Jundiaí

Mais de um ano de educação instável prejudicará uma geração

REFLEXOS Neste período pandêmico, não é raro crianças agressivas, irritadas e sem conseguir estudar em um modelo completamente diferente do habitual


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Bruna Waitman diz que SP oferta chips de internet a alunos carentes
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A pandemia perdura há mais de um ano em Jundiaí. Assim, o ensino, que precisou ser abruptamente modificado, ainda sofre instabilidades. Por vezes é remoto, por vezes é presencial, fazendo com que crianças e adolescentes precisem acompanhar as oscilações, além de acompanhar o aprendizado em si.

Para a posteridade, é inegável que haja déficits. Professora do curso de pedagogia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Maria Márcia Sigrist Malavasi diz que houve uma readequação dos alunos, dos pais e dos professores, mas haverá "lacunas a serem preenchidas quando o ensino presencial voltar."

"Na educação básica, do infantil ao ensino médio, os professores não estavam acostumados a trabalhar, a ensinar virtualmente, não tiveram isso na formação e tiveram que buscar. Para os alunos, muitos também nunca tinham ouvido falar em ensino virtual. Outro impacto é a adaptação a esse distanciamento dos amigos, da escola. Os alunos precisaram reaprender a aprender em suas casas e, quanto menor a idade, maior o impacto."

Para a professora, o processo de alfabetização terá grandes impactos. "Os pais perceberam que, sem a escola, não atingem bem o campo educacional, e a escola depende da família. O ensino coletivo é sempre mais fácil que o ensino solitário. A alfabetização vai se ressentir deste período de ensino", diz ela afirmando que o governo federal poderia ter minimizado os impactos negativos na educação em duas frentes, na gestão mais eficiente da pandemia, que garantiria o retorno mais breve às salas de aula, e no investimento, já que foi vetada um verba para a compra de aparelhos eletrônicos e rede de internet para alunos de escolas públicas.

APRENDIZADO

E como tudo que não é rotina prejudica crianças, não seria diferente com a educação. Psicóloga especialista em saúde mental e familiar, Glaucia Kraide explica sobre o estresse que muitas crianças principalmente vêm tendo. "Muitas das crianças estão bastante irritadas, têm ataques de birra. A família não dá conta de fazer o que tem que ser feito. Ter rotina e regras é muito importante para crianças, e é o que elas têm quando vão á escola. As crianças também são como esponjas, absorvem tudo ao redor, então, pais irritados, que acabam não conseguindo lidar com a situação do home office, do isolamento, podem refletir nos filhos."

Para o aprendizado, Glaucia conta que o on-line fica distante do que uma criança precisa. "Quanto mais nova, mais concreta a criança é. Ela precisa pegar e sentir, ter estes estímulos. Se tiramos isso, fica um déficit. Uma criança pequena não consegue ficar em frente a um computador para aprender, ela ainda não tem o cognitivo formado para isso, e os pais, muitas vezes não têm habilidade e nem tempo para isso."

Ela diz que adolescentes também estão mais suscetíveis ao estresse agora. "Tanto crianças quanto adolescentes precisam socializar, e a pandemia está tirando essa possibilidade. No meu consultório, casos como automutilação, tentativa de suicídio, quase dobraram em um ano. Essa faixa etária não fala dos problemas como fazem os adultos."

RECURSOS

Coordenadora do Centro de Mídias, da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, Bruna Waitman diz que as escolas nunca estiveram fechadas, já que há a distribuição de materiais e alimentos, e que, inclusive na Fase Emergencial, podem funcionar, com entanto que haja respeito às normas sanitárias vigentes. "Na Fase Vermelha, as escolas ficam abertas para atender os alunos, oferecer alimentação, os aparelhos tecnológicos que precisam para estudar e alguns alunos não têm em casa, materiais. Adiantamos o recesso do meio do ano, mas, com o fim dele, as escolas reabrem normalmente."

O governo do estado também anunciou a vacinação de professores com mais de 47 anos, com início para 12 de abril para quem leciona na Educação Básica. Bruna explica que, ainda assim, as aulas não ficam suspensas antes disso. "Há retorno presencial mesmo sem vacina, as escolas estão abertas. Os professores do grupo de risco que não vão á escola, mas transmitem aulas e acompanham os alunos de maneira remota", afirma ela sobre, independente da fase de restrição, as escolas não fecharem mais.

A Unidade de Gestão de Educação (UGE) de Jundiaí informa que segue as orientações do Comitê de Enfrentamento ao Coronavírus (CEC), além do Plano São Paulo. As aulas da rede municipal de ensino, após antecipação das férias escolares previstas para o mês de julho, retornam no dia 5 de abril. Diante do cenário pandêmico, com o número de casos e internações em crescimento na cidade, neste momento, as aulas retornarão em sistema remoto. As escolas receberão apenas os alunos que precisam fazer a alimentação.

"A UGE, desde o ano passado, oferta atividades complementares para os alunos do Ensino Fundamental para reforço e recuperação da aprendizagem, além de realizar ações para acolhimento emocional, orientação de estudos e tutoria pedagógica, plantão de dúvidas, avaliação diagnóstica e interação com as famílias dos estudantes, para fortalecimento do vínculo com a escola.", explica a gestora de Educação, Vastí Ferrari Marques.


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