa maior, mas precisa apenas de ajuda com o caução dos aluguéis. "Tudo que vier é de Deus. Hoje, quem puder me doar R$ 1 para o aluguel já me ajuda porque pedem três aluguéis adiantados. Muita gente de coração bom doou alimento, leite e fralda para nós e não estou precisando disso agora, mas o que vier ajuda porque a gente só está no início. Minha esposa é cabeleireira e eu sou pedreiro, mas agora está tudo parado por causa da pandemia e não consigo fazer nada por causa das crianças, não tem escola", explica ele sobre o aluguel de R$ 1,2 mil de uma casa que conseguiu no Jardim Estádio.

CONTATO

Para quem puder ajudar a
família de Gerson com doações,
o contato da Adriana, esposa dele, é o (11) 99594-6336


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